Olá!
Existe uma frase que ouço com frequência nas Constelações Familiares em conversas ou na mentoria. Às vezes dita com tristeza, às vezes com raiva, outras com uma exaustão tão antiga que já não tem nome:
“Eu não quero repetir com meus filhos o que vivi.”
Essa frase carrega dentro dela um medo inconsciente que paralisa o fluxo amoroso, e gera uma exclusão inconsciente.
O medo de que o que você recebeu determine o que você pode dar. Que a história vivida seja uma sentença, atua apesar do amor que sentimos por nossa mãe.
Aquilo que o passado nos transmitiu inevitavelmente estará em nós, passa de geração em geração, como uma herança que não se pode recusar, apenas podemos transformar.
A neurociência, outras ciências emergentes, e a sabedoria das Constelações, nos dizem como, e é isso que vou compartilhar aqui com você.
Esses novos saberes sobre o humano que somos.
O que a pesquisa descobriu
Daniel Siegel, psiquiatra e professor da Escola de Medicina da UCLA, dedicou décadas a estudar a relação entre a história emocional dos pais e o desenvolvimento dos filhos.
O que ele encontrou inverteu a pergunta que a maioria das mães faz.
Não é o que você viveu que determina o vínculo com seu filho. É o que você fez com o que viveu.
Esse achado vem da pesquisa em apego. A fonte mais robusta de apego seguro entre mãe e filho não é a qualidade da infância da mãe.
É a coerência da narrativa, da história que ela construiu sobre essa infância.
Uma mãe que viveu abandono, negligência ou trauma, e que encontrou uma forma de dar sentido a essa experiência, de integrá-la à sua história sem negá-la e sem ser consumida por ela, cria um campo de segurança para o filho.
Uma mãe que viveu uma infância aparentemente tranquila, mas nunca refletiu sobre ela, nunca nomeou o que doeu, nunca integrou o que ficou sem lugar, pode transmitir padrões dissociados sem perceber, não pelo que faz, mas pelo que é no campo, a maneira como se comporta, pensa e sente.
E essas histórias contam sobre a relação que alimentamos com nosso passado, com nossas origens.
Por que a narrativa coerente funciona neurologicamente
Siegel explica o mecanismo com precisão: uma narrativa coerente sobre a própria vida é evidência de integração neurológica.
E integração neural, é a capacidade do sistema nervoso de ligar partes diferenciadas em funcionamento harmonioso.
Essa é a condição que torna possível a sintonia mais saudável com o filho.
Quando uma mãe consegue contar sua história reconhecendo tanto o que foi difícil quanto o que a constituiu, sem idealizar e sem colapsar no ressentimento, ela está demonstrando que seu sistema nervoso integrou aquela experiência.
E é esse sistema nervoso integrado, não as palavras certas, não as técnicas de parentalidade, que cria o campo seguro onde o filho pode se desenvolver.
A sintonia não é uma habilidade aprendida. É um estado. E esse estado depende de quanto a mãe integrou a sua própria história.
O que Hellinger já sabia
Leia mais: Mãe, não é o que viveu com sua mãe, é o que você fez com isso.Histórias Não São Neutras? Elas Curam ou Adoecem: Mãe, não é o que viveu com sua mãe, é o que você fez com isso.Bert Hellinger, fundador das Constelações Familiares, nunca usou a linguagem da neurociência.
Chegou pela observação fenomenológica, pela atenção silenciosa ao que se revela no campo quando uma família se organiza diante de si mesma.
E deixou uma frase que carrega o mesmo achado de Siegel em outras palavras:
Histórias curam. E outras adoecem.
Ele não estava falando das histórias que realmente aconteceram aconteceram, e deixaram fortes registros emocionais.
Se referia às histórias que foram contadas, e como foram contadas. As que foram negadas, distorcidas, silenciadas, congeladas na vergonha, no julgamento severo ou na idealização.
Nas Constelações, o trabalho com narrativas familiares não é interpretação intelectual.
É reorganização estrutural
Quando algo que estava fora do lugar, ou distorcido, encontra seu lugar de respeito ontológico, quando um ancestral excluído é reconhecido, quando uma dor negada recebe nome, quando uma lealdade invisível se torna visível, algo se move no corpo antes de se mover na compreensão.
É o sistema nervoso reorganizando sua relação com aquela história. É o que Siegel chamaria de integração neural acontecendo em campo.
A Constelação oferece o que a reflexão intelectual sozinha muitas vezes não consegue. Você não reescreve a história pensando sobre ela.
Você a reescreve estando nela. Sentindo-a.
Isso não minimiza o que foi difícil. Reconhece exatamente o quanto custou, e devolve a autoria a quem pertence.
Isso não significa idealizar a mãe que você teve. Significa reconhecê-la como uma mulher que também recebeu uma herança, e fez com ela o que pôde, com os recursos que tinha.
Esse reconhecimento libera você do peso de carregar o peso da história de outra pessoa.
A descobrir o quanto você não está presa ao que recebeu, ou ao que seu ancestrais receberam, ou fizeram em suas vidas.
Está apenas sendo convidada a incluí-los de uma nova maneira, com respeito pelas possibilidades de cada um, deixando com eles o peso das próprias escolhas e consequências.
O que isso significa na prática
Esse movimento, que nas Constelações acontece no campo, no corpo, na presença, é similar ao que Siegel descreve neurologicamente como construção de narrativa coerente.
Acontecendo no corpo, o lugar onde essas memórias ficam armazenadas e continuando a atuar principalmente através de nossa reatividade inconsciente.
A mãe que faz esse trabalho não está se curando apenas para si.
Está interrompendo um padrãoda memória familiar que, sem esse movimento, seguiria adiante, não por maldade, não por descuido, mas pela lógica silenciosa dos sistemas que transmitem o que não foi integrado.
Esse é o presente mais fantástico que uma mãe pode dar ao filho. Não a ausência de dificuldades.
A presença inteira, de uma mulher que fez as pazes com a sua própria história.
Quando você conta a história da sua infância, a sua voz vem do ressentimento, da justificativa ou do alívio? O corpo sempre sabe a resposta.
Me conte nos comentários.
Leia mais: Mãe, não é o que viveu com sua mãe, é o que você fez com isso.https://institutorosadaterra.com.br/como-fazer-uma-constelacao-familiar/: Mãe, não é o que viveu com sua mãe, é o que você fez com isso.Um abraço,
Rosana Jotta
Prof.de Inteligência Sistêmica com mais de 20 anos de experiência.
Consteladora Familiar Sistêmica e Terapeuta Comunitária Integrativa pela ABRATECOM.
Fundadora do Instituto Rosa da Terra Constelação & Ciência | Inteligência Sistêmica Prática