A Inteligência Sistêmica, na forma como a desenvolvemos no Instituto Rosa da Terra, é uma epistemologia do reencontro. Não conduzimos pessoas a se tornarem outra coisa. Criamos condições para que reconheçam a organização que já sustenta a vida e que, muitas vezes, deixa de ser percebida em meio ao excesso de informações, ao medo e à fragmentação.
Olá!
Quando essa organização volta a ser vista, o discernimento substitui a confusão e o ser humano pode novamente ocupar o seu lugar de força.
O que significa ser uma epistemologia?
Epistemologia é a forma como o conhecimento se constrói, não o que se sabe, mas o movimento pelo qual o saber emerge.
A maioria das abordagens de desenvolvimento humano opera no nível do conteúdo: oferece informações, técnicas, protocolos, mapas. Esse nível tem valor real. Mas tem um limite preciso: ele não muda a forma como você vê. Muda o que você vê com a mesma forma de antes.
Gregory Bateson descreveu esse limite com uma distinção que se tornou central no Paradigma Biossistêmico. Existem três níveis de aprendizagem. No primeiro, você adquire informação nova. No segundo, muda um comportamento específico.
No terceiro, o mais raro, o mais perturbador aqui é que você não aprende algo novo sobre o mesmo assunto. Você passa a ver de um lugar diferente. E o que via antes não desaparece: se torna parte de uma leitura mais ampla.
É o Nível 3 que a Inteligência Sistêmica propõe a atravessar. Por isso ela não cabe num fim de semana. Por isso não é uma técnica a ser aplicada, é uma capacidade a ser desenvolvida. A capacidade de ver o campo, ver os padrões, ver a si mesmo como parte constitutiva do que se observa a cada passo.
É exatamente por isso que ela não pode ser reduzida a uma técnica. Técnicas podem ser aprendidas em poucos dias. Uma epistemologia transforma o lugar de onde observamos a realidade.
Dois movimentos que acontecem juntos: Condições de Contorno e Significados
Dois movimentos que precisam acontecer juntos
Existe uma distinção operacional que raramente é nomeada com clareza e que muda tudo na prática: A diferença entre alterar condições de contorno e construção de novos significados.
Condições de contorno são as condições relacionais que estão dentro do domínio de ação de quem intervém, sobre uma estrutura pré-existente, num contexto que não se controla mas se lê. As condições relacionais são o que se altera no campo, as regras de condutas que não estão escritas em lugar algum mas todos conhecem, pois definem como o sistema opera.
É isso o que o líder move quando muda sua compreensão sobre o campo que lidera. É o modo como o facilitador vê o campo quando conduz uma constelação. É o que a epigenética confirma: novos contextos modulam a expressão do que estava inscrito em nosso sistema nervoso e sua influencia nos outros a nossa volta.
Construção de novos significados é o que acontece no nível da linguagem, quando o sistema interno de cada um nomeia de forma diferente o que vive. Compreender que amor incondicional não é sentimento, mas postura epistêmica, é uma operação de ressignificação que atua sobre contextos.
São dois movimentos diferentes. E a confusão entre eles tem consequências práticas muito precisas.
A Inteligência Sistêmica opera nos dois níveis simultaneamente. Essa é uma das distinções que a separa de abordagens que trabalham apenas com ressignificação cognitiva, e de abordagens que trabalham apenas com experiência vivencial sem elaboração conceitual.
Por que a compreensão precisa chegar ao corpo
Há algo que a constelação faz que nenhuma conversa faz com a mesma precisão. A ressignificação cognitiva chega até certo ponto. Você pode compreender intelectualmente que seu pai fez o que pôde com o que tinha. Pode formular isso com precisão. Pode ensinar esse conceito para outras pessoas. E o ainda assim seu corpo continua contraindo quando o nome dele aparece na conversa.
Porque o registro somático não está onde a compreensão intelectual chega. Está onde António Damásio localizou os marcadores somáticos, nas vísceras, na tensão muscular, na frequência do sistema nervoso.
Está onde Stephen Porges demonstrou que o estado de segurança ou ameaça é avaliado continuamente, abaixo do nível da consciência, antes de qualquer palavra.
O que a constelação cria é um contexto em que a compreensão não precisa descer do conceito ao corpo. Ela já nasce no corpo. O representante que sente o peso antes de entender o que carrega. O cliente que vê a imagem disso, e algo através de seus neurônios espelhos se reorganiza antes de conseguir nomear o quê.
