O que é Constelação Familiar e como ela funciona?

Olá!

A Constelação Familiar desperta curiosidade, interesse e também desconfiança. Alguns, como eu, a vemos como uma ferramenta poderosa de compreensão dos vínculos humanos, de ampliação da consciência diante dos desafios do mundo em que vivemos.

Outros a tratam com cautela, por desconhecerem seus fundamentos ou por já terem tido contato com experiências que chamam de constelação familiar, mas que envolvem outras formas de olhar a vida.

A pergunta, portanto, aparece com frequência: o que é Constelação Familiar e como ela funciona de fato?

Neste artigo, propomos uma resposta clara, baseada em três pilares que orientam nosso trabalho há mais de duas décadas: experiência prática, pensamento sistêmico apoiado em saberes científicos multidisciplinares; ou seja, um diálogo com diferentes campos do conhecimento; e, o mais importante, sem perder de vista a Constelação Familiar como um serviço que podemos prestar a nós mesmos e aos que são nossos, na direção da paz e da prosperidade que desejamos.

O que é Constelação Familiar?

A Constelação Familiar é um método de observação e reorganização das dinâmicas emocionais dentro de sistemas humanos, especialmente os sistemas familiares, aqueles por onde entramos nesta vida.

Foi desenvolvida pelo terapeuta alemão Bert Hellinger, ao observar que muitas das dificuldades da vida; pessoais, familiares ou profissionais, têm suas raízes ligadas a padrões inconscientes herdados do nosso sistema familiar.

Esses padrões inconscientes aparecem, por exemplo, quando repetimos conflitos semelhantes em relacionamentos pessoais ou profissionais; sentimos pesos que parecem não ter origem clara em nossa própria história; ou nos vemos envolvidos em problemas em cascata que, na lógica, nem fazem sentido.

A Constelação nos permite trazer à consciência a origem de vínculos amorosos que mantemos como forma de lealdade aos nossos ancestrais, expressando, nossa empatia, o desejo de que a vida deles tivesse sido mais leve ou diferente.

Essa lealdade sistêmica nos leva, muitas vezes, a repetir em nossas vidas o sofrimento de nossos pais, avós ou outros membros da família, por mais que desejemos viver de forma diferente e obter outros resultados.

Como funciona a Constelação Familiar?

Ela funciona tornando possível a gestão consciente de cargas emocionais que nos fazem agir repetidamente de forma diferente de como desejamos e planejamos.

Atua sobre situações da vida que, por mais que nos esforcemos e façamos nossa parte da melhor forma possível, continuam dando errado. Aquilo que, mesmo quando dá certo, dura pouco; algum acontecimento ou decisão faz tudo ir por água abaixo. Ou aquilo que já compreendemos na terapia, mas continuamos sentindo, repetindo e sofrendo.

São essas as situações que não dependem apenas de nossos esforços pessoais e que podem ser consteladas.

E como esse processo acontece?

O sistema familiar é representado no espaço, podendo ocorrer de diferentes formas: com representantes humanos em vivências de grupo ou com objetos e bonecos em atendimentos individuais.

Esses “representantes”, que chamamos de âncoras, passam a expressar, muitas vezes de forma surpreendente, informações emocionais presentes na história dessa família. Um exemplo seria a profunda tristeza e o sentimento de impotência de alguém em determinados contextos.

O objetivo não é interpretar ou julgar a história familiar, mas permitir que sentimentos negados, incompreendidos ou desordenados encontrem novamente um lugar de honra; que sejam vistos e sentidos em seu contexto original.

Em nosso exemplo, ao vivenciar em si a tristeza de uma avó ao perder um filho muito jovem, a pessoa deixa de apenas “saber” desse evento e passa a reconhecê-lo de forma concreta, podendo olhar tanto para a força dessa avó quanto para o destino do familiar.

