O Que É a Biossistêmica?

Um paradigma alinhado com um esse olhar fenomenológico diante da vida. A VIDA é um fenômeno complexo.

Olá!

Vou usar um exemplo do contexto da educação formal.

Uma criança para de aprender. Os professores dizem que ela tem dificuldade de concentração. Os pais levam ao neurologista. O laudo não encontra nada conclusivo. Mas ninguém pergunta o que aconteceu em casa, ou na própria escola no semestre anterior.

Damos pouco significado ao modo como ela se comporta quando a professora levanta a voz. Ao fato dela sempre se sentar perto da porta.

O que parece corriqueiro e irrelevante, raramente é. São sinais dados pelo corpo.

Essa criança não tem um problema de aprendizagem. Ela tem um sistema nervoso que aprendeu a se proteger, e que, enquanto estiver em modo de proteção, não tem recursos disponíveis para aprender.

Ver isso não é intuição. É uma leitura que se torna possível quando se adota uma lente específica: o Paradigma Biossistêmico.

Um ponto que importa compreender bem: na Biossistêmica trabalhamos em dois planos simultâneos.

O primeiro é o indivíduo, um sistema biologicamente fechado, autopoiético, que só se transforma a partir de sua própria organização interna.

O segundo são os contextos relacionais, culturais e históricos, sistemas abertos que geram perturbações severas sobre esse organismo, que por sua vez atua sobre esses sistemas abertos da mesma forma.

Essa distinção tem consequências que vão além da sala de aula ou do consultório.

Quando perdemos a noção de que somos os criadores contínuos dos sistemas sociais que habitamos, tornamo-nos reféns deles, e a transformação parece exigir forças cada vez maiores para acontecer.

Mas isso é assunto para o próximo artigo.

O que a palavra carrega

Bio é o que é vivo: o corpo, o sistema nervoso, a fisiologia, os processos que acontecem abaixo da consciência e que orientam cada decisão que tomamos.

Sistêmica são as relações: os padrões que emergem entre pessoas, entre grupos ou contextos, isso nenhum indivíduo produz sozinho e nenhum indivíduo consegue ignorar.

A Biossistêmica propõe que esses dois planos são inseparáveis na prática. São distinguidos conceitualmente em diferentes disciplinas para fins de valiosas análises.

Em nosso dia dia não existe cognição fora de um corpo. Não existe corpo fora de um campo de relações. E não existe vida ou aprendizagem que não passe por ambos.

Isso parece óbvio quando dito assim. Mas a maior parte das abordagens educativas, terapêuticas e organizacionais foi construída como se a separação fosse real: trate o corpo aqui, a mente ali, o contexto em outro lugar.

O resultado é que intervenções precisas em partes isoladas muitas vezes não transformam o todo, porque o todo tem uma lógica própria que as partes sozinhas não revelam.

O que muda quando se adota essa lente

Leia mais: O Que É a Biossistêmica?https://institutorosadaterra.com.br/trilha-inteligencia-sistemica-post/: O Que É a Biossistêmica?

Humberto Maturana e Francisco Varela, com o conceito de acoplamento estrutural, mostraram que organismos vivos não processam informação de fora para dentro.

Eles se modificam internamente em resposta às perturbações do ambiente, a partir de sua própria organização interna.

Isso significa que nenhum sujeito é passivo diante do contexto: ele responde sempre a partir de si, mesmo quando parece apenas reagir ou estar neutro.

António Damásio demonstrou que decisões racionais dependem de marcadores somáticos, aqueles sinais do corpo que orientam a cognição antes que ela se torne consciente. Como no exemplo de sempre se sentar perto da porta.

Ou seja, separar emoção de raciocínio não produz pensamento mais claro; produz pensamento amputado.

Stephen Porges, com a Teoria Polivagal, mapeou como o sistema nervoso autônomo regula continuamente o estado de segurança ou ameaça de um organismo, e como esse estado determina o que é possível aprender, criar ou incluir em cada momento.

Esses três referenciais não são decoração teórica.

Eles descrevem mecanismos reais que a Biossistêmica usa como ferramentas de leitura: quando um aluno “resiste”, quando uma equipe “trava”, quando uma pessoa “sabe o que precisa fazer mas não consegue”, há ali um processo biossistêmico acontecendo.

Em outras palavras é um processo complexo que envolve diferentes áreas do conhecimento humano. Por isso o paradigma biossistêmico é integrativo e transdisciplinar.

Alinhado com um esse olhar fenomenológico diante da vida. A VIDA é um fenômeno complexo.

O paradigma que sustenta a Inteligência Sistêmica

A Inteligência Sistêmica, essa a capacidade de ler os padrões relacionais que nos atravessam e de agir a partir deles com mais consciência, tem fundamento. O Paradigma Biossistêmico é esse fundamento.

Ele se expande muito além do campo familiar, onde as Constelações Sistêmicas ficaram inicialmente conhecidas no Brasil.

Seus princípios alcançam qualquer contexto onde seres humanos aprendem, trabalham, adoecem, criam ou se relacionam: salas de aula, organizações, processos terapêuticos, dinâmicas culturais e históricas.

Um ponto que importa compreender bem: sistemas são radicalmente inclusivos.

Isso não significa que o sistema tenha poder sobre o indivíduo, significa que nenhuma transformação interna de uma parte deixa o campo intocado, e nenhuma perturbação do campo deixa o indivíduo intocado.

Inspirado na lógica autopoiética: tudo se transforma, mesmo os sistemas considerados abertos, e o resultado dessa transformação depende das condições internas de cada parte e das perturbações que chegam de fora.

O indivíduo não está dentro do sistema como quem está dentro de uma caixa. Ele é parte do que gera o padrão enquanto se transforma, o mapa e o caminhar se produzem mutuamente.

E é exatamente por isso que o trabalho com Inteligência Sistêmica é possível: porque cada pessoa, ao se transformar a partir de si, perturba o campo ao redor, consciente ou não desse movimento.

Aprender é reorganizar-se

Leia mais: O Que É a Biossistêmica?https://institutorosadaterra.com.br/vale-pena-fazer-uma-formacao-sistemica/: O Que É a Biossistêmica?

Há uma frase que sintetiza o que a Educação Biossistêmica propõe: aprender é reorganizar-se.

Não é metáfora. É descrição de um processo neurofisiológico e relacional ao mesmo tempo.

Quando algo genuinamente aprendido acontece não só como informação armazenada, mas compreensão que transforma, o corpo responde, as percepções se reorganizam, a forma de estar em qualquer relação muda.

Não existe aprendizagem desse nível que não passe pelo sistema nervoso e pela história de quem aprende.

Por isso a Educação Biossistêmica não pergunta apenas o que ensinar, mas em que condições a reorganização é possível.

Essa é a pergunta que orienta tudo o que vem nos próximos artigos desta playlist.

Um abraço,

Rosana Jotta

Fundei o Instituto Rosa da Terra Inteligência Sistêmica e trabalho no Paradigma Biossistêmico. Há mais de duas décadas acompanha processos de desenvolvimento humano através da Inteligência Sistêmica e das Constelações Sistêmicas. Conduzo a Formação em Inteligência Sistêmica, um percurso de 24 meses para profissionais que querem trabalhar com essa perspectiva de forma rigorosa e integrativa.

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