Programas de Inclusão Fortalecem o Padrão que Tentam Resolver?

Olá!

Antes de responder a essa pergunta, uma inversão é necessária. Aqui, nesta lente biossistêmica, a inclusão não é uma conquista a ser alcançada, um avanço evolutivo de nossa consciência moral, algo a ser construído.

Ela é a condição original de convivência dos sistemas vivos.

O que chamamos de exclusão não é natural. É uma perturbação, no sentido preciso do termo: o resultado do encontro entre dois sistemas que se transformam mutuamente. Um biológico, o organismo vivo que responde sempre a partir de sua própria organização interna. O outro, uma narrativa consensual, cultural, histórica, institucional que, através das memórias e de sua coloração somática, já se tornou também biológica.

O excluído não carrega apenas uma história. Carrega uma organização fisiológica moldada por ela.

E é exatamente por isso que a exclusão não se resolve apenas no discurso. Ela está no corpo, de quem foi excluído e de quem excluiu.

Compreender isso muda tudo sobre como intervir.

O que a biologia revela sobre o que estamos falando exatamente

Humberto Maturana dedicou décadas a compreender como sistemas vivos se organizam. Uma de suas conclusões mais precisas: sistemas vivos são autopoiéticos, se produzem e se mantêm continuamente a partir de sua própria organização interna.

E o amor, para Maturana, não é virtude. É biologia. É a emoção que funda o social, que torna possível a convivência e o desenvolvimento.

Sem ela, no sentido biológico e não sentimental, não há sistema humano funcional.

O que isso revela sobre exclusão?

Que ela não é neutra. Foi inventada. É uma informação que o sistema registra e que continua operando mesmo quando ninguém fala sobre ela. O não dito age tanto quanto o dito. A sentença de exclusão, ou o risco dela, continua presente no campo, não como ausência, mas como uma força, que o indivíduo precisa gastar energia para se manter protegido.

Exclusão não resolve problemas, nos mantém em estado de alerta. Cria um segundo problema que consome os recursos que deveriam ir para o primeiro.

O que o contexto tem a ver com isso

O contexto tem seus objetivos de curto, médio e longo prazo. E a ameaça real ou fictícia de exclusão é uma ferramenta clássica de poder e dominação.

Gregory Bateson foi um dos primeiros pensadores a compreender algo que parece simples mas tem consequências profundas em nossas relações: contexto não é o pano de fundo onde as coisas acontecem. É o que determina o significado de tudo que acontece dentro dele.

Mudar o contexto muda o significado de tudo que ele contém, sem que nenhum elemento interno precise mudar.

E o inverso também é verdadeiro. Não mudar o contexto significa que nada muda de significado, independentemente de quantos elementos internos sejam modificados.

Um vocabulário novo dentro de um contexto antigo produz o mesmo padrão com nome diferente. Só precisamos lutar pela inclusão quando já efetivamos a exclusão.

Um dos problemas aqui é que ser o que luta pela inclusão é lido como heroísmo, assumir nossas exclusões é quase impossível pois a responsabilidade é coletiva, uma batata quente que pula de mão em mão, e ninguém acha confortável assumir a sua parte.

Hoje mesmo, vi um post sobre racismo em escolas publicado por uma profissional negra, o primeiro comentário dizia: “Se isso existe não faço parte desse grupo”

Eis o poder invisível que habita o campo das relações entre as partes. Eu não faço parte, então nem vejo, nem faço, nem ouço você que passa… E dessa forma interessante o excluído também se torna invisível de diferentes formas.

A diferença está entre nomear a exclusão para ver, tornar visível, e então transformar as condições de contorno, versus nomear a exclusão para performar inclusão sem mudar o contexto. O primeiro move na direção que desejamos . O segundo perpetua o que já temos com certificação.

O paradoxo que ninguém quer ver

A maioria dos programas de inclusão opera num nível específico: o do comportamento e do discurso.

Treinamentos que desconsideram os vieses inconscientes. Políticas de contratação com cotas, e aqui vamos combinar que é melhor pouco do que nada. Comitês de diversidade. Relatórios de representatividade.

E tudo isso opera na superfície de algo mais profundo que permanece intocado. As condições de contorno que produziram e continuam reproduzindo a exclusão. Os interesses e temores envolvidos.

Quando um programa nomeia repetidamente quem está excluído, com crachás, em campanhas publicitárias, algo previsível acontece do ponto de vista sistêmico.

A exclusão se fortalece enquanto categoria. A categoria fortalece a identidade. A identidade atua no campo.
O campo se perpetua. Agora com certificação corporativa, relatório anual e slide na apresentação para o conselho.

O sistema aprendeu a falar sobre inclusão. Não se permite operar a partir dela. Simples assim.

E aqui Bateson seria preciso: o contexto não mudou. Então o significado não mudou. Então o padrão não mudou.

Onde a intervenção precisa acontecer

Não se trata de treinar pessoas para serem mais inclusivas, mas para terem a coragem de perceber a exclusão, sem medo, em si mesmo e no campo que habitam aqui e agora, e só assim poder escolher fazer diferente.

A intervenção que chega na raiz não é no comportamento. É nas condições sob as quais o comportamento se organiza. Isso exige perguntas na contramão das que os programas convencionais fazem.

Não “quem está excluído e como incluímos?” Mas “quais são as condições que tornam a exclusão o resultado natural desse sistema?” E “o que precisa mudar nessas condições para que a inclusão emerja como padrão, não como esforço?”

Essa distinção parece sutil, mas suas consequências práticas são enormes.

Um sistema cujas condições de contorno foram transformadas não precisa se lembrar de ser inclusivo. A inclusão emerge naturalmente, porque é a condição original de sistemas vivos funcionando como sistemas vivos.

Estamos em relação, inseridos em redes de troca e cuidado, vemos um ao outro, e isso é o essencial, é a jornada da vida sendo compartilhada em tempo real.

Quando uma organização, ou uma equipe, se volta para essa realidade algo essencial pode emergir, e talvez o nome disso seja uma conexão genuína com a vida como ela é.

Já pensou sobre isso?

Um abraço,

Rosana Jotta

Sou arquiteta de Condições de Contorno para Sistemas Humanos e fundadora do Instituto Rosa da Terra. Trabalha com lideranças e organizações que querem intervir na raiz, não na superfície dos padrões que limitam seus sistemas.

Conheça os serviços organizacionais do Instituto Rosa da Terra

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