Biossistêmica, a Condição Ecológica do Ser Humano

Aqui lemos a vida pela lente da Inteligência Sistêmica.

Olá!

Antes de sermos culturais, somos natureza. Condição “ontológica”, não é uma escolha, uma crença ou uma abordagem, é o que somos antes de qualquer decisão sobre o ser. “Ecológica” porque nos ancora no mundo natural antes de em nossas relações.

Antes de aprendermos normas, valores e papéis sociais, somos organismos vivos que precisam de outros organismos para sobreviver.

Essa não é uma afirmação filosófica. É um dado biológico, e é o ponto de partida de tudo que a Biossistêmica propõe.

Somos uma espécie gregária. Não por escolha, não por conveniência, não por construção cultural. Por constituição.

Nosso sistema nervoso evoluiu dentro de grupos, em ambientes naturais específicos, em dependência radical de vínculos, de território, de clima, de outros corpos.

A interdependência não é um valor a cultivar. É a condição que nos antecede, mas que também não nos impossibilidade de um desenvolvimento dessa autonomia cooperativa que desejamos enquanto humanidade.

E é exatamente por isso que ela precisa ser compreendida, ao invés de ser celebrada de forma ingênua.

O que significa ser radicalmente interdependente

Stephen Porges, com a Teoria Polivagal, mapeou algo que parece simples mas tem consequências profundas: o sistema nervoso autônomo humano evoluiu especificamente para detectar segurança ou ameaça em ambientes relacionais.

E quais ambientes não são relacionais? Quantos indivíduos na história da humanidade conseguiram sobreviver se relacionando apenas com entes naturais não humanos?

Não somos organismos que depois aprenderam a viver em grupo. Somos organismos cuja fisiologia foi moldada pela vida em grupo, ao longo de milhões de anos.

Isso significa que o campo relacional não é externo ao organismo, ele é parte das condições que regulam o que esse organismo vivo consegue fazer.

Em nosso caso envolve aprender, criar, decidir, confiar, desconfiar, e tudo vai depender do estado que o nosso sistema nervoso assume dentro do campo em que está inserido.

Humberto Maturana chegou à mesma conclusão por outro caminho.

Para ele, o amor, no sentido ontológico, não moral, é a emoção que funda o social humano.

Não uma emoção entre outras, mas a condição biológica que torna possível a coexistência e o desenvolvimento mútuo. Sem ela, o que existe não é sociedade, é coerção organizada.

A interdependência radical que a Biossistêmica descreve não é, portanto, apenas ecológica no sentido ambiental, embora seja também isso.

É ecológica no sentido mais profundo: somos parte de uma teia de relações da qual não podemos nos separar sem consequências para o que somos, e para o que conseguimos ser.

A precaução necessária

Reconhecer essa interdependência sem desenvolvê-la conscientemente pode produzir o efeito oposto ao que se busca.

Quando a interdependência é vivida de forma inconsciente, sem a capacidade de observar os próprios padrões dentro do campo, ela não produz inteligência coletiva.

Produz sistemas sociais rígidos: estruturas que parecem externas e superiores ao indivíduo, das quais ele se sente refém.

É aqui que reside a precaução central da Biossistêmica. Diante de relações de poder que exigem fusão e ameaçam com exclusão.

Reconhecer que somos radicalmente interdependentes não é suficiente. É necessário desenvolver a capacidade de observar essa interdependência em operação em si mesmo, nas próprias reações, nos próprios padrões de resposta ao campo.

Sem essa capacidade, a consciência da interdependência pode se tornar mais uma forma de dissolução da autoria individual do que de ampliação dela.

Metacognição, o movimento que torna possível a inteligência coletiva

Daniel Siegel demonstrou clinicamente que a capacidade de observar os próprios processos mentais, emocionais e corporais, o que ele chama de mindsight, não é um ornamento do desenvolvimento humano.

É o mecanismo pelo qual a integração se torna possível. Sem ela, o sistema nervoso repete os padrões conhecidos porque não tem como observar o próprio funcionamento de dentro.

Essa capacidade tem um nome mais preciso no contexto da Inteligência Sistêmica: metacognição dinâmica, não a reflexão sobre a experiência depois que ela passou, mas a capacidade de observar os próprios processos enquanto acontecem, dentro do campo relacional, em tempo real.

É uma distinção que importa. Reflexão posterior é análise.

Metacognição dinâmica é presença com consciência ,a capacidade de estar no campo e ao mesmo tempo observar como o campo está operando em si.

Leia mais: Biossistêmica, a Condição Ecológica do Ser Humanohttps://institutorosadaterra.com.br/glossario-expandido-de-inteligencia-sistemica-e-biologia-do-conhecer/: Biossistêmica, a Condição Ecológica do Ser Humano

Maturana oferece a base para compreender por que essa capacidade é transformadora: o sistema fechado autopoiético só se transforma a partir de suas próprias condições internas.

Nenhuma perturbação externa determina a mudança. O que determina é a organização interna do sistema que recebe a perturbação.

Desenvolver metacognição é, nesse sentido, ampliar as condições internas que tornam possível a reorganização individual e portanto a coletiva através da reorganização das instituições que criamos.

Dos acordos coletivos que nos organizam enquanto humanidade.

De uma inteligência emocional individual para uma coletiva

A inteligência emocional, como foi popularizada, é essencialmente individual, a capacidade de reconhecer e regular as próprias emoções, e de ler as emoções dos outros.

É uma conquista real e necessária. Mas permanece no plano do indivíduo que se torna mais hábil dentro do campo.

A Inteligência Sistêmica propõe um movimento além: que metacognições desenvolvidas em campo, não isoladamente, mas na experiência concreta das relações, criam algo qualitativamente diferente.

Não a soma de indivíduos emocionalmente inteligentes, mas um campo onde a capacidade coletiva de ler padrões, nomear dinâmicas e criar respostas novas se torna disponível para o grupo como um todo.

Siegel aponta nessa direção quando descreve a integração interpessoal, a capacidade de honrar a diferenciação de cada parte enquanto se cultiva a conexão entre elas.

Porges fornece a base fisiológica: é o estado de segurança neurofisiológica, o que ele chama de engajamento social, que torna possível essa integração sem fusão, essa conexão sem perda de si.

O que a Biossistêmica adiciona é a compreensão de que esse campo não emerge espontaneamente quando indivíduos bem-intencionados se reúnem.

Ele emerge quando cada parte desenvolve a capacidade de se observar dentro do campo, e de reconhecer, com precisão e sem romantismo, que é simultaneamente autora e produto do padrão que está em operação.

Natureza antes de cultura, e depois, cultura com consciência

Somos natureza antes de sermos cultura. Mas somos também a espécie que pode observar essa condição, e a partir dessa observação, participar de forma mais consciente e mais livre dos campos que habitamos e que criamos.

Essa é a promessa da Educação Biossistêmica: não produzir indivíduos mais adaptados aos sistemas existentes, mas desenvolver a capacidade metacognitiva que permite a cada pessoa reconhecer os padrões em operação em si, entre si e nos campos que habita, e agir a partir dessa consciência.

Não para sair da interdependência. Para habitá-la com autoria.

Um abraço,

Rosana Jotta

Fundei o Instituto Rosa da Terra e trabalho com o Paradigma Biossistêmico. Conduzo a Formação em Inteligência Sistêmica, um percurso de 24 meses para profissionais que querem trabalhar com essa perspectiva de forma rigorosa e integrativa.

Deixe um comentário