O Riso e o Medo da Vida: Dogma, Seriedade e Inteligência Sistêmica

Olá!

Sou daquelas que frequentemente se surpreende rindo em contato com o que chamamos de temas sérios.
O lado bom é que, embora muitas vezes ainda me desculpe por isso, hoje consigo levar com a leveza que só a maturidade oferece.

E digo maturidade porque idade cronológica e maturidade são territórios distintos.
Para envelhecer, estar vivo é suficiente.
Para amadurecer, é preciso esforço consciente — e ele custa essencialmente nosso recurso mais escasso e precioso: o uso do tempo, que é a própria vida.

O riso é um tema silencioso que atravessa a história do pensamento humano e que, curiosamente, continua atual: o medo do riso nos espaços considerados “sérios”.

Esse tema aparece de forma magistral na obra O Nome da Rosa, de Umberto Eco. Ali, o riso não é tratado como frivolidade, mas como uma ameaça real aos sistemas que se sustentam pela rigidez, pelo dogma e pelo controle do sentido.

O livro nos mostra que o riso assusta não porque seja superficial,
mas porque desorganiza estruturas de poder baseadas no medo.

Hoje, vejo o riso como remédio.
Como fruto e presente do Anjo da Alegria, cultivado pelos essênios na esfera feminina da Vida — aquela que nutre, acolhe, integra e devolve humanidade ao que se tornou duro demais.

Rir, nesse sentido, não diminui a seriedade da vida.
Apenas a devolve ao lugar onde ela pode respirar.


O riso como risco sistêmico

Na narrativa de Eco, o riso é censurado porque pode libertar.
Quem ri deixa de temer.
E quem deixa de temer já não se submete com a mesma facilidade.

Por isso, no romance, o riso é associado ao caos, à heresia, à perda de autoridade. Não por acaso, o saber que poderia legitimar o riso precisa ser escondido, envenenado, eliminado.

Do ponto de vista sistêmico, isso é revelador.

Sistemas rígidos confundem ordem com imobilidade.
Confundem seriedade com verdade.
E passam a tratar qualquer sinal de leveza como ameaça.

Aqui acreditamos nisso e olhamos esse medo como a polaridade do amor que vê a realidade com essa clareza sistêmica que cultivamos.


Quando a seriedade vira idolatria

O problema nunca foi a seriedade em si.
O problema é quando ela se torna idolatria da seriedade.

Nesse ponto, a vida deixa de ser sistema vivo e passa a ser doutrina. A curiosidade vira perigo. A dúvida vira falha moral e o riso vira desvio, visto como falta de respeito.

O que Eco expõe literariamente é algo que reconhecemos em muitos campos contemporâneos — inclusive nos campos terapêuticos, científicos, educacionais e espirituais: quando uma ideia se cristaliza, o humano precisa se encolher para caber nela.


O riso como sinal de ordem viva

Na Inteligência Sistêmica, o riso não é visto como oposição ao rigor.
Ele é, muitas vezes, sinal de integração.

Quando um sistema encontra coerência interna, o corpo relaxa. E, quando o corpo relaxa, o riso pode emergir — não como deboche, mas como alívio.

É por isso que, em experiências profundas de aprendizagem, encontros significativos ou diálogos honestos, o riso aparece. Ele indica que o campo deixou de operar na defesa e entrou em presença.

Sistemas que não toleram o riso geralmente estão sustentados por:

  • medo de perder autoridade,
  • confusão entre ética e moral,
  • necessidade de controle do sentido.

Riso, autonomia e maturidade

Rir não é banalizar.
Rir é não absolutizar.

O riso revela a capacidade de sustentar paradoxos, de reconhecer limites, de perceber que nenhuma ideia — por mais profunda que seja — substitui a vida.

Nesse sentido, o riso é um marcador de maturidade sistêmica. Ele aparece quando:

  • o pensamento encontra eixo,
  • a identidade não depende de rigidez,
  • o sujeito não precisa vencer para existir.

O medo do riso, ao contrário, revela imaturidade estrutural. Revela sistemas que só se mantêm de pé enquanto todos fingem solenidade permanente.


O cotidiano como antídoto ao dogma

Talvez por isso o riso surja com tanta naturalidade no cotidiano simples:
na conversa sem pretensão,
na observação da vida comum,
no encontro humano que não precisa provar nada.

O cotidiano — com seus pequenos gestos, repetições e imperfeições — devolve humanidade aos sistemas. Ele rompe a ilusão de grandeza e nos lembra que viver é sempre mais amplo do que explicar.

Como já foi dito tantas vezes, o essencial é simples.
E o simples, quando reconhecido, costuma vir acompanhado de leveza.

Não sei você, mas eu considero isso uma das coisas mais lindas da vida:
o poder de rir — inclusive, e especialmente, de mim mesma.


Conclusão: rir é um ato de confiança na vida

Rir, no sentido mais profundo, é confiar que a vida não precisa ser controlada para fazer sentido.

É permitir que o pensamento respire.
É admitir que não sabemos tudo.
É reconhecer que a verdade não se impõe — se revela.

Talvez seja por isso que o riso assuste tanto os sistemas fechados.
Ele não pede licença.
Ele simplesmente acontece quando o medo diminui.

E onde o medo diminui, a vida volta a fluir – o amor prospera.

O que acha de compartilhar conosco suas experiências com o riso?

Um abraço,

Rosana Jotta.

Prof. de Inteligência Sistêmica

Referências Bibliográficas

O Nome da Rosa
ECO, Umberto. O nome da rosa. Rio de Janeiro: Record, 1983.

A fonte não precisa perguntar pelo caminho
HELLINGER, Bert. A fonte não precisa perguntar pelo caminho. São Paulo: Atman, 2007.

O riso
BERGSON, Henri. O riso: ensaio sobre a significação do cômico. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

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