Olá!
Vivemos uma época marcada por críticas intensas às estruturas de poder. Eu mesma vivo sendo criticada como ‘mandona’ e, não raro, me sinto triste com isso. Afinal, quem me conhece sabe: mandar em mim mesma e ser obedecida pelo meu próprio corpo e mente já é trabalho mais do que suficiente para uma vida inteira.
No entanto, percebo que essa minha busca por organização pessoal, e o meu rigor em sustentar centros legítimos nos espaços onde atuo, esbarra em um fenômeno contemporâneo preocupante: a demonização de qualquer tipo de controle, como se toda forma de regulação fosse, necessariamente, opressão.
Na perspectiva da Inteligência Sistêmica, essa polarização é um erro estrutural. Sistemas vivos não sobrevivem sem organização. Não existe autonomia sustentável sem base segura. Liberdade sem eixo organizador é desordem, a clareza entre possibilidades e consequências freia impulsos inconscientes, promovendo fluxo relacional saudável sem rigidez.
Controle e liberdade: uma falsa oposição
Parte do debate contemporâneo sobre poder e hierarquia foi profundamente influenciado pela crítica desenvolvida por Michel Foucault. Sua análise das instituições disciplinares revelou como estruturas sociais podem exercer controle excessivo sobre corpos e subjetividades. Essa crítica foi, e continua sendo, fundamental.
O problema surge quando a crítica ao controle se transforma em rejeição indiscriminada de qualquer forma de hierarquia funcional. Em muitos contextos, especialmente os educacionais e familiares, consolidou-se a ideia de que:
- autoridade é autoritarismo;
- hierarquia é opressão;
- limite é violência simbólica.
Essa leitura radical ignora a complexidade paradoxal do tecido social e da complexidade humana. O pensamento da complexidade, formulado por Edgar Morin, demonstra que sistemas vivos operam em tensão dinâmica entre ordem e desordem.
Não se trata de eliminar a organização, mas de regular a relação entre organização e liberdade. Sistemas vivos não funcionam pela supressão da ordem. Funcionam pela regulação entre estrutura e autonomia. Quando fugimos do controle funcional em nome da liberdade, não eliminamos o controle. o deslocamos. A exclusão da autoridade legítima não produz autonomia; produz compensações generalizadas.
- Lideranças informais invisíveis, as mais perigosas;
- Vigilância horizontal constante;
- Ansiedade sistêmica difusa.
Sem centro claro, o sistema entra em micro disputas permanentes. A ausência de autoridade legítima não gera igualdade. Gera instabilidade. E sistemas instáveis buscam controle compensatório. Sempre.
Inteligência Sistêmica e regulação de sistemas vivos
Na biologia do conhecer, desenvolvida por Humberto Maturana e Francisco Varela, aprendemos que organismos vivos mantêm sua identidade por meio de processos de auto-organização. Isso implica em:
- diferenciação de funções;
- limites estruturais;
- coordenação interna;
- centro organizador funcional.
No campo da Inteligência Sistêmica aplicada à família e à educação, essa compreensão é decisiva. Hierarquia deixa de ser apenas valor moral. Hierarquia é função organizadora, com implicações biológicas, relacionais e estruturais.
Hierarquia funcional na família e na escola: a porta de entrada para o grande mundo
Então vimos como muito da desorganização contemporânea não nasce, necessariamente, do excesso de controle. Em muitos casos, nasce da ausência de centro organizador claro, mas para evitar confusões conceituais, é fundamental distinguir:
Controle patológico:
- baseado no medo;
- busca certeza absoluta;
- elimina autonomia;
- centraliza para dominar.
Controle funcional:
- regula o sistema;
- estabelece limites claros;
- protege o campo relacional;
- permite fluxo saudável.
Na família, pais ocupam o centro funcional e confiam na escola que escolheram e nos professores.
Na sala de aula, o professor sustenta o eixo, ele é o centro e os alunos se organizam em torno dele.
Na escola, o ensino precisa estar no centro para que o processo educativo não se fragmente, e para que o professor não perca autonomia e autoridade.
Essa organização não diminui a dignidade de ninguém. Ela diferencia responsabilidades. A metáfora do rio ilustra bem essa diferença: sem margens, o rio se dispersa. Com margens rígidas demais, perde vitalidade. Com margens flexíveis e proporcionais, flui com potência. A mesma lógica vale para sistemas humanos.
Centros legítimos florescem na responsabilidade compartilhada e na construção de habilidades interdependentes, abraçando o que é único de cada contexto.
Isso transcende hierarquias fixas para redes vivas, onde liderança é função relacional e compartiçhada: pais, professores e alunos co-constroem o eixo, diferenciando papéis sem rigidez. Redes não substituem hierarquias. Elas coexistem como hierarquias funcionais, cada uma no seu lugar.
Longe de defesas e cobranças automáticas, que congelam o sistema em reações de ataque e defesa, essa abordagem cultiva presença atenta ao fluxo dos acontecimentos de modo cooperativo.
Autonomia real e base segura
A palavra “autonomia” tornou-se central no discurso educacional contemporâneo. Porém, autonomia verdadeira só emerge quando há base segura. A Inteligência Sistêmica propõe uma reorganização simples e profunda: restaurar o centro legítimo do professor na sala de aula, especialmente como parceiro das famílias na educação das novas gerações.
Não construímos um centro, seja na sala de aula no família, nós o encontramos e o ocupamos. Isso é maturidade sistêmica. Centro não é performance. É alinhamento. Centro é o ponto onde:
- o eixo vertical, vida que nos antecede, linhagem, biologia, histórica,
encontra - o eixo horizontal, relações, escolhas, consequências, função social.
Ocupar o centro não é sobre ser maior que os outros, mas sobre ter a coragem de ser aquele que sustenta o peso da organização, para que os outros possam ser livres. É o lugar onde o ‘Eu’ se coloca a serviço para que o ‘Nós’ possa fluir
É nesse cruzamento que surge a soberania. Não a soberania como poder sobre. Mas soberania como a capacidade de ocupar o próprio lugar sem invadir, nem diminuir, o lugar do outro. Novas competências surgem no cruzamento entre a escuta fenomenológica de Hellinger, a dialógica complexa de Morin e autopoiese relacional de Maturana.
Sem automatismos, cada sistema e situação revela seu lugar próprio — soberania coletiva que regula ordem e liberdade em tensão criativa.
Nesta Inteligência Sistêmica descobrimos o quanto a grande força e leveza habita esse lugar tantas vezes considerado pequeno, o nosso lugar na linha do tempo. Por estas paragens tempo é vida, e essa vida é um tempo que já começou e não sabemos quando terminará.
E pra você? O que é a Vida? Qual importância tem dado a seu lugar? Quem ou o que lidera sua vida?
Um abraço,
Rosana Jotta
Prof. de Inteligência Sistêmica
Referências teóricas
FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes, 1987.
MORIN, Edgar. Introdução ao pensamento complexo. Porto Alegre: Sulina, 2005.
MATURANA, Humberto; VARELA, Francisco. A árvore do conhecimento: as bases biológicas do entendimento humano. Campinas: Psy II, 2001.
HELLINGER, Bert. Ordens do amor: um guia para o trabalho com constelações familiares. São Paulo: Cultrix, 2001.