Como curar a criança interior?

Um olhar profundo sobre padrões emocionais, vínculo e transformação

Olá!

Estes dias estive envolvida com falas que ouvi na minha infância. Coisas do tipo: “você vai acabar sozinha”, “você vai ficar louca”.

Explicando a essa criança em mim o que pode ser diferente e por quê. A perspectiva de quem disse determinadas coisas, reconhecendo o quanto foi triste e dolorido para ela, e como essas falas tinham um fundo de verdade, embora fossem destrutivas e de modo algum construtivas, embora viessem acompanhadas de “eu quero o seu bem”.

Toda boa mentira tem um traço de verdade, eu ouvia da mamãe, e me formei dentro dela, cresci dentro dela e, como toda criança pequena, me sentia como parte dela. Devo ter me sentido muito feliz enquanto ela bordava à mão todo o meu enxoval, aguardando minha chegada.

Só que eu não era só eu: nasci primeiro, mas éramos duas meninas, e essa outra menina morreu aos seis meses de idade. Então, quando mais tarde ouvia que meu destino seria ficar sozinha, aquilo já era uma verdade e meu corpo sabia disso.

Quando tudo isso aconteceu, eu também era um bebê, e quem quase ficou louca foi ela, grávida de três meses sem saber, com dois bebês de sua primeira gravidez: um para amamentar e outro tendo morrido em seus braços, sem avisos, sem doenças.

Aos 89 anos ela dizia sem parar: “Me lembrei. Deus me deu duas, tirou uma e deixou a outra. Essa é você.”

O que é criança interior?

A chamada “criança interior” não é uma parte separada de nós; faz parte de nossa estrutura assim como nossos pés. É a memória viva, emocional e corporal, das experiências que tivemos nos primeiros anos de vida.

É ali que aprendemos, sem linguagem ou filtro racional: como nos sentimos em relação ao mundo, se é seguro amar e ser amado, se podemos confiar, se podemos existir como somos.

Essas experiências não ficam no passado.

Elas se organizam em padrões internos, caminhos neurais que hoje a neurociência nos ensina que continuam atuando ao longo da vida, e que, através de nossa capacidade biológica chamada de neuroplasticidade, podem ser transformados.

Na linguagem desse olhar biossistêmico, isso significa que podemos nos transformar através de nossa capacidade de aprender.

Isso é fantástico, pois é nesta criança interior que continuam latentes nossa curiosidade diante da vida, nossa vontade de aprender, a alegria de viver, a satisfação com o afeto e as coisas simples do dia a dia.

A criança interior ferida

Bom, se você chegou até aqui na leitura, já percebeu que, como adultos, não temos escolhas sobre isso. De um modo ou de outro, a criança em nós foi ferida.

Em muitos contextos, houve: ausência emocional, rejeição, críticas constantes, medo ou instabilidade. E isso nem diz respeito apenas às nossas famílias, hoje sabemos que, depois de nossos pais e avós, os professores são os mais responsáveis por essas feridas profundas.

E faz todo sentido, pois quem ainda não viu o quanto uma criança pequena confia em sua professora? Minha mãe dizia que sabia quando outra professora dava aula, pois eu mudava meu jeito de andar e falar.

Mas quando agredida, física ou emocionalmente, a criança, por não ter recursos para compreender ou se proteger, faz o que pode: cria estratégias para manter o vínculo e garantir pertencimento.

As minhas foram o afastamento, o isolamento, e conforme fui crescendo, a rigidez mental. Disse para mim mesma que nunca confiaria no que as pessoas dissessem sobre qualquer coisa, porque elas não gostavam de mim. Que só confiaria em mim mesma e no que aprendesse sobre a vida.

Isso me transformou em uma estudiosa compulsiva, o que me trouxe e ainda traz muitos benefícios. Entretanto, essas estratégias têm também custos.

No meu caso, por mais que adore ouvir a visão das pessoas sobre diferentes coisas, exponho a minha de forma tão enfática que soa para elas como se fosse a única confiável e, portanto, verdadeira.

E de fato foi assim que decidi quando criança: que independente de qualquer coisa, confiaria em mim e apenas na minha própria cabeça.

Óbvio, então, o que acontecia: essa se tornou também a minha maneira de realizar o que mamãe previa. Irritar as pessoas. Afastá-las. Confirmar, com meu próprio corpo e minhas próprias palavras, que eu acabaria sozinha. Não por maldade, por lealdade. A uma verdade que aprendi antes de ter linguagem para questioná-la.

É isso que chamamos de “criança interior ferida”, não porque algo esteja quebrado, mas porque o que era um modo de se proteger na infância se tornou um padrão de comportamento inconsciente na vida adulta.

A construção de padrões neurais

Do ponto de vista biológico, essas experiências iniciais moldam o cérebro. Conexões neurais se formam a partir de repetição e intensidade emocional.

O cérebro aprende: como reagir, o que esperar, como se proteger. Na vida adulta, estruturas como a amígdala cerebral entram em ação rapidamente, detectando sinais de ameaça ou perda de referência. Com o tempo, isso cria padrões automáticos: evitar, agradar, se fechar, reagir com intensidade, e tantos outros.

Não são escolhas conscientes. São formas aprendidas de sobreviver.

