“A Terceira Ordem do Amor: Equilíbrio.” 

Olá!

“Equilíbrio e Troca: A Dança Criativa entre Dar e Receber” 

Você já observou o movimento das marés?

A água avança sobre a areia, trazendo vida,  nutrientes e pequenas surpresas do oceano. Depois, recua, levando consigo partículas de  terra, conchas quebradas, vestígios do que encontrou. Avança novamente, em um ritmo  tão antigo quanto o próprio planeta.

Este movimento incessante – dar e receber, trazer e  levar – não é apenas um fenômeno físico, mas uma metáfora viva de um princípio  fundamental da existência. 

Em nossas vidas, experimentamos nossos próprios fluxos e refluxos.

Momentos em que  nos sentimos plenos, transbordando energia e recursos para compartilhar. Outros em  que nos encontramos vazios, necessitando receber, repousar, absorver.

Quando  resistimos a este ritmo natural – quando apenas damos sem permitir-nos receber, ou  quando apenas recebemos sem oferecer retorno – algo em nós e em nossos  relacionamentos começa a desequilibrar-se. 

Uma cliente certa vez me descreveu sua exaustão como “um poço que secou de tanto  dar água sem ser reabastecido”. Outro comparou seu relacionamento a “uma conversa  onde só uma pessoa fala”. Estas metáforas capturam algo essencial: o equilíbrio não é  um estado estático, mas uma dança dinâmica entre dar e receber. 

Um Novo Olhar… 

Na décima primeira reflexão do livro “36 Reflexões Sistêmicas para Transformar sua  Vida”, exploramos como o verdadeiro equilíbrio emerge de trocas justas.

“Perdoar não é  esquecer” aliás aqui nem usamos a ideia de perdão (e escreverei outro artigo sobre isso) usamos o “sinto muito”- pois o sentir é recíproco, reconhecemos que a dor que pesa tanto para quem causou quanto para quem  sentiu – ainda que de formas diferentes ninguém sai ileso dos encontros da vida – aprender a reconhecer essa reciprocidade é   para quem deseja seguir com leveza, nos lembra o texto.

Esta compreensão nos convida  a reconhecer que o equilíbrio não é perfeição, mas movimento contínuo de ajuste e  reconciliação.

O que acontece quando expandimos esta compreensão para além de nós mesmos e de nossa dor? 

Quando olhamos para nossos relacionamentos íntimos ou para o ambiente profissional  através desta lente?

A terceira Ordem do Amor de Bert Hellinger – o Equilíbrio ou Troca –  revela-se então não apenas como um princípio pessoal, mas como uma lei sistêmica que  opera em todas as escalas da experiência humana. 

Essa Inteligência Sistêmica é Romantismo?

De modo algum.

O equilíbrio, na visão sistêmica, não é um estado fixo de igualdade, mas um processo  dinâmico de trocas que honram o valor único de cada contribuição.

É o princípio que  permite que a energia flua livremente entre nós, nutrido tanto pelo dar quanto  pelo receber. 

Na física, encontramos este princípio na termodinâmica de sistemas abertos – sistemas  que trocam energia e matéria com seu ambiente.

O físico Ilya Prigogine demonstrou que  sistemas vivos mantêm-se longe do equilíbrio termodinâmico através de trocas  contínuas com o ambiente.

Paradoxalmente, é este “desequilíbrio” que permite a vida –  um equilíbrio dinâmico que se mantém através do fluxo, não da estagnação. 

Na ecologia, observamos como ecossistemas saudáveis dependem de ciclos de  nutrientes onde cada organismo tanto recebe quanto contribui.

A árvore absorve água e  minerais do solo, mas devolve matéria orgânica através de suas folhas caídas. O  princípio da reciprocidade ecológica não exige trocas idênticas, mas complementares –  cada espécie contribui de acordo com sua natureza única. 

Quando Bert Hellinger identificou o Equilíbrio como a terceira Ordem do Amor que regem as relações, ele  estava reconhecendo um princípio que transcende o contexto familiar e reflete uma lei  fundamental da vida: sistemas saudáveis mantêm um fluxo equilibrado de dar e receber.

Aplicação Prática na Esfera Individual.

Em nossas vidas diárias podemos perceber que o equilíbrio manifesta-se no ritmo entre atividade e necessidade de  descanso, entre vontade de se expressar e de ficar quietinho em nosso canto.

Quando ignoramos este ritmo – quando nós nos  empurramos constantemente, com essa ideia de que precisamos “ser forte”,  sem permitir recuperação, ou quando nos isolamos sem  oferecer nossa contribuição única ao mundo – criamos desequilíbrios que  eventualmente buscam compensação através de sintomas físicos ou emocionais.

Exercício de Observação:

Reflita sobre seu ritmo pessoal de dar e receber.

Há áreas de  sua vida onde você está constantemente dando sem reabastecimento? Ou talvez áreas  onde você recebe sem oferecer retorno? Descreva algumas formas de restabelecer o equilíbrio.

Como seria honrar o fluxo natural entre estes  dois movimentos nas áreas mais importantes de sua vida?

Aplicação Prática Na Esfera Relacional (Casal) 

Nos relacionamentos íntimos, o princípio do equilíbrio manifesta-se nas trocas diárias  de recursos materiais,  atenção, cuidado, vulnerabilidade e força.

Não se trata de contabilidade rígida – “eu  fiz isso, então você deve fazer aquilo” – mas de um reconhecimento sensível do fluxo  energético entre parceiros. 

