Por que algumas pessoas se fazem de vítima?

Olá!

Passei o dia ouvindo a linda e verdadeira canção de Chico César, “Deus me proteja de mim”.

Quantas vezes já me posicionei como vítima?

Quantas vezes já me diminui para caber na dor de alguém? Hoje sei que nem toda dor, mesmo minha é pedido de ajuda. Algumas, são “como a maldade gente boa”, são armadilhas, moeda de controle.

Quantas vezes já compartilhei dores tão profundas que nem o silêncio alcança. Que o máximo que podemos fazer é, “estou aqui”.

A segunda abre o campo para uma troca profunda. A primeira aprisiona o outro em uma dívida invisível e difusa recheada de culpa.

Estou falando de um movimento estratégico que aprendemos, muitas vezes sem perceber, como forma de sobrevivência emocional. Um movimento que, quando repetido sem consciência, se transforma em ferramenta de poder.

O mecanismo oculto: a inversão do cuidado

Quando alguém se coloca sistematicamente como vítima, algo sutil acontece: o fluxo natural do cuidado se inverte. Quem deveria assumir sua própria história exige que o outro a carregue.

Quem deveria responsabilizar-se por suas escolhas transfere essa responsabilidade seja lá para o que for. E quem recebe essa demanda, muitas vezes sem saber, entra em um jogo onde qualquer reação vira agressão e qualquer limite vira abandono.

Como nos aponta Bert Hellinger a vítima frequentemente adota uma postura que pode se tornar a forma mais refinada de vingança, buscando aliados em vez de soluções.

Quem já viveu isso sabe: é difícil se defender de uma vítima. Qualquer movimento seu pode ser interpretado como desamor, insensibilidade ou violência.

O vitimista, sem nem sempre ter consciência disso, ocupa um lugar de poder que não se sustenta na troca, mas na impossibilidade do outro responder, na crença em uma sensibilidade especial.

Por que estamos tão suscetíveis a isso?

Na minha percepção, tendo o triangulo dramático como modelo cultural e o cristianismo do sacrifício como modelo religioso, isso deixou de ser um fenômeno individual. É coletivo. É estrutural. É um sintoma do nosso tempo.

A cultura do “não me responsabilizo”, “vão ter que me engoli”, “esse mundo é injusto” reforça isso. Se não criei, não me responsabilizo. Se não foi minha intenção, não me cabe.

O problema é que, na vida relacional, somos responsáveis pelo que causamos, independentemente da intenção. E fugir disso é manter o ciclo.

Há também uma confusão entre vulnerabilidade e vitimismo. Vulnerabilidade genuína é coragem de se mostrar sem exigir que o outro resolva. Vitimismo é uso tático da dor para garantir pertencimento ou vantagem.

Um é permeável ao encontro. O outro é uma muralha que exige lealdade incondicional.

Como vitimas olhamos para fora: “O que fizeram comigo?”
Quem se cura começa a olhar para dentro: “O que eu carrego? O que posso transformar? Onde estou repetindo algo que já não me serve

Pessoalmente o que percebo em mim é que quando o que penso, o que sinto e o que faço param de brigar entre si, a vitimização perde a função.

Não preciso me fazer de vítima para ser vista. Não preciso agredir para me proteger. Não preciso que o outro confirme minha dor para que ela seja válida.

Se você, reconhece esse padrão em si mesmo, não se culpe. Ele foi aprendido, muitas vezes na infância, muitas vezes em contextos de dor legítima. Foi uma estratégia de sobrevivência. E cumpriu sua função.

Mas agora você pode escolher outra forma de existir no mundo. Pode ocupar seu lugar sem precisar ser vítima para ser acolhido. Pode dizer “isso dói” sem que essa dor se torne uma dívida a ser cobrada. Pode se responsabilizar pela própria história sem deixar de ter compaixão por ela.

O vitimismo nos mantém pequenos. A responsabilidade nos expande.

Eu, que passei boa parte da vida me fazendo pequena para caber em lugares que me excluíam, hoje prefiro o risco de ocupar o meu lugar, mesmo que ele incomode, mesmo que ele seja grande demais para quem ainda quer me ver frágil.

Este texto não é uma tese acadêmica. É um relato de quem aprendeu, na carne, que a dor pode virar arma, e que também pode virar ponte.

Se você se reconheceu aqui, saiba: não está sozinho. E há um caminho.

Se você se reconheceu nesse movimento…
talvez não seja mais sobre entender.

Talvez seja o momento de reorganizar isso com apoio.

Estou por aqui: basta usar nosso botão de whatsapp.

Rosana Jotta
Professora de Inteligência Sistêmica
Instituto Rosa da Terra

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