Por que ser feliz te faz sentir culpa?

O conflito entre pertencimento e autonomia, e o que isso revela sobre nós

Olá!

Você já se fez essa pergunta silenciosa: Por que, quando começo a me sentir mais feliz, algo em mim parece travar?

Eu já! Sempre que me sentia alegre com o fluxo de dinheiro, algo acontecia e ele parava de entrar. diminuía o fluxo.

Com o tempo percebi como se, junto com a leveza, surgisse um incômodo… uma tensão… um medo… e muitas vezes até uma culpa secreta.

Isso não acontecia por acaso. Uma das dores mais profundas é a da pobreza, e minha família de origem por gerações, passou por isso.

E era aí que começava o conflito dentro de mim.

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O paradoxo da felicidade

E quem disse que dinheiro não traz felicidade?

Obviamente quem já tinha dinheiro, e almejava tantas outras coisas importantes que de fato, independem de dinheiro, caráter por exemplo.

Minha mãe tinha um ditado que contava sobre nossa felicidade: Nesta casa ganha-se pouco, mas a gente se diverte.

Fato, mas o desejo de ter dinheiro cresceu comigo, com uma sensação de que ele era o culpado de todos os problemas.

Eu tinha raiva do dinheiro, e nunca imaginaria isso

Não ambivalência. Não culpa. Raiva mesmo.

Com o tempo percebi que essa raiva era minha, uma interpretação, pois reconheci o quanto a chegada do dinheiro sempre me deixava eufórica.

Euforia na chegada. Medo quando me via sem ele. E raiva como explicação para uma sensação de impotência diante desse ciclo angustiante e cheio de ansiedade.

Esse era o ciclo completo, e eu não compreendia porque estava dentro dele, mesmo tendo sucesso em minha vida profissional.

O que eu projetei no dinheiro?

Bem, primeiro percebi o quanto tinha uma visão mágica dele, tipo “ele sempre chega e resolve rápido.” Super utilitária e, por outro lado, desconfiada.

Projetei no dinheiro dificuldades que nada tinham a ver com ele. Ele virou o depositário de tudo que doía e não tinha nome.

Foi exatamente neste ponto que resolvi olhar para tudo isso, parar com o “deixar pra lá“, dessa vez vai dar certo.

Parar de culpar o dinheiro, e a mim mesma, e compreender como me relacionava com ele a partir de quem havia me tornado foi a porta da solução.

O lugar que eu ocupava

Mas antes de entender a confusão, precisei entender onde estava.

O lugar que ocupo, em que me coloco em relação a algo é essencial. Essa foi a primeira descoberta. Não onde deveria estar. Mas onde realmente estava.

E onde eu estava em relação ao dinheiro era um lugar de poder simbólico desproporcional: ora salvador, ora distante. Nenhum dos dois real. Os dois projeção.

Qualquer movimento em direção à abundância ativava o meu sistema de proteção, e o recuo vinha disfarçado de padrão financeiro.

O puxa e solta

Com o tempo fui amadurecendo, e percebi duas coisas.

A primeira: muito do que faltou para meus pais de modo algum dependia de dinheiro. A pobreza controlada, era o rosto que o sofrimento, e a felicidade possível escolheu, não a causa de tudo.

Separar isso foi um ato de justiça com eles. Não de julgamento.

A segunda foi mais difícil de ver, porque era minha, não herdada.

Desenvolvi em mim um medo de que a necessidade do dinheiro, e a capacidade de fazê-lo acontecer me distanciaria das coisas impagáveis da vida.

Nenhum dinheiro no mundo poderia me oferecer a proteção e o amor incondicional que sempre senti na relação com papai.

A euforia quando o dinheiro chegava não era sobre o dinheiro. Era sobre ele que devido ao trabalho passava, o que pra mim, eram longos períodos longe de casa. A proteção que papai representava, ficou ligada na minha memória afetiva, ao dinheiro que ele trazia, e toda fartura que isso nos proporcionava.

Quando vi isso, a troca saiu do lugar errado.

Isso é o que a abordagem sistêmica chama de desequilíbrio na reciprocidade, a terceira Ordem do Amor. Não como conceito moral. Como descrição do que acontece quando buscamos proteção, amor, pertencimento onde eles estruturalmente não podem viver.

Quando exigimos de alguém algo que só outra pessoa pode oferecer, ou oferecemos algo que na verdade não temos, ou da qual o outro nem necessita.

São tantas as possibilidades de desequilíbrio nas trocas quanto o número de pessoas que existem na Terra.

Ouvir muitas vezes que minha questão era uma lealdade a meu pai, ou que eu não me permitia ter mais sucesso financeiro que ele, sim, me aproximaram do nó, mas resolver só resolvi quando percebi as conexões que eu mesma havia criado dentro de mim.

Entre perceber o padrão e conseguir me mover na direção que desejava sem interrupções , havia um trabalho real a se fazer.

Assumir a responsabilidade pela gestão desse processo. Compreendi onde estava, quais necessidades estava tentando atender, a pertinência ou não dessas necessidades, e como poderia ser diferente. Onde realmente desejava chegar.

Buscar as estratégias necessárias para alavancar esse processo, sem querer colher antes de plantar.

Não é cura recebida. É um ato de responsabilidade adulta. Aquele capaz de assumir as consequências de suas escolhas, e de arar, semear, antes de poder colher.

Cada um é cada um

Muitos de meus irmãos sentem essa proteção em relação à mamãe. Neste campo interno, regras não contam. Cada um é cada um, e isso é ainda para nós humanos um mistério insondável.

A Constelação Sistêmica também é assim. Ela sonda nossos corações.

É exatamente esse tipo de movimento que acontece nas Constelações Familiares e na Mentoria em Inteligência Sistêmica do Instituto Rosa da Terra.

Ser feliz de verdade não é um estado que se conquista de uma vez. É um território que se aprende a habitar: sem culpa, sem o medo de se perder no caminho, sem precisar trair de onde se veio para chegar até lá.

Quando você encontra seu próprio lugar nesse processo, a felicidade para de assustar. Ela se torna simplesmente: Sua.

Um abraço,
Rosana Jotta

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