Um olhar sistêmico sobre certezas, expectativas e o que realmente vale num profissional de alto nível
Olá!
Certa vez um cliente me procurou com um problema sério. Antes mesmo de terminar de descrevê-lo, me disse com convicção: “Tenho certeza que você vai resolver.”
Minha resposta foi direta: “Sem certezas. Nunca lidei com isso antes. Só posso garantir que farei o meu melhor.”
O silêncio foi imediato. E depois: “Como assim? Vivem me falando pra te contratar, que você resolve tudo.”
Respondi: “Você está falando do passado, o posso garantir é fazer o melhor possível! Pra tudo sempre tem uma primeira vez, que pode ser agora.”
“É pegar ou largar.” Ele pegou. Não porque eu havia prometido o que ele queria ouvir. Porque havia dito o que era verdadeiro, e ele reconheceu nisso algo que raramente encontra num profissional.
Leia mais: Inteligência Sistêmica: Por Que Recusei Vender o que Não Podia Garantir https://institutorosadaterra.com.br/trilha-autocuidado-cansaco-autoridade/: Inteligência Sistêmica: Por Que Recusei Vender o que Não Podia GarantirA Certeza como Armadilha
O mercado de consultoria, mentoria e desenvolvimento vende certeza.
“Resultados garantidos. Transformação comprovada. Método que funciona.”
E há uma razão para isso: certeza vende. Reduz a ansiedade do comprador. Cria a sensação de que o risco foi eliminado antes mesmo de começar.
Mas a certeza é uma armadilha, que coloca em alto risco quem a vende e quem a compra.
Que diminui o peso da realidade concreta com seus limites e possibilidades.
Quem vende certeza sem conhecer de fato a realidade precisará explicar, justificar, proteger a narrativa que criou pois quem compra certeza chega com expectativas fixas.
Expectativas irreais são como o arco-íris: vemos sem alcançar. Existem de verdade, orientam a direção. Mas o ponto onde prometem chegar recua na mesma velocidade em que avançamos..
Um profissional que vende certeza está vendendo a visão do arco-íris desejado, dificilmente o alcançável no tempo idealizado.
O que o cliente no fundo sabe, e por que isso importa
Ao recusar a certeza, recusei também assumir a expectativa dele como definição do trabalho a ser realizado .
Porque o cliente raramente sabe com precisão o que precisa. Sabe o que dói. Sabe o que quer que pare. Mas a necessidade real, a que está por baixo do problema apresentado, quase nunca é o que chega na primeira conversa.
Quando o profissional vende certeza, firma um contrato sobre uma expectativa real a ser alcançada de um modo irreal, de fora pra dentro.
O que proponho é diferente: dividir a responsabilidade pelos resultados desde o início. No caminho descobriremos quais são os problemas reais, as soluções possíveis e o processo a ser implementado. Não antes.
Isso não é humildade. É o único modelo que respeita a complexidade real do que está em jogo. A construção compartilhada é o modelo que gera comprometimento tanto com a execução, quanto com os resultados desejados.
É colocar o cliente e sua equipe como parte ativa do processo de solução, não como consumidor passivo que paga e espera receber o resultado.
Mas como quem permanece dentro do processo vivo, que se ajusta ao que o campo revela, compreendendo o que faz, por que e para que.
O que estava operando por baixo daquele momento
Leia mais: Inteligência Sistêmica: Por Que Recusei Vender o que Não Podia Garantir https://institutorosadaterra.com.br/treinamentos-lideranca-nao-resolvem-ambientes-toxicos/: Inteligência Sistêmica: Por Que Recusei Vender o que Não Podia GarantirQuando disse “é pegar ou largar”, não foi coragem. Foi coerência com o que havia aprendido ao longo de décadas no mundo do trabalho.
Uma gestão por observação sistêmica que pergunta: o que esse comportamento está servindo no campo? Quem mais está envolvido nessa dinâmica, mesmo que invisível? O que estaria em desequilíbrio para que isso precise acontecer?
Uma tolerância ao risco calculado fundada na capacidade de leitura real de necessidades e possibilidades dentro de contextos complexos.
Uma integridade epistêmica que sabe exatamente o que sabe e o que não sabe, e é capaz de dizer isso sem perder autoridade. A diferença entre “não sei se consigo” e “cada sistema organizacional é único, específico, e farei o meu melhor” é a diferença entre insegurança e honestidade estrutural.
A reputação que chegou antes de mim àquele cliente não foi construída por marketing. Foi construída por anos de presença consistente, capaz de olhar para competências reais, nomear o que via, e não prometer o que não podia garantir.
O que o cliente realmente comprou
Não comprou certeza, porque eu não vendi.
Comprou presença real dentro da incerteza. A capacidade de estar num problema desconhecido sem fingir que é conhecido. De olhar para o campo como ele é, não como gostaríamos que fosse. De fazer o melhor possível com o que há, sem prometer o que a realidade só pode garantir passo a passo.
Isso é o que a Inteligência Sistêmica oferece, mapas capazes de se adequarem ao território. O que a vida exige de qualquer um que trabalha com sistemas reais, VIVOS e complexos.
Se algo aqui ressoou
Na Mentoria em Inteligência Sistêmica do Instituto Rosa da Terra, trabalhamos exatamente esse movimento: desenvolver a capacidade de operar com presença real dentro da complexidade, sem certezas falsas, sem arco-íris, encontrando o melhor que cada sistema pode oferecer agora e desenvolver a cada passo.
Um abraço,
Rosana Jotta
Prof. de Inteligência Sistêmica, Pedagoga, Consteladora Familiar e Organizacional, Terapeuta Comunitária Integrativa.