Isso não é intuição mística. É o sistema nervoso respondendo a perturbações que sua estrutura interna ainda não havia encontrado, e decidindo, a partir de sua própria organização, se e como vai usar essa perturbação para se reorganizar.
Primeiro o corpo reconhece. Depois a linguagem nomeia. Essa sequência é o inverso do que a maioria das abordagens opera. E é exatamente essa inversão que torna possível o tipo de mudança que o Nível 3 de Bateson descreve.
Ver sem julgar, o fundamento que torna tudo isso possível
Ao dizer que essa Inteligência Sistêmica se desenvolve estamos afirmando que somos VIDA, que essa inteligência é parte de nós e de modo algum algo novo a ser aprendido de fora pra dentro. Foi ela que nos permitiu existir, sobreviver enquanto espécie e termos em nós camadas de memórias desse processo.
Existe uma condição que precisa estar presente para que os dois movimentos anteriores aconteçam. Uma condição que na Inteligência Sistêmica chamamos de amor incondicional, e que precisa ser distinguida do que esse termo costuma evocar.
Amor incondicional na IS não é sentimento moral. Não é aprovação. Não é ausência de limites ou romantização do sofrimento. É uma postura epistêmica diante da vida.
A capacidade de ver o que é, o que foi e o que deveria ter sido sem a distorção do julgamento moral. Reconhecer que existe sem a condição de que as coisas precisem ter sido diferentes para poderem ser integradas. Elas simplesmente já fazem parte e o possível é termos clareza sobre o que faremos em relação a elas.
Humberto Maturana nomeou essa mesma realidade como amor ontológico, não uma emoção, mas o fundamento biológico da convivência. Amar, para Maturana, é aceitar o outro como legítimo outro. Não como concordância. Como reconhecimento da legitimidade da existência do outro exatamente como ele é, ou foi.
Ver sem julgar não é indiferença, e muito menos impede a necessidade de arcarmos com as consequências de nossa escolhas e atos conscientes ou inconscientes.
É o ato mais preciso de presença que um ser humano pode oferecer a outro, e a si mesmo. Deixar com o outro o que é dele. E é, como a epigenética agora confirma, o tipo de experiência capaz de modular as marcas que histórias não elaboradas deixaram no corpo.

A espiral da Inteligência Sistêmica
Há uma característica do aprendizado na Inteligência Sistêmica que quem está na Formação reconhece com o tempo. Ele não se esgota. Cada vez que parece que chegamos ao limite do que é possível ver, acessamos outra camada. O que parecia esgotado revela que era apenas o contorno do que ainda não havia sido visto.
A forma que a natureza escolheu para os processos que crescem sem perder o centro é a espiral. A concha, o DNA, a galáxia. Cada volta passa pelo mesmo ponto, mas num nível diferente.
É o que Bateson descrevia como aprendizagem de Nível 3. Você não aprende algo novo sobre o mesmo assunto. Passa a ver de um lugar diferente, e o que via antes se torna parte de uma leitura mais ampla pois ela também existe e deixou suas consequências.
O aprendizado que chega ao corpo não é aprendizado mais profundo da mesma coisa. É um tipo diferente de evento. E é esse evento que a Inteligência Sistêmica desenvolvida criar condições para que aconteça cada vez com maior naturalidade.
Talvez seja exatamente isso que chamamos de desenvolvimento humano. Não nos tornarmos alguém diferente, no sentido de outra pessoa. Mas reconhecermos, pouco a pouco, a organização que sempre sustentou a vida e que, durante algum tempo, deixamos de perceber.
A Inteligência Sistêmica nasce desse reencontro.
Um abraço,
Rosana Jotta
Rosana Jotta é facilitadora em Condições de Contorno, Inteligência Sistêmica e Educação Biossistêmica com mais de 20 anos de experiência. Arquiteta de Contornos, Pedagoga (UFU), Consteladora Sistêmica com formação pelo IMAHOM e participação em seminário com Bert Hellinger e Pólo de Cuidado em Terapia Comunitária Integrativa pela ABRATECOM. Fundadora do Instituto Rosa da Terra, facilita processos de transformação para quem busca sair de padrões repetitivos e viver com mais consciência: clareza, leveza e sucesso. Conheça seus Treinamentos, Mentorias e Atendimentos em grupo ou individuais (presenciais ou online).