Vejo em meu dia a dia o quanto inúmeros casais  enfrentam  um padrão onde ela sempre assumia o papel de  “forte” e ele de “vulnerável”- atualmente o contrário chega a ser raro.

Entretanto,  esta dinâmica, inicialmente confortável para ambos,  eventualmente cria ressentimento e exaustão caso não seja bem conversada, compreendida e ajustada.

A transformação começa quando  reconhecem que cada um precisa  tanto dar quanto receber força e vulnerabilidade –  não em proporções idênticas, mas em um ritmo que honre a natureza única de cada  um. 

Perguntas Reflexivas:

Em seu relacionamento, como flui a energia entre dar e receber? 

Há papéis fixos que talvez precisem de mais fluidez?

Como seria uma conversa que  reconhecesse as contribuições únicas de cada parceiro e também suas necessidades de  receber? 

Como trazer essa Inteligência Sistêmica para Minha Empresa, Equipe ou Sala de aula?

No ambiente de trabalho, o princípio do equilíbrio manifesta-se nas trocas entre  contribuição e reconhecimento, entre esforço e recompensa.

Organizações ou equipes  onde  colaboradores sentem que dão muito mais do que recebem, sentem que é ok oferecer o mínimo, onde recompensas são  distribuídas sem conexão clara com contribuições, ou onde os critérios de seleção excluem a competência necessária a cada função, frequentemente enfrentam  problemas de engajamento, retenção ou mesmo qualidade.

Podemos observar o quanto o reconhecimento, o sentimento de pertencimento costuma gerar maior satisfação e menos adoecimento entre profissionais ou alunos, do que autos salários ou notas.

Um ambiente emocional frio e desqualificante – onde os indivíduos sentem que suas contribuições criativas e seu  investimento emocional não são reconhecidos, onde apenas resultados tangíveis precisam ser atingidos a qualquer preço – gera adoecimentos e problemas em diferentes níveis.

Prática Organizacional

Observe como sua organização equilibra o dar e receber.

Os  colaboradores ou alunos sentem que suas contribuições são reconhecidas em suas múltiplas  dimensões?

As recompensas – não apenas concretas, mas de crescimento, autonomia  e propósito – fluem de maneira que honra o valor único de cada contribuição?

Como  seria criar uma cultura onde o equilíbrio dinâmico entre dar e receber fosse  conscientemente cultivado?

A Lei do Equilíbrio Atua em Todas as Esferas da Vida! 

O que emerge quando reconhecemos o Equilíbrio como um princípio que opera  simultaneamente nestas três esferas – individual, relacional e profissional? 

Transcendemos a falsa dicotomia entre “altruísmo” e “interesse próprio”. 

Percebemos que dar e receber não são opostos, mas aspectos complementares de um  mesmo fluxo vital, ritmos.

Quando honramos este fluxo – permitindo-nos tanto dar  generosamente quanto receber graciosamente – uma criatividade natural emerge.

Não  a criatividade do esforço constante, mas a criatividade que surge quando permitimos  que a energia flua através de nós, não apenas de nós. 

Esta compreensão nos conecta naturalmente com as duas primeiras Ordens do Amor. 

Pois é apenas quando todos têm seu Pertencimento reconhecido, e quando cada um  assume sua Função autêntica – aquilo que realmente sabe fazer de melhor – que o sistema pode encontrar o equilíbrio dinâmico onde  a criatividade e a troca fluem livremente. 

Voltemos às Marés. 

O que torna possível aquele movimento incessante, aquela dança  entre avançar e recuar?

Não é apenas a força gravitacional da lua, nem apenas a rotação  da Terra, nem apenas a forma das bacias oceânicas.

É a interação harmoniosa entre  todas estas forças – um equilíbrio que se mantém através do movimento, não  apesar dele. 

Quando honramos o equilíbrio em todas as escalas de nossa experiência, algo profundo  se transforma.

Aquela sensação de nada acontece, de cansaço imenso ou sentimento de falta de valor , dá  lugar a uma experiência de fluidez – como se a vida fluísse através de nós, não apenas  de nós ou para nós. 

E você,

como tem honrado o princípio do Equilíbrio nas diferentes esferas de sua vida?  Que novas possibilidades se abrem quando expandimos este olhar do individual para o  coletivo? 

Referências Essenciais

Constelação Familiar

  • Bert Hellinger
    Ordens do Amor. Cultrix, 2007.
    Capítulos sobre troca, equilíbrio e reparação.

Física / Termodinâmica

  • Ilya Prigogine
    As Leis do Caos. Editora Unesp, 2002.
    Equilíbrio dinâmico em sistemas abertos.

Ecologia / Vida como Sistema

  • Fritjof Capra
    A Teia da Vida. Cultrix, 1996.
    Reciprocidade ecológica e fluxos de energia.

Importante

Este artigo é o terceiro de uma série que explora as Três Ordens do Amor de Bert  Hellinger em múltiplas escalas da experiência humana. Juntos, estes três princípios –  Pertencimento, Ordem e Equilíbrio – oferecem uma bússola para navegar a  complexidade da experiência humana, do individual ao coletivo, sempre em direção a  uma maior integração e fluidez.

Um abraço,

Rosana Jotta.

Prof.de Inteligência Sistêmica com mais de 20 anos de experiência.
Consteladora Familiar Sistêmica (Formação com Bert Hellinger, Mimansa e Dr César Santiago)  e Terapeuta Comunitária Integrativa pela ABRATECOM.
Instituto Rosa da Terra Inteligência Sistêmica Prática.


Deixe um comentário