Por que pequenas coisas viram grandes brigas?

Olá!

Você já percebeu como algumas brigas em família e conflitos em casa, começam por algo aparentemente insignificante? Uma louça deixada na pia. Um tom de voz mais duro. Um atraso. Uma resposta atravessada.

De repente, aquilo que parecia pequeno cresce. As vozes aumentam, as mágoas aparecem, antigas histórias são lembradas. O que começou com uma frase termina em silêncio, ressentimento ou portas batendo.

A resposta raramente está apenas no episódio do momento. Quando olhamos mais profundamente, percebemos que conflitos familiares quase nunca nascem no instante em que explodem. Eles costumam ser apenas a ponta visível de algo maior.

Encontrar esse algo maior é encontrar a raiz do problema, um problema não é muito diferente de uma planta, quando “abafamos o caso“, é como se o tivéssemos plantado em terra fértil, com o tempo via brotando e se emaranhando nas pequenas coisas cansativas do dia a dia.

O conflito raramente começa onde aparece

Em tantos anos de trabalho em mim mesma, e com tantas famílias, percebo nitidamente como dores “esquecidas” continuam presentes.

Um evento de humilhação pública em uma festa de família.
Uma injustiça no trabalho.
Uma decepção justamente na hora em que você mais precisava de um abraço.

Mágoas enterradas no tempo podem continuar vivas por muitas décadas, nutrindo conflitos que giram em torno de situações comuns do dia a dia, até que sejam finalmente trazidas à luz e elaboradas.

Pais reclamam do desrespeito dos filhos, e no fundo muitas vezes se sentem culpados por terem feito algo semelhante com seus próprios pais, ainda que consigam listar muitas justificativas para aquele comportamento.

Filhos dizem que não são compreendidos. Mas, em muitos casos, também não conseguem realmente ouvir o que seus pais estão tentando dizer, porque lá atrás não receberam o acolhimento necessário em um momento de grande dor ou confusão.

Casais discutem por pequenas decisões do cotidiano quando, na verdade, antigas questões permanecem mal resolvidas: episódios de infidelidade “perdoados” cedo demais, ou situações em que alguém não conseguiu dizer não a comportamentos que causaram dor e humilhação.

Se observarmos com calma, perceberemos algo curioso: eventos que provocam sensações semelhantes tendem a gerar reações semelhantes ao longo do tempo.

Assim, diante de pequenas situações do presente, continuamos a nos sentir: desvalorizados; sobrecarregados com responsabilidades que não são nossas; silenciosos até o ponto de explosão, ou reagindo rapidamente com irritação.

O que parece uma discussão sobre o presente muitas vezes está conectado a dinâmicas emocionais muito mais antigas, que se formaram ao longo da história daquela família.

Pequenos gatilhos, grandes emoções

Um aspecto curioso, que nos ajuda a perceber que a raiz do problema está em outro lugar, é quando a intensidade da reação não corresponde ao tamanho do problema. Uma gota de água gera uma tempestade.

E chega em um ponto em que temos até medo de dizer uma palavra e gerar outra discussão. Esse silêncio parece ser uma solução, mas em geral se torna a última fase desse distanciamento, aquele momento em que desistimos do outro quando se trata de um casal.

Com filhos ficamos emparedados, temerosos e isso de algum modo os empodera de forma negativa, reforçando comportamentos de agressividade ativa ou abandono ressentido.

Bem, e agora que percebi ser isso? O que fazer?

Buscar ajuda, parar de esperar uma solução mágica, ou enfiar pra baixo do tapete. Eu acredito realmente que exceto pra morte, temos como encontrar soluções pra tudo, desde que busquemos de modos diferentes.

Em geral a coisa persiste porque insistimos em uma estratégia de solucionamento que definimos como ser a certa, e teimamos naquilo mesmo sem resultados.

Quando o desrespeito parece o problema

Então um dos conflitos mais comuns nas famílias envolve a sensação de desrespeito, especialmente entre pais e filhos e isso não um “defeito” apenas de sua família.

Muitos pais relatam algo assim: “Meu filho não me respeita.” “Ele responde de forma atravessada.”
“Não aceita orientação.”

Famílias são sistemas vivos e você, se quiser, pode estudar um pouco mais sobre isso aqui em nosso blog, ou em outras das nossas redes sociais.

Entretanto a coisa mais importante é você, em primeiro lugar perceber o quanto pode estar sendo desrespeitosa consigo mesma.

É fácil darmos esse exemplo, de forma inconsciente, pois fomos educados para sermos extremamente severos conosco, a confundir bondade e respeito com passividade, a ter dificuldade em colocar limites e dizer não.

Isso significa apenas que o comportamento humano sempre acontece dentro de um contexto relacional, que aprendemos e repetimos formas de agir que aprendemos como sendo as melhores e tendemos a persistir nelas mesmo quando não dão certo.

Pensamos que o erro está em nós, e então insistimos, demorando para perceber que a muitos caminhos para uma mesma solução.

O cotidiano como lugar de transformação

Muitas pessoas acreditam que grandes mudanças familiares dependem de soluções dramáticas ou intervenções complexas. Na realidade, muitas transformações começam em gestos simples.

Quando as pessoas se sentem seguras em seu lugar, realizando suas funções, sejam elas de mãe, pai ou filho, a intensidade dos conflitos tende a diminuir.

As diferenças continuam existindo, mas deixam de se transformar em guerras emocionais.

Uma pergunta importante

Se pequenas coisas frequentemente se transformam em grandes brigas dentro de casa, talvez valha a pena fazer uma pergunta diferente: “Quando isso realmente começou?”

Essa mudança de olhar muitas vezes abre espaço para algo raro e precioso nas relações familiares: compreensão profunda e quando essa compreensão aparece, mesmo os conflitos mais intensos podem se transformar em oportunidades de crescimento.

Desjo o melhor para minha família e a sua pois todas as famílias são iguais de uma forma geral embora as histórias sejam únicas.

Um abraço,
Rosana Jotta
Professora de Inteligência Sistêmica
Instituto Rosa da Terra

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