A Terceira Ordem do Amor: Equilíbrio. 

22 de dezembro de 2025
Por Rosana Jotta

“Equilíbrio e Troca: a dança criativa entre o dar e o receber”

Olá!

Você já observou o movimento das marés?

A água avança sobre a areia, trazendo nutrientes e pequenas surpresas do oceano. Depois, recua, levando consigo partículas de terra, conchas quebradas e vestígios do que encontrou. Avança novamente, em um ritmo tão antigo quanto o próprio planeta.

Esse movimento incessante de avançar e recuar, trazer e levar, é um fenômeno físico que também nos oferece uma bela metáfora para observar os movimentos de troca presentes em nossas relações.

Em nossas vidas, experimentamos nossos próprios fluxos e refluxos.

Há momentos em que nos sentimos plenos, com energia, tempo ou recursos disponíveis para compartilhar. Em outros, precisamos receber, repousar, pedir ajuda ou simplesmente reconhecer nossos próprios limites.

Quando permanecemos durante muito tempo oferecendo mais do que nossas condições permitem, ou recebendo dentro de relações nas quais não encontramos maneiras possíveis de participar das trocas, alguma coisa pode precisar ser revista.

Uma cliente certa vez me descreveu sua exaustão como “um poço que secou de tanto dar água sem ser reabastecido”. Outra pessoa comparou seu relacionamento a “uma conversa onde só uma pessoa fala”. Essas metáforas capturam algo importante: o equilíbrio não precisa ser um estado estático ou uma igualdade permanente. Pode ser compreendido como um movimento contínuo de ajuste nas trocas que estabelecemos.

Um novo olhar…

Na décima primeira reflexão do livro 36 Reflexões Sistêmicas para Transformar sua Vida, exploramos como o equilíbrio pode ser observado nas relações entre aquilo que oferecemos, aquilo que recebemos e aquilo que conseguimos sustentar.

“Perdoar não é esquecer.” Aliás, nessa reflexão nem utilizamos prioritariamente a ideia de perdão, tema sobre o qual ainda escreverei outro artigo. Utilizamos o “sinto muito”, porque reconhecer a dor permite incluir aquilo que aconteceu sem precisar apagar suas consequências. Os encontros da vida nos afetam de maneiras diferentes, e reconhecer essas diferenças pode participar da possibilidade de seguir adiante.

Essa compreensão nos convida a reconhecer que equilíbrio não é perfeição, mas movimento contínuo de percepção, ajuste e reorganização.

O que acontece quando expandimos essa compreensão para além de nós mesmos e de nossa própria dor?

O que podemos observar quando olhamos para nossos relacionamentos íntimos ou para o ambiente profissional através dessa lente?

A terceira Ordem do Amor observada por Bert Hellinger, o Equilíbrio ou a Troca entre Dar e Receber, pode ser compreendida como uma pergunta sobre reciprocidade nas relações. Não se trata de uma lei universal aplicável da mesma maneira a todos os sistemas, mas de um princípio relacional formulado por Hellinger a partir de suas observações sobre vínculos humanos.

Essa Inteligência Sistêmica é romantismo?

De modo algum.

O equilíbrio, nesta leitura sistêmica, não é um estado fixo de igualdade, mas um processo dinâmico no qual contribuições, necessidades, recursos, limites e responsabilidades podem ser continuamente observados.

Dar e receber não precisam acontecer da mesma maneira, na mesma quantidade ou no mesmo momento. O que importa é observar se as condições daquela relação permitem trocas que possam ser sustentadas pelas pessoas envolvidas.

Na física, a termodinâmica estuda sistemas que realizam trocas de energia e matéria com o ambiente. Esse conhecimento pertence a um domínio específico e não descreve as trocas afetivas ou sociais entre seres humanos.

Ilya Prigogine estudou estruturas dissipativas e processos de organização em sistemas físicos mantidos longe do equilíbrio termodinâmico. Seus trabalhos oferecem referências importantes para pensar transformação, irreversibilidade e emergência.

A aproximação com as relações humanas pode ser fértil como inspiração ou metáfora, desde que não transformemos conceitos termodinâmicos em explicações para fenômenos relacionais.

Na ecologia, observamos ciclos de matéria e fluxos de energia que participam da organização dos ecossistemas. Uma árvore absorve água e minerais do solo e, ao longo de sua existência, também participa de outros processos ecológicos, entre eles a produção de matéria orgânica que retorna ao ambiente.

Esses processos não demonstram a Terceira Ordem do Amor. Podem, entretanto, ampliar nossa percepção de que a manutenção da vida envolve relações contínuas entre organismos e ambiente, sem que precisemos reduzir essas relações à ideia humana de reciprocidade.