Quem constela, ao compreender a origem concreta, dentro de um fato real, dessas emoções, pode incluí-las de forma diferente, deixando no passado o que é do passado, com todo respeito.

Assim, tende a sentir-se mais leve e com maior capacidade de lidar com os desafios da própria vida.

Os princípios que estruturam nossas relações com a vida:

São três movimentos fundamentais:

O primeiro é o pertencimento.
Todas as pessoas e eventos que fazem parte da nossa história já pertencem. Trazer isso à consciência com respeito e humildade abre a possibilidade de viver de forma mais leve.

O segundo é a ordem no tempo.
A vida veio de trás e foi passada adiante: avós vieram antes, pais depois, filhos depois. Cada lugar tem suas possibilidades e seus limites.

Quando essa ordem se inverte; por exemplo, quando um neto tenta carregar a dor de uma avó; há desorganização. Esse sentimento, fora de contexto, pode paralisar a vida.

O terceiro é o equilíbrio nas trocas.
Nas relações humanas, especialmente entre adultos, o fluxo entre dar e receber precisa de equilíbrio. Quando damos sem receber, nos sobrecarregamos; quando recebemos sem dar, sobrecarregamos o outro.

Esses princípios não são regras morais, mas padrões observáveis de organização sistêmica.

Constelação Familiar tem relação com ciência?

Essa é uma das perguntas mais frequentes.

A Constelação Familiar nasce de uma prática fenomenológica; baseada na observação direta da experiência, da vida como ela é.

A observação direta da experiência; a fenomenologia, é a forma mais antiga de conhecimento humano. O método científico positivista veio depois, como uma das formas de sistematizar essa observação. Mas há fenômenos que ele ainda não consegue capturar completamente, e a constelação é um deles.

Ao longo das últimas décadas, o desenvolvimento científico ampliou nossa compreensão das relações entre mente, emoção e corpo.

Hoje, podemos dialogar com áreas como teoria dos sistemas vivos, biologia do conhecer, epigenética e cibernética. Essas áreas não explicam completamente o fenômeno das constelações; que é complexo e com características únicas para cada pessoa que passa por ele; mas ajudam a compreender como padrões podem atravessar gerações e influenciar a vida presente.

O que acontece durante a constelação?

Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, a constelação não é um espetáculo emocional. Nem um espaço onde dizemos o que e como deveria ser, o certo e o errado.

Nos grupos que conduzo, participa apenas quem constela. Curiosidade, pra mim não é o mesmo que disposição para o encontro, e esse encontro exige de todos uma presença genuína.

Quando conduzida e compartilhada com ética e responsabilidade, envolve escuta cuidadosa, observação fenomenológica, e movimentos simples de reconhecimento e inclusão.

A constelação não “resolve” a vida de alguém. Ela revela algo que estava invisível, permitindo que novas escolhas se tornem possíveis.

A abordagem da Inteligência Sistêmica

No trabalho que desenvolvo no Instituto Rosa da Terra, a Constelação Familiar é integrada a uma compreensão mais ampla: a Inteligência Sistêmica.

Uma disciplina que nos ensina uma forma de ler a vida como sistema vivo, onde somos todos interdependentes e tudo está interligado.

Essa leitura dialoga com o pensamento complexo e reconhece que os fenômenos humanos não podem ser compreendidos apenas por explicações lineares.

Para quem a Constelação Familiar é útil?

A prática pode ser valiosa para pessoas que desejam compreender melhor, se libertar de padrões recorrentes e desenvolver uma maior autonomia diante das circunstancias.

A constelação abre novas perspectivas.

Talvez a pergunta mais importante não seja: “Funciona?”
Mas sim: “Estamos disponíveis para olhar os vínculos que nos formaram?”

Porque, gostemos ou não, nossa história não começa em nós.

Somos um elo de uma corrente de vida muito longa. E a vida; silenciosa, firme e sábia, segue em frente.

Um abraço,

Rosana Jotta

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