O amor não substitui sono. O dinheiro não substitui regulação emocional.
Olá!
Existe uma narrativa que a geração atual de mães recebeu com muita força.
Você pode tudo. Você é poderosa. Você tem recursos, autonomia, carreira, independência financeira. Você não precisa depender de ninguém.
E se você ama de verdade, seus filhos vão sentir isso, independente de qualquer coisa. Essa narrativa libertou muitas mulheres de moldes antigos.
E criou, silenciosamente, um molde novo.
O mito de um amor incondicional e ilimitado
Durante gerações, disseram às mães que amor suficiente supera qualquer obstáculo. Que a boa mãe não sente cansaço, ou se sente, não mostra.
Que presença com disponibilidade total e irrestrita é prova de amor real.
Elisabeth Badinter mostrou como essa narrativa foi construída historicamente para, de fato, manter a mulher no lugar do cuidado irrestrito.
Mas isso nasceu de uma necessidade social específica, ter alguém disponível integralmente para as crianças, em um momento em que os homens foram convocados em massa para outras tarefas.
Mas o corpo nunca acreditou nessa narrativa. O sistema nervoso não tem ideologia. Ele tem limites biológicos reais.
Um córtex pré-frontal que funciona em capacidade reduzida após privação de sono, um nervo vago que transmite estresse para os órgãos internos, uma arquitetura neural que foi construída para o mundo de nossos ancestrais, não para a velocidade do mundo contemporâneo.
Amar muito não desativa esses limites.
O segundo mito, é o dinheiro que resolve
A geração de mães na faixa dos 25/30 anos hoje tem algo que gerações anteriores não tinham: recursos financeiros ou socialmente organizados.
Isso é maravilhoso. São grandes vitórias.
Carreira construída ou sendo construída. Independência financeira possível no horizonte ou realizada.
Capacidade de acessar suportes sociais como creches, ou contratar uma babá, escola integral, delivery, personal, terapeuta, e por aí vai.
Então o bebê chega.
E às 3 da manhã, com o sistema nervoso em alerta máximo, com o corpo aprendendo em velocidade acelerada o que é ser mãe, com a história ancestral de todas as mulheres que vieram antes operando silenciosamente por baixo, o dinheiro não está lá, nem a creche.
Esses recursos vão resolver a logística do dia a dia. Não resolvem biologia, gatilhos emocionais ou crenças fora de contexto.
O dinheiro ou a estrutura organizada de saúde desde o pré natal não compram um sistema nervoso que não entra em colapso.
Não eliminam o registro ancestral do que foi herdado de mães, avós e bisavós que maternaram sem nome para o que sentiam.
O importante é que tornam possível encontrar o caminho necessário para regular todos estes aspectos.
O que a pesquisa sobre regulação do sistema nervoso mostra é que performar competência em estado de esgotamento tem um custo neurobiológico real.
O córtex pré-frontal, responsável pela tomada de decisão, pela empatia, pela capacidade de estar presente, opera em capacidade reduzida quando o organismo está cronicamente sobrecarregado. Não é fraqueza. É fisiologia.
E nenhuma narrativa cultural muda isso.
A descoberta de que ela, enquanto mãe, também é água, mineral e animal. Que o corpo tem sua própria agenda, e ela não aceita negociação. Exige cuidado, adaptação.
Leia mais: Maternidade e Limites Biológicoshttps://institutorosadaterra.com.br/a-ciencia-esqueceu-que-somos-natureza/: Maternidade e Limites BiológicosO terceiro mito, o empoderamento que virou exigência
Há ainda uma camada mais sutil e mais recente.
A mulher poderosa não pode admitir que está no limite. A mãe independente precisa virar pai-mãe com muito orgulho. A profissional bem-sucedida não pode mostrar que a maternidade a abalou.
Reconhecer que o pai do filho é diferente de seu parceiro, e importante pro filho, seria admitir fraqueza? Na verdade carregar simbolicamente as duas funções produz alto custo sistêmico e emocional.
Então ela segue. Com a agenda cheia, o sorriso no lugar, a performance de que está dando conta, enquanto por dentro o sistema nervoso opera em modo de emergência há meses.
Há uma ordem sistêmica que a narrativa da ‘mulher que faz tudo’ costuma atropelar: a Precedência.
No sistema de um filho, o pai e a mãe chegaram juntos à função, independentemente da qualidade da relação do casal.
Quando a mãe tenta ser ‘pai e mãe’, ela não está apenas se empoderando; ela está tentando carregar duas mochilas sistêmicas.
Reconhecer que o pai existe e tem um lugar, mesmo que seja um lugar de ausência física ou de uma diferença difícil de lidar, é o que permite à mãe soltar o que não é dela.
Admitir que o filho vem de duas fontes não é sinal de fraqueza ou dependência da mulher poderosa; é o reconhecimento da verdade que liberta o sistema nervoso dela dessa vigília constante de tentar suprir o impossível.
Quando ela dá ao pai o lugar que é dele no coração do filho, não necessariamente na sua casa, ela finalmente recupera o direito de ser apenas a mãe, e isso é o suficiente.
O molde mudou. A armadilha é a mesma.
A mãe que reconhece seus limites não está amando menos. Está criando as condições para que o amor que ela tem seja sustentável, não por seis meses de adrenalina, e muitos outros de mágoas e ressentimentos.
Mas por décadas de presença real.
E há algo que a neurociência confirma e que a sabedoria sistêmica já sabia: a criança não precisa de uma mãe ilimitada e perfeita.
Ela precisa de uma mãe regulada, capaz de errar, de se recuperar, de mostrar que é humana, e de continuar presente mesmo assim.
Uma mãe que se cuida não está competindo com os filhos pelo próprio tempo.
Está ensinando, com o corpo, o que é habitar a própria vida com coerência.
O que muda quando os limites são reconhecidos
Não a perfeição. Não a ausência de culpa. Não o fim dos assombros.
O que muda é a ancoragem.
Quando uma mulher para de fingir que não tem limites, para si mesma, antes de qualquer outra pessoa, algo se reorganiza.
Ela para de gastar energia mantendo a ficção. E essa energia liberada vai para o que importa, para a presença de verdade, para o cuidado que sustenta, para a vida que ela quer construir dentro das condições reais que tem.
Para os filhos. E para si mesma.
Leia mais: Maternidade e Limites Biológicoshttps://institutorosadaterra.com.br/ordem-funcao-amor-hierarquia/: Maternidade e Limites BiológicosBaixe gratuitamente o ebook “Por Que Repetimos Padrões na Vida?” e faça parte da nossa comunidade no Substack.
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Esse texto me caiu como uma luva hoje…
Que notícia boa!