O que a biossistêmica e a neurociência dizem sobre o corpo feminino
Olá!
Tenho uma aderência desde minha primeira cesariana. Ela permanece comigo, silenciosa, pontual, presente. Durante anos a via penas como um dado anatômico. Uma cicatriz interna. Um detalhe do meu histórico médico que de vez em quando me dá um susto, um verdadeiro puxão dentro de mim.
Era só isso que eu pensava até começar a entender que o corpo não guarda apenas tecido. Ele guarda experiência. E que o que fica preso num ponto do organismo raramente fica só naquele ponto.
O que aconteceu comigo nos últimos anos
Passei os últimos dois anos praticamente sentada, hora sentada em algum canto da casa com um livro na mão e outro ao lado, horas em frente ao computador ou celular, 80% do tempo imóvel, reaprendendo tudo o que aprendi e estudei ao longo da vida.
Falando e escrevendo sobre memórias e a importância do corpo na atualização de nossos registros emocionais, traumas e novas aprendizagens. Enfim me sentia inchada e doente.
Quando finalmente procurei um médico de medicina chinesa, o que ele encontrou foi preciso: bloqueio de energia do quadril para cima, deficiência no canal do fígado, mente drenando energia do coração.
Três semanas de acupuntura depois já estava outra. Meu corpo não estava acumulando só gordura. Estava acumulando tensão.
O corpo visto em partes? E o corpo visto como uma totalidade?
Os dois, cada uma no seu lugar, fazendo a sua parte.
A medicina ocidental é extraordinária, deu e dá oportunidade de sobrevivência a seres humanos que sem ela teriam morrido precocemente.
Ela tende a ler o corpo por partes, gerando especializações, cada órgão, cada sistema, cada exame com seu próprio especialista e seu próprio protocolo. Trabalha focada em micro sistemas. Caminha das partes para o todo.
A medicina chinesa faz o movimento contrário, lê o campo sistêmico indo do todo, das relações, para as partes. O sistema nervoso autônomo, estudado por Stephen Porges através da teoria polivagal, opera o corpo inteiro como campo integrado.
Um estado de tensão crônica num ponto do organismo não fica naquele ponto, ele reorganiza o padrão de ativação do sistema inteiro, a respiração, o tônus muscular, a qualidade da atenção, a capacidade de presença a cada passo.
E foi olhando pra isso que fiquei me perguntando sobre como o que fica preso na pelve de uma mulher após um ou vários partos, afeta o fluxo de energia em regiões distantes de seu corpo.
O que a medicina chinesa chama de bloqueio de fluxo e o que a neurociência descreve como ativação simpática crônica podem ser, em muitos casos, leituras diferentes do mesmo fenômeno.
Os dois, cada coisa no seu lugar, fazendo a sua parte.
O corpo feminino acumula de formas que raramente são nomeadas com precisão, desde o início da puberdade, ciclo menstrual e todos os desdobramentos desse feminino.
A gravidez reorganiza a postura, o centro de gravidade, a respiração. O parto, vaginal ou cirúrgico, deixa marcas que a medicina convencional trata como esperadas e portanto invisíveis.
A cesariana deixa aderências. O parto normal pode deixar tensões no assoalho pélvico que persistem décadas. A amamentação encurva os ombros, aproxima os braços do corpo, fecha o tórax numa postura de proteção e entrega simultâneas.
E além do físico imediato, há o acúmulo emocional. O que o corpo da mãe carrega enquanto cuida. A tensão que não encontra saída porque sempre há alguém que precisa mais. O sono fragmentado que vira padrão. A atenção que se divide até não encontrar mais o fio de volta para si mesma.
Antônio Damásio demonstrou que o corpo humano opera um sistema contínuo de sinalização somática, tipo sinal de trânsito, sinais que informam o organismo sobre seu estado interno antes que qualquer processamento consciente ocorra.
O problema é que aprendemos a ignorar sinais pequenos até que eles se tornem grandes demais para serem ignorados. Nos sobrecarregamos de tantas formas nessa busca de parecermos fortes ou esforçados, que chegamos a um ponto que nosso corpo já não consegue incluir.
O que fica quando nada flui
A aderência que carrego desde minha primeira cesariana me ensinou algo que nenhum livro teria ensinado da mesma forma.
Tecido que adere é tecido que perdeu mobilidade e se , que ficou preso numa configuração que foi necessária em algum momento e que o organismo não encontrou condições para soltar depois.
Isso acontece com tecido. Acontece com emoção. Acontece com padrões de pensamento. Acontece com formas de se relacionar que foram aprendidas sob pressão e que continuam operando muito depois que a pressão original desapareceu, como quando seu filho já tem dois anos e seu sono continua super leve.
O sistema nervoso reorganiza a qualidade da presença. E a qualidade da presença reorganiza tudo o que essa mulher consegue ou não consegue acessar em si mesma.
A Inteligência Sistêmica chama isso de padrão sistêmico, uma configuração que o sistema fixou como resposta a uma perturbação e que continua se repetindo porque o sistema não encontrou ainda as condições para se reorganizar.
Mas uma perturbação nunca fica quieta, atua. Ele irradia. Como uma pedrinha que cai na água, o impacto é pontual, mas os círculos se expandem muito além do problema inicial.
O corpo e o sistema de relações obedecem à mesma lógica. O que não flui, adere. O que adere, limita o movimento. O que limita o movimento, restringe nossas vidas de formas que nem imaginamos.
Restaurar o fluxo não é luxo, é condição
Vivemos numa cultura que trata o cuidado do corpo materno como obrigatório apenas no pré natal, depois disso isso fica para quando sobra tempo, quando os filhos crescem, quando o trabalho diminui ou realmente adoecemos.
A pesquisa e a experiência clínica dizem o contrário: o fluxo saudável do organismo, não é consequência de uma vida organizada. É condição para que a vida se organize a favor do bem estar.
Cuidar da manutenção do seu fluxo energético, seja pela acupuntura, pelo movimento, pela constelação, pela presença terapêutica que devolve ao corpo o que ele havia dissociado, não é autocuidado como tendência de Instagram.
É gestão das condições de contorno da própria vida. É o que torna possível que tudo o mais continue existindo.
A aderência que carrego ainda está lá. Mas já não a leio como defeito. Leio como memória do que o corpo precisou fazer para continuar. E entender isso mudou a forma como trabalho com pessoas, porque o corpo de quem chega até mim também tem suas aderências. Físicas, emocionais, relacionais.
O trabalho não é apagar o que ficou. É restaurar as condições para que o movimento volte a ser possível.
Um abraço,
Rosana Jotta
Sou fundadora do Instituto Rosa da Terra, professora de Inteligência Sistêmica e facilitadora de Constelações Sistêmicas há mais de duas décadas. Escreve sobre padrões humanos, sistemas vivos e a possibilidade de transformação real.
Rosana Jotta é facilitadora em Condições de Contorno, Inteligência Sistêmica e Educação Biossistêmica com mais de 20 anos de experiência. Arquiteta de Contornos, Pedagoga (UFU), Consteladora Sistêmica com formação pelo IMAHOM e participação em seminário com Bert Hellinger e Pólo de Cuidado em Terapia Comunitária Integrativa pela ABRATECOM. Fundadora do Instituto Rosa da Terra, facilita processos de transformação para quem busca sair de padrões repetitivos e viver com mais consciência: clareza, leveza e sucesso. Conheça seus Treinamentos, Mentorias e Atendimentos em grupo ou individuais (presenciais ou online).