O Que Não é Seu não Precisa Ser Carregado

Uma leitura sistêmica da culpa materna.

Existe uma experiência que une mães de perfis completamente diferentes, a que trabalha fora e a que ficou em casa, a solo e a que tem parceiro, a de primeira viagem e a veterana.

A culpa.

Estes dias minha filha, com uma filha, minha neta de 6 anos, me perguntou? “Você não sentia culpa por não gostar de brincar com crianças?”

Eu, só rindo: “Como assim? Vocês brincavam… Eu que não tinha tempo pra isso.” Meu álibi pois nunca gostei de brincar, nem quando eu mesma era criança.

Vejam a que ponto chegamos, não bastavam a culpa por trabalhar demais? Por sentir que precisar de espaço era errado, egoísmo, e por aí vai?

É neste ponto que eu digo, misericórdia, a culpa materna é tão presente que virou quase um rito de passagem, como se sentir culpada fosse prova de que você se importa.

Como se a mãe que não sente culpa fosse suspeita.

Mas de onde vem essa culpa? E o que ela está, de fato, pedindo?

A culpa que foi fabricada

Simone de Beauvoir escreveu, em O Segundo Sexo, que a mulher não nasce mulher, torna-se. Penso que o mesmo vale para a mãe culpada.

Como escolher entre trabalhar para o sustento e brincar? Alguém neste mundo “da perfeição” ouviu falar sobre prioridades?

Elisabeth Badinter mostrou como, historicamente, a maternidade foi transformada em vocação sagrada precisamente quando a sociedade precisou que as mulheres assumissem integralmente o cuidado das crianças, e prestem atenção, sem receberem por isso, pois cuidado não gera lucro, dinheiro. Aquilo que o mercado chama de “mais valia”

Junto com essa vocação veio o seu avesso necessário: a culpa como mecanismo de controle.

Se a boa mãe é aquela que se dedica completamente, sem reservas, sem necessidades próprias, então qualquer desvio dessa dedicação total gera culpa automática. O sistema não precisa punir externamente. A mulher se autopunirá com eficiência muito maior.

A culpa materna, nesse sentido, não é sinal de amor excessivo. É sinal de uma narrativa que foi internalizada tão profundamente que parece voz interior, quando é, na origem, voz cultural.

Porém, entretanto, as coisas mudaram e o mercado de trabalho precisou das mulheres. E talvez seja melhor deixarmos essa parte pra outra prosa como se diz em Minas Gerais.

A culpa que o corpo registra

Há outra camada que a crítica cultural sozinha não alcança.

Do ponto de vista neurológico, o cérebro materno em estado de alerta constante, aquele que aprendemos nos artigos anteriores que se transforma sob pressão, é um cérebro que monitora continuamente.

Monitora o filho, o ambiente, os sinais de perigo. E quando algo escapa ao monitoramento, o sistema dispara um alerta.

Esse alerta, biologicamente, tem a mesma assinatura da culpa. “O que fiz ou posso fazer de errado?” “Nunca sei exatamente o que é o certo a ser feito.”

Não é patologia. O problema é quando esse sistema fica calibrado permanentemente no máximo, quando não há sinal externo de perigo, mas o alerta interno não desliga.

É aí que a culpa deixa de ser informação útil e vira ruído constante. E ruído constante esgota.

Na minha geração tinha um nome pra isso “supermãe”, hoje nem precisa ter pois o registro já atravessa gerações como memória emocional.

A culpa que veio antes de você

Leia mais: O Que Não é Seu não Precisa Ser Carregadohttps://institutorosadaterra.com.br/trilha-autocuidado-cansaco-autoridade/: O Que Não é Seu não Precisa Ser Carregado

Existe ainda uma terceira camada, a mais silenciosa e frequentemente a mais pesada.

A culpa que minha filha estava sentindo hoje não começou em mim. Minha mãe também a sentiu, talvez apenas por outros motivos. E a mãe dela também.

Cada geração de mulheres que maternou dentro de um sistema que exigia perfeição e oferecia pouco suporte carregou alguma versão dessa culpa, e transmitiu, não como ensinamento explícito, mas como campo emocional, como tom de voz, como narrativas.

A mulher que cresce vendo a mãe se sacrificar e se culpar aprende, antes de ter palavras, que esse é o custo de ser mãe.

Que cuidar de si é egoísmo. Que descanso precisa ser merecido ou é pra quem pode, nunca pra quem quer.

Esse aprendizado está no corpo. E opera automaticamente, até ser visto.

A pergunta que a Inteligência Sistêmica propõe não é “como eliminar a culpa?”

Porque tentar eliminar uma experiência sem compreendê-la raramente funciona. A pergunta é: Essa culpa é só minha? De onde vem essas exigências? Elas respeitam o meu contexto de vida ou são receitas genéricas?

Quando a resposta começa a aparecer, algo muda. Não de uma vez. Mas de forma real, alinhadas com o chão da sua vida, das suas possibilidades e dos seus limites.

O que não é seu não precisa ser carregado

https://institutorosadaterra.com.br/como-fazer-gestao-nossas-memorias-ancestrais/: O Que Não é Seu não Precisa Ser Carregado

Beauvoir dizia que a liberdade não é ausência de condicionamento, é o que fazemos com ele.

Verdade fomos condicionadas a sentir culpa por existir fora do papel de uma mãe perfeita, e a perfeição é uma idealização.

Mas também é verdade que esse condicionamento pode ser visto, nomeado e, com tempo e suporte, reorganizado.

Não para que você deixe de se importar. Mas para que o cuidado que você oferece a seus filhos passe a incluir, genuinamente, você mesma.

Uma mãe que se cuida não é egoísta. É a única pessoa capaz de sustentar o que ela sustenta com o mínimo necessário de saúde física, emocional e mental.

Se servir de consolo te conto que hoje lido com o peso da avó perfeita. A coisa segue em frente.

Um abraço,

Rosana Jotta

Este é o primeiro artigo da série Mulheres — o que o corpo herda e a narrativa pode mudar. Leia também: Por que me tornei igual à minha mãe e O instinto materno existe?

Baixe gratuitamente o ebook “Por Que Repetimos Padrões na Vida?” e faça parte da nossa comunidade no Substack.

Quero baixar o ebook rosanajotta.substack.com/subscribe

Deixe um comentário