Por que a verdade dói?

“Este texto integra o livro Variações sobre o mesmo tema, onde é apresentado como parte de uma jornada contínua.”

Olá!

As piores são as coisas simples, são as mais frustrantes, as mais difíceis de serem vistas.

Minha mente é veloz. Lê, processa, segue em frente. E só depois, às vezes muito depois, me lembro de olhar e encontrar a fresta.

Aquele momento em que olho de novo e vejo o que estava lá e não havia sido visto. Apenas lido.

Isso já se tornou quase um hábito. Saber que, em geral, de fato, não vi.

Não é humildade. É dado. Não é o momento da compreensão. Vem antes.

É um instante de paralisia, um segundo em que sei, sem sombras de dúvidas, que algo que estava lá o tempo todo embora invisível para mim. E a primeira sensação não é alívio, é de como assim? Me pergunto em um misto estranho de encantamento e frustração. Como pude não ver? Estava aqui o tempo todo.

Clarice Lispector sabia desse instante melhor do que eu. Ela não escrevia sobre a verdade, ela a produzia no leitor. Suas frases não explicam, elas chegam. E quando chegam, o leitor não sabe exatamente o que aconteceu, só sabe que algo mudou antes de conseguir nomear, compreender o quê.

Isso não é literatura. É fenomenologia, é vivo, e eu certamente desejaria poder escrever assim.

Emmet Fox também dizia algo que parece simples e não é: a verdade não precisa da sua permissão para operar. Ela age.

O pensamento, os sentimentos e as palavras ditas ou escritas são forças que se materializam independente de serem reconhecidas conscientemente ou não . O que não foi visto não desapareceu, continua organizando o campo, silenciosamente, até alguém encontrar uma fresta.

Olhar pela fresta é o choque.

Na minha percepção, existe uma confusão que fazemos com frequência, e ela tem um custo alto.

Confundimos a verdade com a narrativa sobre a verdade.

A narrativa é construção. Tem autor, tem intenção, tem momento histórico. Pode ser revisada, contestada, substituída. Narrativas competem entre si, e frequentemente a mais emocionalmente satisfatória vence, não a mais precisa.

A verdade não compete. Ela simplesmente é.

É o solo silencioso onde as narrativas são construídas. Quando o solo se move, quando um fato negado emerge, quando uma exclusão se torna visível, quando o que foi silenciado finalmente é visto, todas as narrativas construídas sobre este solo tremem juntas.

Não porque alguém as contestou. Porque o chão da realidade se revelou diferente do que se supunha, com uma presença inquestionável.

Por isso a verdade choca, em um instante ela dissolve o tempo.

Não porque seja cruel. Mas porque é anterior a qualquer história que contamos sobre ela. E quando aparece, nua, sem ornamento, sem a camada de interpretação que passamos anos construindo, o sistema inteiro se reorganiza.

Esse momento de reorganização é o que muitas pessoas chamam de crise. De ” a verdade dói”; ou de “a hora da virada”, ou do despertar.

Na Inteligência Sistêmica chamamos de ver o fato, e contra fatos não há argumentos, eu chamo de hora do fim das ilusões.

O sistema não se reorganiza com explicações; ele se reorganiza com o reconhecimento do que é. E ver o fato é sempre, em alguma medida, um ato de coragem. Porque uma vez que se vê, não dá mais para desver.

A verdade, como dizia Clarice com aquela sabedoria genuina, não é algo que se encontra.

É algo que acontece. Nos tira da inocência.

A pergunta que fica:

O que em sua vida está esperando para ser visto, não compreendido, não resolvido, apenas visto?

Escrevi mais um artigo que talvez te interesse:

https://institutorosadaterra.com.br/o-fato-concreto-e-a-liberdade

Um abraço,

Rosana Jotta,

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