A Era da Síntese: Liberdade, Interdependência e os Limites do Existencialismo de Sartre

Olá!

Hoje acordei pensando sobre um livro que li aos 17 anos: A Idade da Razão, de Jean-Paul Sartre. Na época, pensei: é o livro que eu desejaria ter escrito. Não pela história do casal, mas pela forma como Sartre descreve os conflitos internos dos personagens.

Hoje, vejo uma sincronicidade entre meu trabalho, o que vejo no dia a dia,  e os conflitos internos descritos por ele através de seus personagens. 

O dilema central da exclusão dos vínculos emocionais na era da razão e a angústia crescente em nosso tempo, na busca por esses vínculos, porém, através de um amor cego e limitante.

Me identifico com Sartre, pois um dos valores mais caros para mim é a liberdade. Vejo isso pela lógica da autonomia, da autenticidade e da responsabilidade diante de nossas escolhas  e seus caminhos desconhecidos. Sempre achei que o insight maior desse gênio foi a percepção profunda de que somos seres a caminho.

A questão aqui é considerar que nossas escolhas não são radicalmente individuais — eis o que considero um equívoco de Sartre e da chamada idade da razão enquanto civilização.

São o resultado de uma complexidade de escolhas paradoxais nossas e de outros, registradas ao longo do tempo em processos de co-criação coletivos, como nos mostram Maturana e Varela.

Sartre, em sua ênfase na “condenação à liberdade” e na “responsabilidade radical” do indivíduo por cada escolha, sem essência prévia ou desculpas, abriu caminho para a autonomia. No entanto, sua visão tendeu a negligenciar a inextricável teia de interconexões que nos constituem e influenciam nossas escolhas a cada instante.

Não Somos Ilhas de Escolha Radicalmente Individual

A ideia de que nossas escolhas são frutos de uma complexidade de escolhas paradoxais nossas e de outros registradas ao longo do tempo e em processos de co-criação coletivos é o próprio pulsar do pensamento sistêmico.

A Biologia do Conhecer de Humberto Maturana e Francisco Varelaé a base científica para essa compreensão. Eles nos mostram que o viver é conhecer, e o conhecer é viver, em um constante processo de acoplamento estrutural com o meio e com outros seres vivos (MATURANA; VARELA, 2001).

Nossas escolhas não são feitas por um ego isolado, mas emergem dessa dança contínua de interações e da história de nossas congruências e incongruências estruturais. A identidade, o eu, é um fenômeno relacional, que se co-cria a cada interação – vida é relação.

A Memória Emocional Coletiva Existe

A memória emocional que influencia nossos comportamentos não vem apenas de nossa infância, mas também de gerações anteriores. Isso é um exemplo claro de como as escolhas e experiências de outros, e os padrões que elas geraram, ressoam em nós, moldando as possibilidades de nossas próprias escolhas.

As três Ordens do Amor, de Bert Hellinger, Pertencimento, Prioridade/Sustento, Equilíbrio, são evidência viva de que não escolhemos em um vácuo:

  • Nossas escolhas são afetadas por quem foi excluído ou não teve seu lugar reconhecido. Primeira Ordem a do Pertencimento.
  • A força para escolher e ir adiante vem do reconhecimento e da gratidão por quem veio antes e, através da própria existência, nos permitiu estar na vida. Segunda Ordem, a da Hierarquia que acabamos de aprofundar.
  • O fluxo da vida em nossas escolhas depende do equilíbrio entre o dar e o receber, não apenas em nossas relações atuais, mas também em como nos relacionamos com padrões transgeracionais. Terceira Ordem, a do Equilíbrio nas trocas.

O equívoco de Sartre, portanto, não está em sua valorização da liberdade que é essencial, mas na subestimação da interdependência e da influência sistêmica e transgeracional na construção do ser-no-mundo. A Idade da Razão, enquanto civilização, buscou uma autonomia que se desvinculou, uma liberdade isolada, ignorando que somos, por natureza, seres de relação e de contexto – seres biológicos e históricos.

Uma Inteligência Sistêmica Prática (ISP) atua precisamente nessa lacuna: ela oferece o caminho para a verdadeira autonomia que surge não do corte ou da negação dos vínculos, mas do reconhecimento consciente e da integração inclusiva e responsável deles.

