Uma leitura sistêmica sobre o triângulo dramático que nos prende e o amor que liberta
Olá!
No artigo anterior, publicado em nosso Substack, vimos como relações abusivas raramente começam no abuso.
Como campos tóxicos se formam lentamente, por pequenos desconfortos, sinais ignorados, ajustes feitos em silêncio para manter o vínculo e o pertencimento.
Hoje quero aprofundar algo que ficou implícito naquele texto, e que talvez seja o ponto mais difícil de ver quando estamos dentro do campo:
A progressão do tóxico para o abusivo não acontece apesar de nós. Acontece através de uma estrutura que todos habitamos, e que a cultura inteira valida sem nomear.
Essa estrutura tem um nome.
Leia mais: Do Tóxico ao Abusivohttps://institutorosadaterra.com.br/trilha-autocuidado-cansaco-autoridade/: Do Tóxico ao AbusivoO nome é Triângulo Dramático
Em 1968, Stephen Karpman apresentou pela primeira vez seu Modelo do Triângulo Dramático para ilustrar a dinâmica entre pessoas em relacionamentos.
Um padrão que se repete em sistemas relacionais adoecidos: três posições que se organizam num campo, vítima, perseguidor e salvador.
À primeira vista parecem papéis fixos. Pessoas que sofrem, pessoas que causam sofrimento, pessoas que tentam ajudar.
Esse modelo simples ofereceu uma visão valiosa de como desempenhamos diferentes papéis e interagimos uns com os outros diariamente, sem consciência clara dos riscos dessas posições.
Com o tempo, tornou-se um dos modelos mais utilizados na psicologia, na educação e nas organizações.
O que as Constelações Sistêmicas revelam, é que essas posições não são fixas. São pontos num campo onde se circula de formas muito sutis.
É preciso mostrar que não estamos apenas “dentro” do triângulo… nós também o sustentamos.
Que reconhecer isso exige uma maturidade rara, que inclui a percepção de padrões e humildade.
A mesma pessoa que ocupa o lugar de vítima numa relação pode ocupar o de perseguidor em outra. O salvador de hoje pode ser a vítima de amanhã. O perseguidor que todos veem como vilão frequentemente foi vítima antes, e encontrou no controle a única forma de não voltar àquele lugar.
Aqui não se trata de caráter. São posições num sistema que se alimenta de si mesmo.
A circularidade perversa entre essas dinâmicas
Aqui está o que a validação cultural impede de ver: Cada uma dessas posições produz as outras. Não há vítima sem perseguidor. Não há perseguidor sem salvador. Não há salvador sem vítima.
Os três lugares se sustentam mutuamente, numa circularidade que só existe enquanto ninguém saiu do triângulo. Apenas girou dentro dele.
E a cultura não apenas tolera essa circularidade. Ela nomeia duas dessas posições quase como virtudes.
O salvador é generoso, dedicado, indispensável. A vítima é sensível, frágil, bondosa e inocente, merece proteção. O perseguidor é o problema a ser eliminado. Este último torna-se o chamado “bode expiatório”.
Ao nomear assim, a cultura congela cada um no seu papel, e impede que alguém perceba que está produzindo o que diz combater.
O salvador que não consegue sair do lugar de salvador precisa de uma vítima. Inconscientemente vai encontrar uma, ou criar as condições para que alguém continue ocupando esse lugar.
A vítima que não consegue sair do lugar de vítima vai atrair ou produzir um perseguidor. Sem o perseguidor, o papel de vítima perde sua função no campo.
O perseguidor que não consegue sair do lugar de perseguidor está, quase sempre, tentando não voltar ao lugar de vítima que um dia ocupou.
Essa é a circularidade perversa. E ela não se resolve mudando de papel. Porque mudar de papel dentro do triângulo é apenas girar, não sair.
A Progressão Para o Abuso
Um campo tóxico que não é visto, que não encontra ninguém capaz de nomear o que está operando, tende a se intensificar chegando ao abuso.
Isso acontece exatamente porque se tornaram papéis percebidos como fixos através de uma circularidade veloz, e fechada nas camadas mais sutis das interações interpessoais.
Tornaram-se necessidades na medida em que um ficou dependente do outro e dessa forma recebe seu quinhão de reconhecimento e atenção social.
A vítima se torna digna de cuidados e proteção. O justiceiro ou salvador ganha reconhecimento como herói, e o perseguidor recebe a atenção dos dois ainda que de forma negativa, torna-se o centro de tudo.
Com o tempo a vítima pode perceber que abriu mão de sua autonomia como adulto, o justiceiro de seu tempo de vida gerenciando a de outros, e o perseguidor sai do “ninguém me vê” para o centro das atenções de um modo terrível para si mesmo.
Então, o que era um controle em equilíbrio, vai se tornando abuso pois uma das partes começa, mesmo que inconscientemente, a querer se retirar ameaçando o lugar das outras duas.
Aqui os limites vão se perdendo. A intensidade das estratégias de controle se intensificando. Não porque as pessoas são apenas más.
Porque o campo dramático perdeu a capacidade de se reorganizar sozinho, e cada posição no triângulo ficou mais extrema em sua tentativa de manter os respectivos papéis funcionando.
O abuso não é o começo. É o que aparece quando o campo tóxico não encontrou outro caminho para sobreviver.
O que Incomoda Nesse Trabalho Com a Inteligência Sistêmica
A Inteligência Sistêmica vai além do triângulo, e é exatamente isso que incomoda.
Outras abordagens trabalham para tirar alguém de um papel e colocá-lo num lugar melhor.
Empoderam a vítima. Responsabilizam o perseguidor. Desapegam o salvador. Mas ainda operam dentro de uma lógica de julgamento sobre os papéis que gera exclusões recíprocas e, a manutenção do drama existencial.
O trabalho sistêmico faz tudo isso. Empodera, responsabiliza e desapega enquanto propõe algo mais difícil, e mais verdadeiro: Incluir os três lugares dentro de um conjunto com interesses perceptíveis, enquanto abre possibilidades para formas mais amplas de ver e viver a vida para que o amor dê certo.
E isso é inadmissível para a cultura do medo, porque ela está organizada para julgar. Para separar vítima de algoz. Para absolver um e condenar outro enquanto vende a salvação através do salvador.
Leia mais: Do Tóxico ao Abusivohttps://institutorosadaterra.com.br/constelacao-familiar-tem-base-cientifica/: Do Tóxico ao AbusivoA Constelação não faz isso. E quem vê isso pela primeira vez sente o chão se mover.
A Saída que não é Papel, é Transformação
Sair do triângulo não é encontrar um papel melhor dentro dele.
É ver o triângulo de fora, reconhecer a posição que se ocupa, a lealdade que a sustenta, e o campo de informações de onde ela veio.
Quando alguém consegue ver isso, não como conceito, mas como experiência viva dentro de uma Constelação, algo muda no campo.
Não porque alguém decretou uma mudança. Porque encontrou uma configuração coerente com a vida lá nas profundezas, onde o amor e a aprendizagem são o chão da estrutura sistêmica.
E o corpo sabe antes que a mente entenda.
É exatamente esse tipo de movimento que acontece nas Constelações Familiares e na Mentoria em Inteligência Sistêmica do Instituto Rosa da Terra.
Presencial em Araxá ou online.
Um abraço,
Rosana Jotta