O Biossistêmico e a Inteligência Sistêmica com ancoragem em Morin (5ª ed. Sulinas) e Maturana
Olá!
A posição epistemológica fundante
Conhecer de dentro, sendo transformado pelo real enquanto o transforma.
Morin ancora, mas não chega até aqui. No capítulo 2, “O sujeito e o objeto” (p.37) e “Coerência e abertura epistemológica” (p.44), ele inclui o observador no processo do conhecimento. Como correção metodológica.
A biossistêmica, e dentro dela a Inteligência Sistêmica propõe: não há posição de fora disponível nem como ponto de partida. Maturana e Varela, em A Árvore do Conhecimento, são a âncora precisa aqui: o conhecimento não é representação do mundo, é enação, é o mundo trazido à existência pelo ser vivo em acoplamento.
Simplificação versus simplicidade do essencial
Morin no Prefácio (p.6): “Os modos simplificadores de conhecimento mutilam mais do que exprimem as realidades.” E ainda: “A complexidade integra em si tudo o que põe ordem, clareza, distinção, precisão no conhecimento.”
Ele distingue complexidade de completude, o que é preciso. Mas não chega à simplicidade do essencial.
A biossistêmica adiciona Hellinger: depois de atravessar a complexidade do campo, o que move é sempre algo muito direto. E Goldratt: localizar o ponto de alavancagem dentro do complexo sem amputá-lo.
Simplicidade não é redução. É destilação.
Superação simultânea do reducionismo e do holismo
Morin no capítulo 3, “O paradigma simplificador” (p.59): tanto o reducionismo quanto o holismo produzem unidade abstrata. Seu Unitas multiplex propõe distinguir sem disjungir e associar sem reduzir.
A biossistêmica sugere a imagem matemática dos conjuntos de interseção: cada conjunto preserva sua identidade, a interseção não cancela nenhum deles, e algo emerge ali que só existe porque ambos estão simultaneamente presentes.
Acrescenta a dimensão temporal: sequência infinita de movimentos e possibilidades.
Cada interseção é um momento vivo, não um ponto fixo.
Os três princípios do pensamento complexo e a biossistêmica
Morin no capítulo 3, “Três princípios” (p.73):
O princípio dialógico: associar termos antagônicos que são complementares. O princípio da recursão organizacional: o produto é também produtor, a causa é também efeito. O princípio hologramático: o todo está na parte que está no todo (p.75).
A biossistêmica sugere uma ampliação do segundo: o indivíduo produz o padrão e o padrão produz o indivíduo, mas apenas o indivíduo pode perceber, no sentido de tornar-se consciente dessa recursão e intervir nela.
A recursão não é só organizacional. É cognitiva, somática e responsável.
A ação em contexto complexo e a metacognição dinâmica
Morin no capítulo 4, “A ação é também um desafio” (p.79) e “A ação escapa às nossas intenções” (p.80): em contextos complexos a ação produz efeitos imprevistos. A estratégia substitui o programa.
A biossistêmica nomeia essa estrstégia: a metacognição dinâmica. Não é pensar melhor antes de agir. É desenvolver a capacidade de perceber, em tempo real e sem sair do fluxo, os padrões que estão operando na própria ação enquanto ela acontece.
Von Foerster dá o fundamento epistemológico: o observador observando a si mesmo observando. A fenomenologia de Merleau-Ponty dá o fundamento corporal: o corpo é o próprio sujeito, não seu veículo.
A inclusão da fenomenologia como fundamento
Morin no capítulo 6, “Epistemologia da complexidade” (p.95), trata da ciência e da filosofia (p.112) e dos limites do conhecimento. Inclui o observador mas não trabalha com a experiência vivida na primeira pessoa. A fenomenologia entra aqui como o único método filosófico que leva a sério o conhecimento de dentro sem sair.
Husserl: toda consciência é consciência de algo. Merleau-Ponty: o corpo habita o mundo antes de pensar sobre ele.
É também o que a física já reconhece: Heisenberg mostrou que o observador não é externo ao fenômeno.
A proposta biossistêmica opera nesse mesmo nível ontológico, não como analogia, mas como convergência de descrições do real.
A convergência de linguagens como validação
Morin no capítulo 6, “A migração dos conceitos” (p.117): conceitos migram entre campos e se fertilizam mutuamente.
A biossistêmica exemplifica com a imagem da pizza: fatias diferentes, mesmo eixo. Fox: lei metafísica. Maturana: acoplamento estrutural. Hellinger: Ordens do Amor. Morin: Unitas multiplex. Física quântica: colapso da função de onda. Fenomenologia: intencionalidade encarnada. Matemática dos conjuntos: interseções em movimento.
Nenhuma é a dona da verdade absoluta. Cada uma ilumina um ângulo que as outras não alcançam.
Os limites do formalismo e a matemática como aliada
Morin no Prefácio (p.7), citando Adorno: “A totalidade é a não verdade.” E: “Um dos axiomas da complexidade é a impossibilidade, mesmo em teoria, de uma onisciência.”
A biossistêmica acrescenta Gödel: qualquer sistema formal suficientemente complexo contém verdades que não podem ser provadas dentro do próprio sistema.
E usa uma imagem da matemática para mostrar matematicamente seus próprios limites. Os conjuntos de interseção, os elementos que “formam” cada instante estão ali, mas cada um deles é muito maior do que este momento.