Ambientes tóxicos não punem o erro. Punem a inteligência criativa.
Olá!
Durante décadas, tive uma confecção de camisetas.
O que víamos no controle de qualidade era quase inacreditável: peças que passavam pelo processo completo com buracos escandalosos no próprio tecido. Erros que ninguém havia visto, ou que ninguém havia querido ver, ao longo de toda a esteira de produção.
Eu reunia essas peças e, guiada pelos estragos, trabalhava nelas de outras formas.
Todas se tornavam as mais incríveis, e também as de saída mais rápida. Sem falar que eram duplamente únicas.
O buraco no tecido não era o fim do processo. Era o início de outro processo, que nunca existiria se o erro não tivesse acontecido. E o mercado reconhecia nessas peças algo que a peça perfeita não tinha: uma unicidade que só existia porque algo havia saído diferente do previsto.
Foi nessa confecção que compreendi algo que décadas de prática clínica depois só confirmaram:
O erro não destrói. Revela que existem outras possibilidades.
O que caracteriza um ambiente que pune o erro
Antes de falar sobre o que a ciência revela, vale nomear o que você provavelmente já reconhece na experiência:
Comunicação ambígua: mensagens que nunca dizem claramente o que se espera.
Críticas constantes: sem reconhecimento do que funciona.
Medo de errar: paralisa antes mesmo da ação.
Excesso de controle ou caos completo: dois extremos do mesmo campo sem segurança.
Competição destrutiva: o outro vira ameaça, não parceiro.
Ausência de reconhecimento: o esforço nunca é suficiente.
Mudanças sem clareza: chegam sem contexto e sem escuta.
Pressão emocional silenciosa: todos sentem, ninguém nomeia.
Sensação de nunca ser suficiente: instala-se no corpo antes de chegar à consciência.
Em linguagem sistêmica, o campo perdeu previsibilidade e segurança nas transações interpessoais.
E, quando isso acontece, o sistema nervoso de cada pessoa dentro dele tende a entrar em modo de ameaça. Não como escolha, mas como biologia.
O erro deixa de ser dado. Vira ameaça. E ameaça se esconde. Não se usa.
O que Edmondson descobriu, e por que surpreendeu
Amy Edmondson, pesquisadora de Harvard, começou com uma hipótese simples: equipes de enfermagem com melhor desempenho cometeriam menos erros de medicação. Os dados mostraram o oposto.
As equipes de melhor desempenho reportavam mais erros, porque tinham um campo seguro para nomeá-los.
Edmondson nomeou esse campo de segurança psicológica. E o que encontrou é preciso: segurança psicológica não é conforto, não é ausência de pressão, não é uma cultura apenas agradável.
É a crença compartilhada de que é seguro assumir riscos interpessoais nesse campo, fazer perguntas, nomear erros, discordar e pedir ajuda, sem punição.
Quando essa crença existe, o comportamento de aprendizagem emerge. Quando não existe, ele desaparece.
As pessoas fazem o mínimo seguro e guardam o resto.
O Google confirmou isso de forma independente, por meio do Projeto Aristóteles. De todos os fatores analisados em centenas de equipes, a segurança psicológica foi o preditor mais forte de desempenho.
Mais do que talento individual, mais do que recursos, mais do que estrutura.
Acredite se puder: O campo determina o que a inteligência consegue fazer.
O gargalo que ninguém vê
Na confecção, aprendi que o problema raramente está onde parece estar. A peça com buraco não era o problema; era o sintoma.
O problema estava antes: no olhar que não via, ou que via e silenciava.
Goldratt chamaria isso de gargalo, a restrição que limita o desempenho de todo o sistema, independentemente de quanto se otimize o restante.
Em ambientes organizacionais, o gargalo raramente é a competência das pessoas. Não é a tecnologia. Não é o processo.
É o campo relacional que impede que o conhecimento circule, que os erros sejam nomeados, que a colaboração real aconteça.
Enquanto esse gargalo não for visto, qualquer outra intervenção produz resultado marginal, ou agrava o problema.
Treinamentos, processos e metas passam por esse gargalo. E, se o gargalo é o medo do erro, nada passa.
O erro como dado, não como falha
Humberto Maturana nos ajuda a compreender que sistemas autopoiéticos se reorganizam a partir de perturbações.
O erro é uma perturbação. É o momento em que a realidade diz ao sistema: “sua estrutura atual não é suficiente para o que está sendo exigido lá fora. Reorganize-se.”
Um campo que suprime o erro está suprimindo o próprio mecanismo de aprendizagem de um sistema vivo. Não está protegendo o sistema. Está impedindo que ele aprenda.
E um sistema que não aprende não evolui. Cristaliza.
E sistemas cristalizados, sejam famílias, equipes, organizações ou pessoas, adoecem de formas previsíveis e repetitivas.
As peças com buraco que eu guardava não eram refugo. Eram o sistema me dizendo que ali havia algo que o processo padrão não alcançava.
Guiada pelos estragos, cheguei a saberes práticos que o planejamento jamais me entregaria.
Leia mais: Um Problema das Empresas é o Medo de Errarhttps://institutorosadaterra.com.br/como-liderar-sistemas-complexos-por-que-controlar-nao-resolve/: Um Problema das Empresas é o Medo de ErrarNem ensaio, nem replay
A vida não tem ensaio. Não há como se preparar completamente para o que ainda não aconteceu. A incerteza não é um problema a resolver antes de agir. É a condição permanente dentro da qual toda ação ocorre.
E a vida não tem replay. O momento passou. O erro aconteceu. O que foi, foi.
O que há é o movimento a partir daqui, com o que o erro revelou, com o que a perturbação trouxe de informação, com a reorganização que só é possível porque algo foi visto.
O erro vive exatamente nesse intervalo, entre o que não se podia prever e o que não se pode desfazer. É ali que a inteligência criativa opera.
Um campo que pune o erro está punindo precisamente o único lugar onde a vida acontece de verdade.
O que a Educação Biossistêmica propõe
Não é eliminar o erro. É criar as condições para que ele seja visto e usado.
Isso exige um campo com segurança relacional suficiente para que as pessoas se arrisquem. Que perguntem. Que nomeiem o que não funciona. Que discordem sem punição. Que errem e tragam o erro como dado, não como vergonha.
Exige líderes e educadores que compreendam que seu estado interno afeta o campo antes de qualquer palavra. Que seu sistema nervoso em modo de ameaça fecha o campo antes de qualquer política ou treinamento.
E exige de cada pessoa a capacidade de habitar a incerteza, sem precisar que o campo seja perfeito antes de se arriscar.
Porque a vida não oferece um campo perfeito. Oferece a complexidade real, com seus múltiplos sistemas atuando simultaneamente, com sua imprevisibilidade estrutural e com seus erros inevitáveis.
E a inteligência que navega essa complexidade não é a que evita o erro. É a que trabalha com ele, guiada pelos estragos, em tempo real, sem ensaio e sem replay.
Se algo aqui ressoou
Se algo aqui ressoou, não como novidade, mas como reconhecimento do que você já sentia sem conseguir nomear, talvez seja o momento de aprofundar esse olhar.
Na Formação em Inteligência Sistêmica e na Mentoria do Instituto Rosa da Terra, trabalhamos exatamente esse movimento: desenvolver campos de aprendizagem com segurança relacional real, onde o erro é dado, a incerteza é condição e a inteligência coletiva tem por onde operar.
Atendimentos e formações presenciais em Araxá ou online.
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