Quando Bert Hellinger identificou o Equilíbrio como uma das Ordens do Amor, estava formulando uma observação sobre as trocas nos relacionamentos humanos. Na Inteligência Sistêmica, podemos partir dessa formulação para perguntar: como as trocas se organizam dentro de determinada relação e em quais condições elas continuam viáveis para as pessoas envolvidas?

Aplicação prática na esfera individual

Em nossas vidas diárias podemos perceber diferentes ritmos entre atividade e necessidade de descanso, entre momentos de expressão e momentos em que desejamos ficar quietos em nosso canto.

Quando nos empurramos constantemente para além de nossas condições, sustentados pela ideia de que precisamos “ser fortes”, sem permitir recuperação, podemos chegar à exaustão. Da mesma maneira, longos períodos de isolamento ou ausência de participação podem produzir experiências muito diferentes para cada pessoa.

Isso não significa que sintomas físicos ou emocionais sejam mecanismos de compensação de um suposto desequilíbrio sistêmico. Sintomas podem possuir muitas causas e, quando persistentes, precisam ser compreendidos em sua complexidade. O que podemos observar aqui é algo mais simples: nossos recursos são finitos, nossas condições mudam e aquilo que conseguimos oferecer ou receber também pode mudar.

Exercício de observação

Reflita sobre seu ritmo pessoal de dar e receber.

Há áreas de sua vida nas quais você oferece continuamente tempo, atenção, trabalho, dinheiro ou cuidado sem encontrar condições suficientes de reposição? Existem outras nas quais recebe recursos, cuidado ou oportunidades e gostaria de encontrar formas possíveis de participar mais ativamente da troca?

O que poderia ser ajustado, dentro das condições reais que você possui hoje?

Aplicação prática na esfera relacional (casal)

Nos relacionamentos íntimos, o princípio do Equilíbrio pode ser observado nas trocas cotidianas de recursos materiais, atenção, cuidado, disponibilidade, vulnerabilidade, responsabilidade e apoio.

Não se trata de uma contabilidade rígida, do tipo “eu fiz isso, então você deve fazer aquilo”. Trata-se de observar como as trocas estão sendo vividas e significadas pelas pessoas envolvidas.

Vejo em meu dia a dia inúmeros casais nos quais uma pessoa assumiu durante muito tempo a posição de “forte”, enquanto a outra encontrou mais espaço para expressar vulnerabilidade ou necessidade de apoio.

Essa configuração pode ter sido adequada ou até necessária em determinado momento. O problema pode surgir quando as condições mudam e a relação continua exigindo das mesmas pessoas as mesmas respostas.

A transformação pode começar quando ambos conseguem conversar sobre aquilo que oferecem, aquilo de que precisam e aquilo que já não conseguem sustentar. Não em proporções idênticas, mas a partir das condições, possibilidades e limites concretos de cada um.

Equilíbrio, nesse sentido, não significa cinquenta por cento para cada lado. Significa que a relação precisa continuar sendo possível para aqueles que participam dela.

Perguntas reflexivas

Em seu relacionamento, como acontecem as trocas entre dar e receber? Existem funções ou responsabilidades que se tornaram fixas, embora as condições que as produziram já tenham mudado? Como seria uma conversa que reconhecesse as contribuições de cada parceiro e, ao mesmo tempo, suas necessidades, limites e possibilidades atuais?

Como trazer essa Inteligência Sistêmica para minha empresa, equipe ou sala de aula?

No ambiente de trabalho, o princípio do Equilíbrio pode ser observado nas relações entre contribuição, recursos, responsabilidade, reconhecimento e recompensa.

Organizações ou equipes nas quais colaboradores percebem que oferecem continuamente muito mais do que recebem, nas quais oferecer o mínimo se torna uma resposta recorrente, nas quais recompensas são distribuídas sem critérios claros ou nas quais pessoas não dispõem dos recursos e competências necessários às funções que ocupam podem enfrentar problemas de engajamento, retenção, confiança e qualidade.

Reconhecimento, pertencimento, remuneração, autonomia, oportunidades de desenvolvimento, condições de trabalho e qualidade das relações podem participar de maneiras diferentes da experiência de profissionais e alunos. Não precisamos colocá-los em competição nem afirmar que um deles seja sempre mais importante do que os demais.

Um ambiente emocionalmente frio ou desqualificante, no qual pessoas percebem que suas contribuições não são reconhecidas e no qual resultados precisam ser atingidos independentemente das condições disponíveis, pode produzir sofrimento, conflitos, afastamento e perda de engajamento. Esses efeitos não possuem uma causa única e precisam ser observados dentro das condições concretas de cada organização.