A implicação desses padrões na vida adulta

Na vida adulta, esses padrões continuam operando. E muitas vezes se manifestam como dificuldade em confiar, medo de rejeição, necessidade constante de aprovação, reações emocionais intensas, sensação de não pertencimento, dificuldade de receber, necessidade compulsiva de ser útil.

A pessoa pode até compreender racionalmente que não está mais na mesma situação, mas o corpo não responde à lógica. Ele responde ao que foi registrado.

Por isso, repetimos. Não por falta de esforço. Mas por coerência com aquilo que foi aprendido, e que precisa dar lugar a novas aprendizagens.

Como curar a criança interior

Aqui é importante trazer um ponto essencial: não se trata de “consertar” algo quebrado. Trata-se de reconhecer, integrar e reorganizar.

Reconhecer

Reconhecer a dor dessa criança como nossa dor. Lembrar aquilo que aconteceu e agora poder perceber em perspectiva o contexto onde aconteceu, e se certificar de explicar a ela.

Foi o que fiz nesses dias. Sentei com aquela criança que ouvia que ia ficar sozinha e expliquei: a mulher que disse isso estava carregando uma dor que mal cabia nela. Não sabia o que estava fazendo. E ainda assim tinha um traço de verdade, porque havia uma irmã que morreu, e havia um corpo que aprendeu o que é perda antes de aprender a falar.

Compreender

Quando, como adultos, dizemos “Deus me livre de ser criança”; ou simplesmente nem olhamos para a existência dela, estamos excluindo essa criança em nós, ao mesmo tempo em que lembramos apenas das pessoas que nos feriram e de como fizeram isso.

Assim, podemos estar apenas colocando mais uma camada de dor sobre ela, no lugar de assumirmos, como adultos, a responsabilidade de nos relacionarmos com ela de outra forma.

É preciso entender os padrões de comportamento e decisões que ela tomou sobre a vida, e reconhecer que esses padrões tiveram uma função. Foram formas de adaptação. Deram certo, pois sustentaram a vida e nos fizeram desenvolver competências que talvez ainda não tenhamos reconhecido.

Sentir com segurança

Permitir que emoções antigas encontrem espaço de expressão. Chorar com ela, se for o caso, mas não por ela, pois de algum modo deu certo: ela venceu, e agora temos um adulto cuidando disso, com mais recursos.

Atualizar o lugar

Fazer com que ela participe de nossa vida consciente, perceba que o contexto mudou. Que hoje existem outras possibilidades de resposta e temos condições, como adultos, de fazer as melhores escolhas, inclusive para ela.

Reorganizar vínculos

O trabalho do adulto é integrar essa criança em sua vida, do jeito que ela é, levando-a como parceira, reconhecendo suas competências valiosas. Desmontando os padrões que já perderam o sentido e construindo, através de escolhas e atitudes alinhadas com essa compreensão, novos hábitos, novos caminhos neurais.

Curar a criança interior não é voltar ao passado. É permitir que o passado encontre um novo lugar dentro de nós. Que nos abra para novas possibilidades e experiências.

É sair da repetição automática e entrar em uma relação mais consciente com a própria história.

Talvez o ponto mais importante seja este: você não é o seu padrão.

Mas ele faz sentido dentro da sua história. E, quando reconhecido e gerenciado com clareza, pode deixar de conduzir a sua vida. Penso nisso e penso nela, na minha mãe bordando cada ponto do enxoval, sem saber ainda que éramos duas.

Bordando para mim. Bordando para ela. Sem saber que um dos nomes seria usado por tão pouco tempo.

Há uma criança em mim que cresceu sabendo que havia um espaço vazio ao seu lado. E há uma adulta que aprendeu, devagar, a não preencher esse espaço com isolamento, mas a sentar nele, com cuidado, e deixá-lo ser parte da história.

Não cura. Integra.

Um abraço,

Rosana Jotta

2 comentários em “Como curar a criança interior?”

  1. Oi Rosana, sua história de vida é inspiradora! Me emocionei com os acontecimentos e, especialmente, com sua habilidade de ressignificação! Ainda tenho muita dificuldade de reconhecer os padrões e acredito que sem essa capacidade, fica simplesmente impossível curar a criança interior. Faz sentido? Você poderia escrever um texto sobre como podemos reconhecer esses padrões? Muito obrigada! Adoro ler os seus textos, pois confortam muito o meu coração. Um abraço afetuoso! ❤️

  2. Obrigada por comentar aqui, cada vez que vocês fazem isso apoiam o desenvolvimento do meu trabalho.
    O “como” quando envolve percepção não é algo que se aprende apenas na teoria. Neste sentido perceber a própria evolução, não se desesperar quando percebe os seus e ter com quem compartilhar são caminhos importantes. A terapia ou a mentoria são caminhos importantes.

    Ontem estava pensando o motivo de dar a eu mesma como exemplo, as vezes canso disso. Entretanto é onde tenho autoridade pra falar,
    sou minha própria experiência e é dai que vem minha segurança. Então focar em si é o ponto central, compartilhar é onde a coisa se consolida, então meus alunos e clientes são o universo onde aprendo variações sobre o mesmo tema.

Deixe um comentário