Trabalhar Muito Garante Prosperidade?

Série Escassez e Prosperidade. Uma leitura biossistêmica sobre recursos, sobrevivência e a forma como organizamos a vida. Artigo 1

Olá!

Eu sou alguém que sempre trabalhei muito. O artesanato é uma profissão extremamente gratificante, é um trabalho braçal e de grande complexidade. Uma mesma pessoa executa todas as fases da produção, desde o planejamento à venda final.

Nós artesãos somos a prova viva de que a equação aparentemente simples de que a maioria de nós ouviu : quem trabalha mais, prospera mais, é falsa de muitas maneiras. Basta observar a vida com um pouco de atenção para perceber que ela não funciona exatamente assim.

Existem pessoas extremamente competentes, honestas e trabalhadoras que permanecem em permanente estado de escassez.

Outras trabalham menos horas, parecem viver com mais tranquilidade e conseguem sustentar recursos que se multiplicam ao longo do tempo.

Um dos problemas ligados a este fato é que quase sempre olhamos apenas para a quantidade de dinheiro, e seu uso.

Talvez a pergunta mais importante seja outra. O que é prosperidade, afinal? Como construir um estilo de vida?

Prosperidade começa pela capacidade de reconhecer recursos.

Existe um pressuposto silencioso em quase todas as conversas sobre vida financeira: o dinheiro seria o principal recurso da existência. Não é. O recurso mais precioso e escasso que possuímos é o tempo. Porque a vida acontece no tempo.

A vida é um tempo onde a saúde tem muito importância, pois dela depende muito de nossa qualidade de vida, da quantidade de recursos energéticos dos quais dispomos ou não dispomos para estruturar nossas vidas.

A saúde é parte essencial desse tempo, dela depende muito da qualidade e da quantidade de energia que temos disponível para estruturar nossas vidas. Dinheiro pode ser recuperado. Conhecimento pode ser adquirido. A saúde, em parte, pode ser restaurada.

Mas o tempo vivido jamais retorna. E é justamente por isso que uma pessoa pode acumular patrimônio financeiro enquanto empobrece em tudo o mais.

Perde saúde. Perde vínculos. Perde presença. Perde a leveza de viver. Perde a capacidade de experimentar alegria. Do ponto de vista biossistêmico, isso dificilmente pode ser chamado de prosperidade.

É apenas o acúmulo de um recurso às custas da destruição de vários outros.

A evolução nos mostra que não sobrevivem necessariamente os mais fortes, mas aqueles que conseguem se reorganizar diante das mudanças. Todo sistema vivo administra recursos limitados: tempo, energia, contextos, atenção, segurança, capacidade adaptativa.

A vida é um processo de gestão contínua de recursos.

O cérebro não foi projetado para prosperar

Foi projetado para sobrevivência. Antônio Damásio mostrou que nosso cérebro monitora continuamente o estado interno do organismo. Antes mesmo de pensarmos racionalmente, nosso corpo já está avaliando:

Existe segurança? Existe ameaça? Existe energia suficiente? Existe risco?

Stephen Porges amplia essa compreensão ao demonstrar que nosso sistema nervoso organiza toda a experiência humana em torno da percepção de segurança ou perigo, e isso significa algo profundamente importante.

Quando vivemos durante muito tempo sob sensação de ameaça, sob stress contínuo, o cérebro reorganiza prioridades. O futuro perde espaço. O momento presente domina tudo. Planejamento se torna difícil. Poupar parece impossível pois as necessidades presentes tornam-se urgentes.

Investir exige uma segurança interna que talvez nunca tenha existido. Então este problema não é falta de inteligência. É fruto da nossa organização biológica.

Escassez começa antes da preocupação com a conta bancária

É comum imaginarmos que escassez seja simplesmente falta de dinheiro. Mas ela costuma aparecer muito antes. Na relação com o tempo e a vida. Na memória de que sempre nos faltou muita coisa e, dessa forma, a escassez financeira frequentemente é apenas a expressão visível de uma organização muito mais profunda.

Nenhum ser humano aprende apenas através das ideias. Aprende vivendo, e guarda memórias do que viveu. Uma criança que cresce num ambiente onde tudo parece incerto aprende sobre essa insegurança muito antes de compreender intelectualmente sua própria história.

Aprende que recursos desaparecem. Que segurança é provisória. Essas aprendizagens deixam de ser apenas psicológicas, passam a organizar decisões, emoções, atenção e comportamento.

O foco inconsciente está em permanecer vivo e obter o máximo de bem estar a cada instante. Como se não houvesse amanhã.

Trabalhar muito pode ser uma resposta à escassez

Existe um paradoxo curioso.

Muitas pessoas que vivem em permanente sensação de escassez tornam-se extremamente trabalhadoras. Trabalham assim porque descansar produz ansiedade. Como se a sobrevivência dependesse de permanecer continuamente produzindo.

Nestes casos o trabalho deixa de ser apenas atividade econômica. Transforma-se em estratégia biológica de segurança, creio que comigo foi assim que aconteceu e levou meus filhos à crença de que como papai eu vou morrer trabalhando.

E, paradoxalmente, quanto mais energia é investida em aplacar essa ansiedade, menos recursos permanecem disponíveis para construir a prosperidade financeira. Sobra pouco espaço interno para estudar dinheiro, planejar investimentos, construir patrimônio ou simplesmente imaginar um futuro diferente.

Na verdade são muitas as variáveis, uma pessoa pode ganhar muito dinheiro e viver profundamente empobrecida. Outra pode possuir menos recursos financeiros e construir uma vida extraordinariamente próspera.

A diferença raramente está apenas na quantidade de recursos sejam eles financeiros, de saúde, de inteligência ou quaisquer outros. Está na forma como aprendemos a organizá-los em nossas vidas.

O que a Inteligência Sistêmica propõe

A Inteligência Sistêmica não pergunta apenas: “Como ganhar mais dinheiro?”

Ela pergunta algo anterior.

Como aprendi a reconhecer meus recursos a cada passo, a me apropriar deles, a organizá-los de modo que um potencialize o outro gerando multiplicação? O que preciso ajustar em tudo isso para chegar onde desejo?

Aliás! Tenho clareza sobre onde desejo chegar sem adoecer, sem abandonar outras áreas essenciais de minha existência?

Perceber isso não resolve automaticamente nossos problemas financeiros, mas amplia nossa capacidade de resolvê-los.

E compreender profundamente uma organização é o primeiro passo para criar novas condições de contorno. Aquelas que fazem a coisa acontecer. É justamente sobre isso que continuaremos nossa conversa.

Porque, se a escassez começa antes da conta bancária, uma pergunta inevitavelmente surge: Por que algumas pessoas conseguem ganhar dinheiro e, ainda assim, sempre voltam ao zero?

É sobre essa organização invisível que falaremos no próximo artigo.

Um abraço,

Rosana Jotta

Deixe um comentário