É a liberdade de quem compreende a complexidade da co-criação coletiva e, a partir daí, escolhe com maior consciência, respeito e responsabilidade pelo seu lugar e função no sistema.

Essa é a chave para uma humanidade que escolhe e co-cria de forma sistemicamente inteligente.

Questões de Base dos Personagens em A Idade da Razão e a Sincronicidade com Nossos Dias

A Idade da Razão (1945) é o primeiro volume da trilogia Os Caminhos da Liberdade de Jean-Paul Sartre e serve como uma exploração ficcional de suas ideias existencialistas. A questão central, especialmente de Mathieu, seu principal personagem, gira em torno de liberdade e responsabilidade: Mathieu é agudamente consciente de sua liberdade, mas se encontra paralisado por ela.

Ele busca manter sua liberdade evitando compromissos e responsabilidades, como o casamento ou a paternidade. A recusa de Mathieu em escolher e sua obsessão por uma liberdade vazia o levam à inércia e à angústia. Mathieu constantemente nega sua própria cumplicidade nas escolhas que o levaram à sua situação.

Ele está em má-fé ao se recusar a aceitar sua total liberdade e responsabilidade, buscando justificar suas ações ou inações por circunstâncias externas,em vez de reconhecer que é ele quem se faz através de suas escolhas.

Atualmente, adultos nessa fase da vida frequentemente vivenciam um ponto de inflexão, questionando caminhos anteriores e buscando maior significado.

A angústia, aqui, muitas vezes não é mais sobre: O que devo fazer? Abrir mão de qual das inúmeras possibilidades que me chamam? ou Como conciliar todas as minhas paixões e responsabilidades?


Um exemplo individual

Uma mulher de 35 anos, bem-sucedida profissionalmente, mas sentindo um vazio, pode ter múltiplas paixões – culinária, voluntariado, escrita – e a angústia surge da sensação de que escolher uma área significa necessariamente abrir mão das outras.

A Era da Síntese nos convida a não ver essas paixões como escolhas excludentes, mas como facetas de um propósito maior.

O propósito talvez não seja “ser chef”, mas talvez nutrir e inspirar pessoas, o que pode se manifestar tanto na culinária quanto na liderança de sua equipe ou na forma como se relaciona com a família.

Para essa mulher, o propósito não precisa ser uma meta rígida, mas um norte interno que direciona suas escolhas e acalma a ansiedade da multipotencialidade. A angústia diminui porque as escolhas, mesmo que signifiquem abrir mão de outras, estão alinhadas a um sentido maior, proporcionando um sentimento de pertencimento consciente e alinhado com a teia da vida.

No mundo empresarial, a busca por liberdade se traduz de forma diferente, mas a armadilha é a mesma: líderes tentando escolher sozinhos, ignorando a teia sistêmica que é uma organização.

Para Líderes Empresariais

No ambiente corporativo, a angústia pode surgir da busca incessante por resultados, da pressão por inovação e da dificuldade em engajar equipes.

Líderes muitas vezes se sentem isolados na condenação à liberdade de tomar decisões estratégicas em ambientes onde os valores declarados não são realmente vivenciados na prática.

A Era da Síntese convida o líder a definir um propósito maior para a organização, para além do lucro, que sirva como “estrela-guia”.

Por exemplo, se o propósito é capacitar a humanidade através da tecnologia, as escolhas estratégicas se tornam mais claras, e as perdas são vistas como ajustes necessários para um alinhamento superior.

O uso das Constelações Sistêmicas como ferramenta de autogestão e a utilização prática desses saberes sistêmicos aprendidos e aplicados através da Metodologia 3S do Instituto Rosa da Terra é um caminho possível para o acesso a esses propósitos.

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Um abraço, 

Rosana Jotta

Prof de Inteligência Sistêmica

Referências Bibliográficas

DESCARTES, René. Meditações Metafísicas. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

HELLINGER, Bert. Ordens do Amor: um guia para o trabalho de constelações familiares. São Paulo: Cultrix, 2007.

SARTRE, Jean-Paul. A idade da razão. Tradução de Sérgio Milliet. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005.

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