O que a neurociência está descobrindo, e é essencial na formação de um profissional sistêmico.
Olá!
Ao adotar uma postura interdisciplinar descobrimos que a neurociência das últimas duas décadas está mostrando, sem alarde, que o corpo humano em suas relações diárias, funciona de formas que o modelo clássico de pensamento não consegue explicar.
E isso nos diz que o que acontece numa constelação familiar ou organizacional, tem substrato fisiológico identificável, não apenas interpretação simbólica.
Isso muda alguma coisa para quem facilita. Muda bastante.
Quando um representante numa constelação começa a sentir peso nas pernas sem saber quem está representando, a primeira explicação que vem à mente é quase sempre simbólica.
Projeção. Imaginação. Sugestão coletiva.
Mas essa explicação é, no mínimo, incompleta.
O sistema nervoso não processa informação, ele responde a campos
A neurociência clássica pensava o sistema nervoso como processador: estímulo entra, cérebro interpreta, resposta sai.
Esse modelo é útil para algumas coisas. Para entender o que acontece numa sala de constelação, é insuficiente.
O que pesquisadores como Stephen Porges demonstraram é que o sistema nervoso não apenas processa informações isoladas; ele responde ao campo relacional como um todo, antes de qualquer processamento consciente.
Em nosso glossário você poderá entender o que chamamos continuamente de campo relacional.
Leia mais: Neurociência, Inteligência e Constelações Sistêmicashttps://institutorosadaterra.com.br/glossario-expandido-de-inteligencia-sistemica-e-biologia-do-conhecer/: Neurociência, Inteligência e Constelações SistêmicasPorges chama essa capacidade da mente humana de neuroceptção: a capacidade do sistema nervoso de detectar segurança ou ameaça no campo ao redor sem passar pela consciência.
Isso significa que o corpo de um representante está respondendo ao campo antes que a mente tenha qualquer ideia do que está acontecendo.
O peso nas pernas pode ser compreendido como uma resposta autonômica que antecede a interpretação consciente.
Dois corpos em sincronia: o que a hiperescansão funcional está mostrando
Nos últimos anos, uma tecnologia chamada hiperescansão funcional por fNIRS começou a medir o que acontece nos cérebros de duas pessoas em interação simultânea, não separadamente, mas ao mesmo tempo, em tempo real.
Os resultados são perturbadores no melhor sentido.
Czeszumski e colaboradores demonstraram em 2022 que a sincronização neural entre duas pessoas em contato não depende primariamente do conteúdo verbal trocado.
Depende da qualidade da presença, do ritmo, da atenção, da disponibilidade corporal de cada um para o campo compartilhado.
Os estudos sobre sincronização neural sugerem que fenômenos de acoplamento interpessoal possuem substrato neurobiológico observável.
A prática sistêmica interpreta essa evidência como um dos elementos que ajudam a compreender o que observamos nas constelações.
É fenômeno neurobiológico mensurável. Corpos em presença genuína co-regulam seus sistemas nervosos de formas que a ciência está apenas começando a cartografar.
Isso tem uma implicação concreta para a composição de qualquer grupo: um critério que temos no Instituto Rosa da Terra, é o de não incluirmos pessoas presentes apenas para assistir e talvez serem representantes, em geral desejosos de conhecer o trabalho.
De modo algum elas sustentam a mesma qualidade de presença de quem está ali para constelar e buscar, de forma legítima, soluções para suas questões mais profundas.
Um corpo presente com necessidade genuína co-regula o campo de forma diferente de um corpo presente apenas com curiosidade ou julgamento, mesmo que nenhuma palavra seja dita.
O corpo que decide antes da mente
Antônio Damásio passou décadas estudando pacientes com lesões em regiões cerebrais associadas ao processamento emocional e somático. O que encontrou inverteu uma premissa central da psicologia ocidental.
Esses pacientes tinham raciocínio verbal intacto.
Conseguiam analisar situações, listar prós e contras, formular argumentos. Mas não conseguiam tomar boas decisões, porque haviam perdido acesso aos sinais corporais que informam o organismo sobre o estado do campo relacional antes que a análise consciente comece.
Damásio chamou esses sinais de marcadores somáticos. E o que eles mostram é que o corpo não é um veículo que carrega a mente, é um órgão cognitivo primário.
Para o facilitador de constelações, isso tem uma implicação direta: o que você sente no corpo durante uma sessão não é ruído a ser filtrado.
É dado a ser lido sem julgamentos morais ou de qualquer outra ordem.
O que muda na postura do facilitador, e do aprendiz dessa Inteligência Sistêmica
Quando se compreende que o campo de uma constelação tem substrato neurofisiológico, que os corpos presentes estão em sincronização real, que o sistema nervoso de cada representante está respondendo a sinais que antecedem a consciência, que as sensações somáticas são informação genuína sobre o sistema, a postura de facilitação muda.
Não na técnica. Na qualidade de presença.
O facilitador que entende a neuroceptção de Porges para de perguntar “o que esse representante está simbolizando” e começa a perguntar “o que o sistema nervoso desse corpo está detectando no campo”.
São perguntas diferentes. Produzem escutas diferentes.
O facilitador que entende os marcadores somáticos de Damásio para de filtrar o que sente durante a sessão como ruído subjetivo e começa a tratá-lo como dado do campo.
O peso, o frio, a aceleração cardíaca. São sinais claros para leitura.
O facilitador que entende a hiperescansão para de avaliar sua presença pela qualidade das intervenções que faz e começa a avaliar pela qualidade de disponibilidade corporal que sustenta.
Porque é essa disponibilidade, não as palavras, que regula o campo.
A maioria dos aprendizes chega com estrutura mental muito desenvolvida e uma desconexão do próprio corpo que se manifesta em expressões como “não estou sentindo nada”, enquanto a mente está a mil por hora.
Essa desconexão não é falha de caráter. É o resultado de décadas de treinamento cognitivo que ensinou a desconfiar do corpo como fonte de conhecimento.
O trabalho da formação é, em grande parte, desfazer esse treinamento. Incluir a percepção do corpo como dado significativo.
Não substituir análise por intuição, mas reintegrar o corpo como órgão cognitivo que ele sempre foi.
A pergunta que fica para qualquer profissional que trabalha com grupos, com processos relacionais, com formação humana é simples: o que o corpo sabe que a análise ainda não alcançou?
Nas Constelações Sistêmicas, essa pergunta não é filosófica. É o ponto de partida do trabalho. É por isso que formações teóricas nunca formam um constelador eficaz.
Se você é terapeuta, educador ou profissional de desenvolvimento humano e quer compreender os fundamentos neurocientíficos da prática sistêmica, a Formação em Inteligência Sistêmica do Instituto Rosa da Terra oferece esse percurso com rigor e profundidade.
Leia mais: Neurociência, Inteligência e Constelações Sistêmicashttps://institutorosadaterra.com.br/formacao-inteligencia-sistemica-constelacao/: Neurociência, Inteligência e Constelações SistêmicasUm abraço,
Rosana Jotta
Prof.de Inteligência Sistêmica com mais de 20 anos de experiência.
Consteladora Familiar Sistêmica e Terapeuta Comunitária Integrativa pela ABRATECOM.
Fundadora do Instituto Rosa da Terra – Constelação & Ciência | Inteligência Sistêmica Prática