Olá!
Talvez você já tenha escutado frases como: “Isso é misticismo disfarçado”, “É perigoso mexer com essas coisas” ou “Não tem comprovação científica”. Essas falas, comuns em conversas de corredor e redes sociais, revelam um fenômeno mais profundo do que o simples desconhecimento: revelam medo.
Vivemos em uma cultura que privilegia a análise linear, mas que frequentemente se sente órfã de sentido diante de padrões que não se quebram apenas com a lógica. Quando alguém diz que “tem medo” de uma constelação, o que essa pessoa está dizendo, no fundo, é que teme o que a verdade pode exigir dela.
A “Caixa-Preta” e o Medo do Caminho
Quando iniciei o trabalho com as Ordens do Amor de Bert Hellinger, em uma busca de soluções pessoais, ouvia muito: “Tenho medo de abrir a caixa-preta”. De fato, eu também senti isso quando resolvi fazer minha segunda constelação — desta vez para o meu filho. Havia o medo do que viria; de algo que eu já sabia que, de algum modo, passaria por mim.
Hoje, ao compreender tudo isso de forma profunda e orgânica, vejo-me como uma porta que se abriu para que a vida fosse em frente. Soluções não dependem apenas de pessoas; exigem contextos apropriados.
Memória: O Hábito da Natureza
Ao abrirmos o que muitos chamam de ‘caixa-preta’ do sistema familiar, não estamos acessando algo sobrenatural, mas sim o que Samuel Butler e, mais tarde, Rupert Sheldrake, definiram como a memória inerente da vida.
Para Butler, a hereditariedade é um hábito orgânico; uma memória tão profunda que se tornou inconsciente. Sheldrake expande isso ao sugerir que não somos apenas o resultado de nossos genes, mas estamos imersos em campos mórficos que conservam as experiências de quem veio antes.
Nas Constelações, o que acessamos são essas memórias, corporificadas em contextos esquecidos no tempo consciente, mas vivos em nosso DNA. É o lugar onde o corpo, o som e a herança, o germoplasma, ganham voz.
A Loucura de Excluir o Passado
Tenho refletido muito sobre como nós, humanos, criamos narrativas sobre o desconhecido. Algumas são inclusivas, outras terrivelmente exclusivas. Frequentemente, caímos na “loucura” de julgar o passado com as lentes do presente.
Se hoje dizemos que um pai precisa ser cuidador no sentido cotidiano e afetuoso, olhamos para os nossos ancestrais por essa lente e os excluímos. Esquecemos que a verdade daquele tempo exigia outras formas de sobrevivência. Quando rotulamos o passado como “errado” ou “insuficiente”, criamos sintomas.
As memórias nos levam para experiências corporificadas, mas são as nossas narrativas que adoecem ou curam.
O Poder das Histórias: Onde a Cura Acontece
Como dizia Bert Hellinger, historias curam e histórias adoecem.
Uma narrativa exclusiva —baseada no julgamento moral do presente, alinhada com as novas possibilidades de nosso contexto — mantém o nosso sistema em um “alerta de sobrevivência” constante. Já uma narrativa inclusiva, capaz de perceber as diferenças e nuances entre contextos, permite o acesso a uma metaconsciência que dá sentido ao hoje inaceitável ou incompreensível em nós, ou para nós.
Incluir não é apenas tornar consciente; é dar dignidade ao destino de quem veio antes, permitindo que o que foi trauma no outro e hoje é sintoma em nós, se transforme em sabedoria e leveza para todos os envolvidos.
Dizer isso é uma temeridade pois seria concluir que estamos conectados em “avenidas de mão dupla”, através de uma reciprocidade radical.
Então fico no essencial que é deixar cada um com o que é seu, dessa forma olhamos para o inusitado – o futuro com suas infinitas possibilidades.
Sinceramente, quando olho para isso e nosso desejo natural de compreensão vejo pouca riqueza no ciclo infinito de artigos científicos que apenas confirmam outros artigos. A reflexão que pratico no Instituto Rosa da Terra valida-se na fenomenologia, na vida que volta a fluir e na paz que se instala quando a verdade é vista.
“Conhecerás a verdade e ela te libertará.”
A verdade sistêmica não é uma ideia moral; é o fato integrado ao seu tempo. Que a sua verdade seja uma história que te permita deixar o que é antigo no lugar de respeito que lhe cabe, para que você possa seguir leve.
Um abraço afetuoso,
Rosana Jotta Prof. de Inteligência Sistêmica | Instituto Rosa da Terra
Referências:
- BUTLER, Samuel. Life and Habit. London: Trübner & Co., 1878.
- HELLINGER, Bert. Ordens do Amor. Petrópolis: Vozes, 1999.
- SHELDRAKE, Rupert. A Presença do Passado. Lisboa: Instituto Piaget, 1996.
Temos esse artigo mais completo em nosso Substack. https://open.substack.com/pub/rosanajotta/p/a-memoria-como-heranca-viva-voce?r=733vdi&utm_campaign=post&utm_medium=web&showWelcomeOnShare=true