Olá!
Na minha percepção pessoal, meu maior legado seria essa inclusão radical de mim mesma. Creio que ninguém pode imaginar o tamanho da minha surpresa ao perceber meu engano.
Estive desperdiçando tempo de vida e energia na busca de algo que, em nenhum momento, poderia ter sido retirado de mim. Era tudo uma construção.
Estar viva já é a prova da inclusão.
E quando o corpo já não está mais aqui, a inclusão não desaparece, ela muda de forma.
Em algum nível, torna-se memória, presença no campo da vida que continua.
Esse reconhecimento transformou radicalmente minha visão da vida e do mundo em que vivemos.
Vivemos uma época curiosa. Nunca se falou tanto em transformação, enquanto buscamos mesmo é apenas “mudar de vida” em alguns aspectos.
E, assim, nunca vimos tantos movimentos que começam… e não se sustentam. Sustentar é uma necessidade quando se fala de “comprar” mudanças.
Transformação exige algo mais, metacognição, assentimento diante do real a cada passo, visão da complexidade da vida como ela é.
A promessa da mudança através da permissão, em muitos discursos contemporâneos, começa com uma frase simples: “Agora eu me permito.” Há força nisso. Há intenção. Há, muitas vezes, um alívio imediato.
Mas existe um problema estrutural pouco observado: essa permissão costuma nascer como um ato isolado da mente, descolado da realidade do corpo, das relações, da história que carregamos.
Sistemas vivos, e somos um sistema vivo, não operam por decreto, operam por coerência.
Uma permissão que não encontra ressonância no sistema inteiro, não encontra chão. Fica flutuando como intenção, e intenção sem ancoragem não sustenta transformação.
“Permissão” ainda carrega, na sua raiz, a ideia de que alguém, ou algo de fora tem o poder de autorizar. Mesmo quando é auto permissão, ainda há um resquício de pedido, de pleito, de olhar para fora. ainda que seja para um “fora” internalizado.
Do Círculo Fechado para Espiral Aberta
O círculo é fechado, só permite repetição, mesmas perguntas, mesmas buscas, mesmo movimento de “preciso de permissão para…”
A espiral é aberta, você passa pelo mesmo ponto, mas em nível diferente. Não pede; reconhece. Não busca autorização; constata. Não pergunta “posso?”; apenas é.
O sonho que dispensou a permissão
Foi um sonho que me mostrou isso com uma clareza que nenhum conceito alcançaria:
“Estou de calcinha e sutiã, sei disso, e estou ok. As pessoas estão lá, eu falo com elas, mas eu me vejo.”
Não há pedido de permissão para ser vista. Há uma auto-percepção que basta. O olhar do outro não é mais a régua. A nudez não é mais vergonha; é verdade simples.
“É assim que é, e ok”
Esta é a frase da sabedoria encarnada. Não é resignação. É inclusão radical do que é. É o que Hellinger chamava de “consentimento”, não no sentido de permissão, mas no sentido de dizer sim ao real, sem precisar que ele seja diferente.
Este movimento da permissão para o reconhecimento da realidade é o que desbloqueia finalmente minha relação com a vida material, ela não nega a necessidade de permissão, mais vai além de uma instância interna ou externa com poder de veto.
A permissão era o esforço da criança em mim tentando ser livre. O reconhecimento é a constatação do adulto que já sou.
Estar viva já era a prova.
Sempre foi, mas agora, como adulto me aproprio dela. Mesmo que apesar de…
É assim que é.
E ok.
Um abraço,
Rosana Jotta