Quando a Constelação Familiar Vira Moralismo Disfarçado

Olá!

Hoje a conversa é muito séria, nem tudo que se vende como sistêmico é Inteligência Sistêmica. Essas são duas contaminações distintas operando juntas em algumas práticas:

Moralismo religioso
Culpa, punição, expiação, tributo. O sofrimento como pagamento de uma dívida moral. A lealdade como obrigação sagrada. O ancestral como juiz. Isso não é Constelação, é teologia popular vestida de prática sistêmica.

Triângulo Dramático
O sistema com seus princípios estruturais, no papel de perseguidor, o cliente no papel de vítima, o terapeuta no papel de salvador que vai “resolver” o que o sistema impôs.

Isso inverte completamente a posição do indivíduo, de único elemento capaz de cognição e transformação, para objeto passivo de forças que o superam.

Ou seja, as duas distorções têm o mesmo efeito prático: retiram do indivíduo a responsabilidade que é dele por natureza. Essa é a vida dele ainda que tantas memórias sejam parte dela.

E o paradoxo é que quanto mais o terapeuta reforça essa leitura, mais o cliente se sente compreendido no curto prazo, porque a narrativa de vítima de forças maiores alivia o peso dessa responsabilidade.

O sistema não é juiz, a vida funciona através de sistemas.

A ideia de que o sistema quer algo de você, é uma interpretação nossa.

Que ele pune. Que ele cobra. Que existe uma dívida ancestral. Assim como são interpretações nossas crenças de que prosperar é trair, superar é abandonar ou que o fracasso de hoje honra o fracasso de ontem.

Isso não é Inteligência Sistêmica.

Inteligência Sistêmica aumenta a capacidade de perceber o sistema, compreender como a vida funciona em sua estrutura, e potencializar a autonomia possível sobre a própria vida.

Sistemas não são lineares

Um sistema humano não funciona como equação com culpado e punição.

O sistema passa pelo mesmo território, família, dinheiro, pertencimento, vínculo, mas nunca no mesmo ponto. Cada volta acontece num nível diferente de organização.

O padrão se repete, mas a posição de quem o atravessa é outra. E é exatamente essa diferença de posição que torna a superação possível sem negar o que veio antes.

A espiral também explica por que o trabalho sistêmico não é linear, você não vai do problema para a solução em linha reta, mas também não é apenas circular, você não precisa ficar rodando no mesmo lugar.

Você passa pelo mesmo campo com mais capacidade de ver, com a possibilidade de uma visão mais ampla.

O campo tem fronteiras que se repetem, mas o movimento dentro dele pode ser sempre ascendente ou descendente, nunca idêntico.

O que chamamos de padrão sistêmico é uma configuração que o sistema fixou como resposta a uma perturbação e que continua se repetindo porque ninguém ainda encontrou as condições para reorganizá-lo.

O ancestral que faliu não está cobrando nada. Ele está preso num padrão que também não escolheu. E sua lealdade inconsciente a esse padrão não resolve o fracasso dele, apenas soma mais um nome à lista de quem não conseguiu.

O que ainda não aconteceu no sistema é o movimento que pode reorganizá-lo, trazer a paz.

O que compreender?

Que o padrão sistêmico é mantido pela lealdade inconsciente de quem está vivo. O fracasso de quem está vivo em nada resolve o fracasso anterior. Apenas soma mais um e reforça o padrão.

A verdadeira lealdade, a que o sistema está esperando, é que alguém finalmente consiga fazer o movimento que ninguém antes conseguiu.

Superar não é trair. É completar o que ficou incompleto. É o que quebra o padrão para todos, inclusive retroativamente para os que vieram antes.

Não porque somos melhores, e eles incapazes, mas porque estamos erguidos sobre os ombros deles, e os erros do passado geraram novas aprendizagens.

O movimento sistêmico começa quando reconhecemos isso sem arrogância.

Perfeito aqui, é isso que chamamos de o amor que vê a dor do outro por um ângulo que ele não podia ver. Que desperta em nós um profundo respeito pela história de cada um do jeito que é ou foi para ele

Tecnicamente é segunda ordem de Von Foerster, a cibernética aplicada ao campo das nossas relações, o observador que consegue ver o sistema de um ponto que o sistema não consegue ver a si mesmo. O cliente, com suporte do facilitador, ocupa momentaneamente esse ponto em relação ao ancestral.

Esse é o movimento que libera sem trair. Que honra sem repetir. Que completa sem carregar.

Um abraço,

Rosana Jotta

3 comentários em “Quando a Constelação Familiar Vira Moralismo Disfarçado”

  1. Falas bem interessantes como crítica ao um sistema que impera a milênios e precisamos sim abrir a mente e nos empoderar da nossa vida e as ferramentas terapêuticas nos ajuda muito a nos encontrar dentro de nos mesmos.

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