Prática organizacional

Observe como sua organização estrutura as relações entre contribuição e retorno.

Os colaboradores ou alunos percebem que suas contribuições são reconhecidas em diferentes dimensões? As formas de retorno incluem remuneração ou avaliação, mas também condições de crescimento, autonomia, participação, recursos e clareza sobre aquilo que se espera de cada pessoa? Como seria criar uma cultura na qual essas trocas pudessem ser observadas e atualizadas conforme as condições mudam?

O Equilíbrio nas diferentes esferas da vida

O que podemos observar quando colocamos lado a lado as experiências de Equilíbrio nas esferas individual, relacional e profissional?

Talvez possamos questionar a oposição rígida entre “altruísmo” e “interesse próprio”.

Dar e receber não precisam ser compreendidos como movimentos opostos. Em diferentes relações, podemos contribuir e receber de maneiras distintas, em tempos diferentes e segundo condições diferentes.

Quando reconhecemos que nossos recursos e os recursos dos outros possuem limites, podemos construir formas de troca que não dependam da exaustão de uma das partes.

A criatividade também pode encontrar melhores condições quando nem toda energia disponível precisa ser utilizada apenas para sustentar estruturas, funções ou responsabilidades que deixaram de fazer sentido.

Essa compreensão se relaciona naturalmente com as duas primeiras Ordens do Amor.

O Pertencimento nos permite reconhecer quem efetivamente participou de uma história. A Ordem ou Precedência nos ajuda a distinguir posições, tempos e funções sem transformá-los em diferenças de valor. O Equilíbrio acrescenta a observação das trocas que se tornam possíveis entre aqueles que participam da relação.

Essas três dimensões não determinam como uma relação deve ser vivida. Podem funcionar como perguntas para observar sua organização: quem participa, em que posição e sob quais condições acontecem as trocas?

Voltemos às marés

O que torna possível aquele movimento incessante, aquela dança entre avançar e recuar?

As marés resultam principalmente da interação gravitacional entre Terra, Lua e Sol, combinada com características do movimento terrestre e das bacias oceânicas.

Não precisamos transformar esse fenômeno em prova de uma lei relacional. A imagem nos basta.

A água avança e recua. O movimento não exige que aquilo que vai seja idêntico àquilo que volta.

Talvez seja justamente isso que a metáfora das marés nos ofereça: equilíbrio não como imobilidade nem como igualdade, mas como a possibilidade de movimentos diferentes continuarem encontrando condições para acontecer.

Nas relações humanas, essas condições também mudam. Aquilo que alguém pôde oferecer ontem talvez não consiga oferecer hoje. Aquilo que recebeu durante anos talvez possa oferecer de outra maneira amanhã.

Reconhecer essas mudanças não determina o que devemos fazer. Permite observar se as trocas que sustentamos ainda correspondem às condições nas quais estamos vivendo.

E você, como tem observado o princípio do Equilíbrio nas diferentes esferas de sua vida? O que você oferece, o que recebe e o que consegue sustentar hoje? Que novas possibilidades aparecem quando deixamos de procurar igualdade e começamos a observar as condições reais das trocas?

Referências essenciais

Constelação Familiar

Bert Hellinger
Ordens do Amor. Cultrix, 2007.
Referência para as formulações de Hellinger sobre troca, equilíbrio e reparação nas relações humanas.

Física / Termodinâmica

Ilya Prigogine
As Leis do Caos. Editora Unesp, 2002.
Referência para estudos sobre irreversibilidade, estruturas dissipativas e processos de organização em sistemas físicos longe do equilíbrio termodinâmico. Seus conceitos são colocados em diálogo com esta reflexão sem serem apresentados como fundamento científico da Terceira Ordem do Amor.

Ecologia / Vida como Sistema

Fritjof Capra
A Teia da Vida. Cultrix, 1996.
Referência para uma compreensão sistêmica das relações entre organismos, ambiente e redes da vida. Sua obra amplia a reflexão sobre interdependência sem ser utilizada como comprovação das formulações de Hellinger.

Importante

Este artigo é o terceiro de uma série que explora as Três Ordens do Amor observadas por Bert Hellinger e sua releitura a partir da Inteligência Sistêmica. Pertencimento, Ordem ou Precedência e Equilíbrio não são apresentados aqui como leis universais que determinam o comportamento das relações. São princípios estruturais que utilizamos como referências para ampliar a observação: quem participa, em que posição e sob quais condições as trocas acontecem.

Um abraço,

Rosana Jotta


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