Por que Repetimos o que Mais Tememos em Nossas Famílias?

“Este texto integra o livro Variações sobre o mesmo tema, onde é apresentado como parte de uma jornada contínua.”

Olá!

Perdi minha irmã gêmea cedo. De um jeito que deixou minha mãe com uma tristeza que ela carregou por muito tempo, silenciosamente, do modo que as mães carregam.

Demorei anos para perceber o que meu corpo havia aprendido com isso.

Sou alegre no dia a dia. Mas em momentos de celebração coletiva, aniversários, conquistas dos filhos, reuniões de família, sempre aparece uma desculpa. Um cansaço, um compromisso, uma necessidade de me recolher. Como se alegria demais, partilhada demais, fosse uma espécie de desrespeito.

Não era decisão. Era lealdade.

Um dos padrões mais frequentes em meu trabalho são mulheres que rejeitam, inconscientemente, as pequenas alegrias diárias de seus casamentos por lealdade a mães e avós que narraram continuamente suas dores e sacrifícios.

Essas histórias tocam nossos corações de forma que nunca imaginaríamos.

Por que eu repito isso, se sei que me faz mal?

Vou explicar. Porque compreender não é luxo intelectual, é o um movimento para sair da reatividade, e conseguir finalmente fazer diferente.

Essa pergunta não nasce da ignorância, nasce do esgotamento, quando nos percebemos cansados de martelar em ferro frio. Nada de horrível em você, assumir a responsabilidade por suas escolhas é muito diferente de se culpar. Repetimos padrões familiares sendo conscientes, estudados, reflexivos, nos considerando bem sucedidos na vida ou não.

Muitas pessoas já fazem terapia, já leram livros, já prometeram a si mesmas que fariam diferente. E ainda assim, algo retorna por que explicação puramente individual, baseada apenas em traço de personalidade ou escolha consciente, é insuficiente.

A repetição não é apenas biológica, ela também é sistêmica, e sistemas buscam continuar existindo, não perfeição. Todo sistema vivo na natureza busca estabilidade, manter-se como é, e nossas famílias são sistemas vivos, geração após geração sustentando certas características.

O que Bert Hellinger nos Mostra Sobre Isso?

Na perspectiva das Constelações Familiares, um método de promoção da saúde desenvolvida por Bert Hellinger, a família opera segundo princípios de organização profundas de pertencimento, ordem e equilíbrio.

O pertencimento é o princípio mais básico. Todos que fazem parte do nosso sistema familiar, em todas as gerações, têm direito a um lugar de respeito, independente do modo como deram conta de viver, das escolhas que fizeram, e das consequências com as quais tiveram que lidar.

Quando alguém é excluído por vergonha, culpa, trauma, aborto, falência, suicídio, violência ou simples silêncio, como se nem tivesse existido, o sistema não “apaga” essa pessoa, ela permanece na memória da vida do mesmo modo que uma doença do coração ou dos pulmões aparece de geração em geração.

Esse movimento de repetir padrões, como por exemplo, o de ser infeliz no amor, é nesta Inteligência Sistêmica chamado de lealdade sistêmica inconsciente, na medicina repetições dos processos de adoecimento como herança genética. Não são decisões, escolhas racionais, são vínculos biológicos, mentais e emocionais que passam como memória geração após geração até encontrarem uma solução.

A Repetição como Tentativa de Resolução

Um padrão repetido então pode ser entendido, de maneira saudável, como uma tentativa de o sistema no futuro encontrar a solução para o que antes não foi possível.

Uma linhagem onde houve abandono masculino pode gerar mulheres que escolhem parceiros emocionalmente indisponíveis pois suas mães e avós tiveram que criar sozinhas. Uma família marcada por falência ou perdas financeiras pode gerar descendentes que sabotam prosperidade por medo inconsciente de passarem pelo mesmo desespero, o mesmo sofrimento.

O padrão não é punição. É uma nova tentativa de resolução, aponta para algo que precisa ser visto e encarado de uma forma diferente. Bert Hellinger tem uma frase muito linda para isso: “Somos a esperança de nossos ancestrais. Esperança de que? De que a felicidade seja possível com mais leveza. Isso é possível pois não somos seres isolados, somos redes de relações, estamos todos conectados pelo poderoso fio da vida.

Isso significa que sim, herdamos modos de reagir; herdamos padrões emocionais; herdamos formas de perceber ameaça e segurança. Nosso corpo ou nosso coração reage antes de nossa razão compreender e por isso, frequentemente, repetidos histórias de dor em outro cenário.

Então Repetição Não é Destino?

Aqui está um ponto fundamental, a possibilidade de solução, a repetição não é a sua identidade, ela é um sintoma estrutural que acontece em toda a natureza, em todos os sistemas para que possamos ter a oportunidade de transcende-lo.

O erro Moderno: Combater o Padrão com Força e Incompreensão.

Nossa cultura oferece soluções rápidas e superficiais pois esquece da continuidade da vida, e do quanto é importante para uma família sair da pobreza extrema ou de qualquer outro fator gerador de dor e sofrimento. Quando tentamos negar nossa história familiar, frequentemente nos tornamos reativos a ela, e a reação irrefletida mantém o vínculo ativo. Romper por revolta, por fuga, não resolve, apenas mudo o formato do problema.

A transformação sistêmica não é uma guerra contra o passado. É um reposicionamento dentro dele com os novos recursos dos quais no presente dispomos. O que aprendi nesta vivência com as Constelações Familiares é que podemos, em nossos corações e mentes, compartilhar com nossos antepassados as vitórias e alegria que hoje se tornaram possíveis graças a eles terem passado a vida pra frente.

O problema é que para isso, de muitas formas, precisamos pensar e fazer diferente de como eles pensaram e fizeram. Compreender que diferenciação não é rompimento, que continuamos sendo como eles.

Interromper um padrão não significa abandonar a família ou desrespeitar a própria origem. Significa ocupar seu lugar com maturidade e aproveitar oportunidades e saberes que não existiram para eles.

Sempre digo: Respira que pé de manga não dá jaca, somos parecidos com nossos ancestrais. Podemos virar o planeta, e ainda assim seremos como nosso pais, entretanto o amor pode se manifestar sem drama, sem nos machucar.

Um abraço,

Rosana Jotta

Se este texto fez sentido para você, talvez não seja apenas uma leitura, seja um chamado.

A Inteligência Sistêmica não é teoria para admirar à distância, é prática viva, aplicada à família, à educação, às organizações e à própria relação consigo mesmo. Como Professora de Inteligência Sistêmica e Consteladora, acompanho pessoas e grupos que desejam transformar desorganização em clareza, exaustão em fluxo e conflito em maturidade.

Se você sente que é hora de ir além da reflexão e organizar o seu próprio campo, será um prazer caminhar ao seu lado: Agende sua Constelação Familiar em atendimento individual ou em grupo, presencial em Araxá ou Online. Educadores e líderes que desejam aplicar essa perspectiva de forma prática podem optar pela nossa Mentoria em Inteligência Sistêmica Prática, ou se desejar mergulhar neste novo olhar conheça a Formação em Inteligência Sistêmica de Corpo e Alma do Instituto Rosa da Terra.

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