O que a ciência da complexidade e a biologia do sistema nervoso mostram é que fugir não é uma falha de caráter. É uma resposta automática do seu sistema pessoal a algo que ainda não foi visto. E o problema é que o que não é visto continua operando com mais força, não menos.
Olá!
Fico sempre intrigada com a rapidez com que coloco a culpa em mim mesma, ou aceito que outros o façam. Mesmo com todo o meu caminho percorrido, ainda me pego nesse movimento super negativo pois culpa é uma frequência emocional das mais limitantes, paralisantes.
Essa sensação de medo “sem motivo” é uma das experiências mais angustiantes da nossa existência. Mas hoje, em vez de me julgar, eu observo e reconheço: esse medo que surge no vazio da culpa não é uma falha de caráter minha. É uma mensagem de sobrevivência vinda do meu corpo, ecoando de camadas muito antigas.
Para que você entenda por que isso também acontece aí, no seu íntimo, vou explicar como esse processo se desenrola na biologia complexa que todos nós compartilhamos.
A Ilusão do “Nada”: O Sistema Vivo Nunca Está em Repouso
Para a ciência da complexidade, um sistema vivo, como o ser humano e sua rede familiar, nunca é uma página em branco. Estamos inseridos em uma teia de relações e memórias que Francisco Varela e Humberto Maturana chamariam de acoplamento estrutural. Isso significa que o nosso “eu” de hoje é o resultado de infinitas interações que ocorreram muito antes de nascermos.
Quando você diz “nada está acontecendo”, você se refere ao seu cenário imediato. Mas, sistemicamente, muito está acontecendo. Nosso sistema nervoso não se forma apenas a partir de nossas experiências individuais; ele é também um receptor de uma cultura emocional herdada.
O “Eu” sistêmico, é a ponta de um iceberg. Quando falo de mim e você fala de si, estamos dando voz a milhares de ancestrais, experiências e memórias que desaguam em nós.
O Descompasso Temporal
Por outro lado, tenho o meu neocórtex, conectado ao presente. É nesta camada mais recente que reside esse meu eu lógico, intelectual, consciente de si.
Ele vive no tempo cronológico e analisa cada momento atual. Aqui, descobri que posso ir além: posso usar meu neocórtex de forma soberana, e soberania é poder.
Biologicamente, ele é a minha única ferramenta capaz de realizar a metacognição, essa capacidade preciosa de observar a mim mesma e, ao mesmo tempo, o contexto onde estou inserida.
Aqui, podemos, você e eu, usar nosso neocórtex de forma soberana, criativa e inovadora.
Quando ele é usado de forma linear, se torna apenas um “explicador” de medos, um escravo das reações límbicas que tenta criar lógica onde há memória com alta carga emocional. Mas, quando ele é usado com consciência de seu potencial criativo, ele assume o papel de curador.
Isso convoca o adulto em nós, aquele capaz de tomar e sustentar decisões diferentes da “norma do grupo” ao qual pertencemos, reconhecer esse processo e coordenar o neocórtex na criação de novos caminhos neurais, tão biológicos e eficientes quanto os anteriores.
Esse é o “ato criativo” que torna possível viver uma vida mais leve.
Plano B, é permitir que seu neocórtex vasculhe o futuro há procura de soluções, e como o futuro é desconhecido, sem encontrar ele tente antecipar todas as possibilidades de perigo.
O Resultado será de muita ansiedade. Nosso cérebro não separa imaginação de realidade e teremos usado nossa criatividade, nossa imaginação contra nós mesmos.
Aqui nem vamos entrar na descarga neuroquímica que gera em nosso corpo poderosas sensações de perigo e medo. O nervo vago, que conecta o cérebro aos órgãos internos, transmite essa mensagem de “perigo” para nossas entranhas.
Sentimos de verdade o “frio na barriga” ou o “nó na garganta”.
O Emaranhamento Primário
Fomos ensinados que, para pertencer ao “Nós”, precisamos anular o “Eu”. Ou, inversamente, que para sermos um “Eu” autêntico, precisamos abandonar o “Nós”. A visão da complexidade sistêmica da vida abraça esse paradoxo, e podemos dizer:
Eu sou o lugar onde o ‘Nós’ acontece.
Um abraço,
Rosana Jotta