Olá!
Em um artigo anterior falei sobre quem tem medo das constelações sem nunca ter participado de uma.
Mas há um segundo grupo menor, mais silencioso, e cujas críticas merecem mais atenção: quem participou, viveu algo intenso, e saiu com mais dúvidas do que respostas. Ou com algo que não conseguia nomear mas que não pareceu bem.
Esse grupo raramente é ouvido com cuidado. Ou é descartado como resistência, ou é absorvido num discurso de que o campo revelou o que precisava ser visto.
Prefiro outra postura.
Porque quando olho para essas experiências com atenção, encontro três origens distintas para a insatisfação, e são problemas completamente diferentes, com implicações completamente diferentes.
Primeira origem: a prática mal conduzida
Esta é a mais simples de nomear e a mais difícil de admitir dentro do campo sistêmico.
Nem toda constelação é conduzida com qualidade. Nem todo facilitador desenvolveu o que é necessário para ocupar aquele lugar com responsabilidade.
Durante estes mais de 20 anos vi muitos encararem a complexidade do que Bert Hellinger nos mostrou com superficialidade.
O que é necessário não é apenas conhecer as Ordens do Amor mas conduzir os movimentos do campo a partir de uma percepção sem julgamentos morais. Em uma postura de confiança radical nos movimentos que surgem corporificados por mais sutis que sejam.
É algo mais fundamental, e mais exigente.
Von Foerster, um dos pensadores centrais da cibernética de segunda ordem, demonstrou que o observador nunca está fora do que observa. Ele está sempre dentro.
E suas condições de contorno, sua história, suas crenças, seus padrões não resolvidos, e especialmente suas teorias sobre o que deveria acontecer, determinam o que ele consegue ver.
Um facilitador que não trabalhou profundamente suas próprias condições de contorno não conduz o campo. Ele projeta sobre o campo. Sem perceber, sem intenção, mas com consequências reais para quem está presente.
Hellinger insistia numa orientação que parecia espiritual mas é epistemológica: o constelador precisa atuar sem intenção. Sem querer que aconteça algo específico. Sem ter chegado com a solução antes de ver o problema.
Isso não é virtude. É consequência de um trabalho real e longo sobre si mesmo.
A crítica aqui é legítima. E o alvo correto é a prática, não o método.
Segunda origem: o desconforto com o que emergiu
Esta é mais delicada, e mais comum do que se imagina.
Às vezes o que emerge numa constelação é difícil pois difere radicalmente da narrativa que a pessoa e seu próprio sistema familiar sustentam.
Pode mostrar com clareza brutal que um padrão que o participante atribui ao outro tem raízes na própria história familiar ou em si mesmo.
Revelar uma lealdade inconsciente que o participante preferia não reconhecer, colocando diante dos olhos algo que estava sendo evitado com muito esforço há muito tempo.
Diante de uma realidade que resiste a incluir mentalmente, a pessoa entra em uma espécie de processo de luto medroso. Para se proteger, ela escolhe negar, desqualificando o método.
No fundo, a negação, o recuo e até a crítica feroz são apenas a armadura que a alma veste para não colapsar diante do real. É o amor infantil e inconsciente tentando proteger o próprio peito.
Aqui, a reação ao conteúdo é deslocada para a forma. Quando “não gostei do que vi” vira “o método é perigoso”.
Não estou dizendo que o participante está errado em sentir o que sentiu. Estou dizendo que são coisas diferentes, e que confundi-las não exclui de modo algum o que aconteceu na constelação. Diz respeito ao processo de assentimento mental que cabe a cada um.
Atire a primeira pedra quem nunca preferiu a ilusão conhecida à verdade que liberta, mas dói profundamente?
Sempre digo que nas Constelações Sistêmicas estamos trabalhando com uma dimensão da nossa natureza culturalmente excluída através dos tempos: a dor emocional, os acontecimentos fatais sobre os quais não temos controle e dos quais desejaríamos nem lembrar.
Passar por esse processo, na minha percepção, é como nascer de novo, um parto de si mesmo.
Terceira origem: a ausência de linguagem para processar a experiência
Esta é a mais invisível, e talvez a mais importante.
O fenômeno que acontece numa constelação sistêmica não se enquadra facilmente nas categorias que a maioria das pessoas usa para organizar a própria experiência.
Não é terapia no sentido convencional. Não é meditação. Não é dinâmica de grupo. Não é nada que o repertório habitual consiga capturar com facilidade.
A pessoa vem buscando uma solução indolor, e o que encontra é a visão do coração da própria dor se expressando.
Em minha primeira constelação fiquei paralisada diante da fragilidade e falta de forças da minha representante, por mais que sempre me sentisse cansada, de modo algum, eu tinha noção da dimensão de minha própria dor, do esforço hercúleo pra me manter de pé.
E quando uma experiência intensa não encontra linguagem, quando a mente não tem onde pousar o que foi visto e sentido, ela vai se proteger. Não porque a experiência foi ruim. Porque foi real demais para o mapa disponível.
Quem chega a uma constelação carregando um modelo teórico consolidado seja da psicologia clínica, seja da medicina, seja de qualquer campo com suas próprias categorias bem estabelecidas, está vendo o campo através de condições de contorno teóricas.
O que a Inteligência Sistêmica e o Paradigma Biossistêmico estão organizando é exatamente essa linguagem que falta.
Não para substituir a experiência, a experiência não precisa de substituto, ela é um fato em si mesma. Mas para oferecer um lugar onde ela possa ser reconhecida, nomeada e integrada sem precisar escolher entre a mística e a rejeição.
O que isso muda
Separar essas três origens tem uma consequência prática imediata.
Se a crítica vem de uma prática mal conduzida, o problema é de formação e de ética profissional.
E o campo sistêmico precisa ter maturidade para admitir isso sem defensividade. Pois aqui a teoria importa mas sozinha é mais do mesmo, tem que isso, tem que aquilo… mandatos mentais que excluem o sentir.
Se a crítica vem do desconforto com o que emergiu, o problema é de acolhimento e de continuidade. Uma constelação não é um evento isolado. O que emerge precisa de tempo para ser integrado em outras esferas daquilo que somos. Gera muitas perguntas.
Se a crítica vem da ausência de linguagem o problema é de educação epistemológica. E esse é exatamente o trabalho que o Instituto Rosa da Terra se propõe a fazer, não apenas com quem já está dentro do campo sistêmico, mas com quem chega de fora com perguntas legítimas e ceticismo honesto.
Ceticismo honesto não é inimigo da constelação. É uma das formas mais respeitosas de se aproximar de qualquer fenômeno complexo.
O que a constelação pede não é crença. Pede disponibilidade para ver o que está presente, sem agenda sobre o que deveria estar lá.
Um abraço,
Rosana Jotta
Rosana Jotta é fundadora do Instituto Rosa da Terra, professora de Inteligência Sistêmica e facilitadora de Constelações Sistêmicas há mais de duas décadas. Escreve sobre padrões humanos, sistemas vivos e a possibilidade de transformação real.