Sobre visão sistêmica, metacognição, responsabilidade e a ilusão da neutralidade em contextos complexos
Olá!
“Você já percebeu como uma pessoa muda completamente o clima de uma reunião sem dizer quase nada?”
Há uma crença muito difundida de que observar é um ato neutro.
Que criticar de fora protege de responsabilidade. Que manter distância analítica nos isenta de participar do que acontece. Que é possível estar num campo sem alterá-lo pelo simples fato de estar nele.
Essa crença é confortável. E é precisamente por isso que merece ser examinada.
Humberto Maturana foi direto ao ponto: não existe observação sem observador. E o observador não flutua acima do que observa. Ele está dentro. Ele é parte do padrão que acredita estar apenas descrevendo. Toda descrição é uma intervenção. Toda intervenção gera impacto, visível ou não, imediato ou tardio.
Isso não é uma crítica à capacidade humana de pensar. É uma descrição de como o conhecimento funciona em sistemas vivos. É participar da construção do que se torna real para aquele conjunto de pessoas, naquele momento, naquele campo.
A pergunta que esse entendimento abre não é pequena: se eu nunca estou fora do que observo, o que estou produzindo ao observar do jeito que observo?
Leia mais: Você Faz Parte do que Vê: Metacognição e Complexidadehttps://institutorosadaterra.com.br/complexidade-dia-dia/: Você Faz Parte do que Vê: Metacognição e Complexidade
O padrão que nos formou antes de nos perguntar
Antes de qualquer escolha consciente, o indivíduo já foi formado por padrões que estavam lá antes dele. A família que o recebeu, a cultura que nomeou o que era certo e errado, o ambiente de trabalho que ensinou o que era seguro mostrar e o que era melhor esconder. Esses padrões não pedem permissão. Eles operam.
É aqui que a complexidade revela sua natureza circular: o indivíduo produz o padrão e o padrão produz o indivíduo, simultaneamente, em todos os níveis. Do celular, biológico, ao cultural. Do gesto mais privado à política mais ampla.
Maturana e Varela chamaram isso de acoplamento estrutural. Não há causa única. Há uma dança contínua em que cada parte modifica e é modificada pela outra, o tempo todo, sem pausa.
Isso tem uma consequência que costuma passar despercebida: quando alguém reproduz um padrão que aprendeu, raramente o faz por má vontade. Faz porque esse padrão foi inscrito antes que houvesse consciência suficiente para questioná-lo.
O líder que desvaloriza sua equipe muitas vezes foi desvalorizado antes. O pai que não consegue nomear o que sente provavelmente cresceu num campo de informações onde sentir não tinha nome.
Padrões inscritos não precisam de intenção para se perpetuar. Precisam apenas de ausência de percepção, da falta de compreensão sobre o que carregamos conosco.
O que a metacognição tem a ver com isso
Metacognição é, em sua definição mais simples, a capacidade de observar o próprio processo de conhecer.
Mas veja, dentro de um contexto complexo, onde o sistema de relações está se transformando enquanto ele participa e observa, essa capacidade ganha uma dimensão muito mais exigente.
Não se trata apenas de pensar sobre o próprio pensamento como exercício introspectivo. Trata-se de perceber, em tempo real, de onde se está falando, quais padrões estão operando nessa fala, e o que essa fala está produzindo no campo ao redor.
É uma competência de segunda ordem, no sentido que Heinz von Foerster descreveu: o observador observando a si mesmo observando. Não para paralisar a ação, mas para ampliar a consciência de que toda ação é também uma intervenção, e toda intervenção deixa rastro.
Na prática, isso se parece com perguntas que a maioria das pessoas raramente faz:
Quando dou este feedback, estou respondendo ao que está diante de mim ou estou reproduzindo o que aprendi que feedback é?
Quando me calo numa reunião, estou escolhendo o silêncio ou estou sendo escolhido por um padrão mais antigo que o meu cargo?
Quando digo que estou apenas observando, o que estou evitando nomear sobre minha própria participação no que vejo?
Essas perguntas não têm resposta fácil. Mas fazê-las já é um ato metacognitivo. Já é o início da percepção sistêmica.
A responsabilidade que a ideia de neutralidade encobre
Quando o indivíduo acredita que observar não interfere, ele se desonera de algo fundamental: a responsabilidade pelo que sua presença produz.
E essa desonera tem um custo alto, não apenas ético, mas prático. Porque o campo não sabe que você declarou neutralidade. Ele registra sua presença, seu silêncio, seu olhar, sua ausência de gesto, e organiza respostas a partir disso. Todo tipo de posicionamento é, para o campo, um posicionamento.
Não se trata de culpa. Culpa paralisa e fecha a percepção. Trata-se de responsabilidade no sentido mais preciso do termo: a capacidade de responder pelo que se produz, inclusive pelo que se produz sem querer, inclusive pelo que se produz ao não fazer nada.
Leia mais: Você Faz Parte do que Vê: Metacognição e ComplexidadeO indivíduo, o ser humano, é o único elemento num campo de relações capaz de perceber que está num campo relacional. Essa capacidade não é um privilégio. É uma convocação.
Desenvolver essa percepção é um trabalho
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A metacognição em contextos complexos não aparece espontaneamente. Ela se desenvolve.
Porque os padrões inscritos têm uma característica específica: eles são invisíveis para quem os carrega, inconscientes. Eles operam abaixo do limiar da consciência cotidiana, na forma de reações automáticas, de interpretações que parecem óbvias, de emoções que chegam antes do pensamento.
Desenvolver a capacidade de lê-los exige do indivíduo uma imagem mais precisa de si mesmo em suas relação. Não o espelho do elogio, que confirma o que já se acredita.
Também não é um aprendizado apenas teórico. A teoria oferece o mapa, mas é no território que os padrões se revelam: na reunião que saiu do controle, na conversa que ficou pela metade, na reação que veio antes do pensamento. É nesses momentos, precisamente porque não são previsíveis, que a percepção sistêmica se desenvolve ou se perde.
É presença: a capacidade de estar disponível para o que está acontecendo antes de enquadrá-lo numa explicação por mais lógica que seja.
É esse o trabalho que fazemos na Mentoria em Inteligência Sistêmica e na Formação do Instituto Rosa da Terra: desenvolver no indivíduo a capacidade de ler os padrões que estão operando, perceber de onde está falando, e a partir dessa percepção, escolher com mais consciência o que quer produzir no campo em que está.
Não para sair do sistema. Isso não é possível. Mesmo quando vamos embora as informações que geramos permanecem lá.
Para estar nele de forma mais inteira, mais lúcida, e mais responsável e cooperativa.
Um abraço,
Rosana Jotta