O Instinto Materno E o Que a Ciência Realmente Diz

A pergunta parece simples. A resposta nunca foi.

Disseram-nos que o instinto materno era natural, tão natural quanto respirar. Que toda mulher nasce com ele. Que quando ele não aparece, é porque algo está errado nesta mulher.

Essa crença causou, e ainda causa, um dano imenso entre nós. Eu mesma já fui vítima me sentindo a pior mãe deste mundo. Culpada e com vergonha da confusão que sentia.

Não porque a maternidade não tenha sido para mim muito real e transformadora. Mas porque a versão que ouvi sobre ela, e da qual não duvidei, nunca foi inteiramente verdadeira.

O que a história nos mostra

A perspectiva oriental se distancia do conceito ocidental mais difundido, especialmente à partir do século XIX, que idealizou o “instinto materno” como algo natural, universal e biológico.

Em muitas tradições asiáticas, a maternidade foi historicamente compreendida menos como instinto individual e mais como função relacional inserida em rituais, linhagem e ordem familiar.

Isso aponta para um diálogo profundo e convergente, ainda que partindo de universos culturais diferentes, com a ideia de um amor conquistado que encontramos no livro “O Mito da Maternidade” publicado originalmente na França como ” L’Amour en plus

A autora, Elisabeth Badinter, passou anos pesquisando arquivos históricos da França do século XVIII procurando evidências do famoso instinto materno.

O que encontrou foi outra coisa: mães aristocratas que entregavam os filhos recém-nascidos a amas de leite por anos. Bebês que cresciam longe da mãe e voltavam para casa quando já conseguiam ser úteis.

Uma relação com a prole que tinha muito mais de contrato social do que de amor incondicional.

Esse instinto materno, como o conhecemos hoje, essa ideia de que toda mãe naturalmente ama, cuida e se dedica sem reservas, é uma construção histórica relativamente recente.

Uma das contribuições mais cruciais de Badinter é a distinção entre a maternidade, os aspectos biológicos de gerar, gestar e parir que são um dado da natureza e que, portanto, pode ser visto como instintivo.

E os sociais da função de maternagem: cuidar, amar, proteger, doar-se e ensinar. Um aprendizado, uma construção cultural e não um instinto.

O que essa distinção revela quando olhamos para o Brasil

Ao compreender essa diferenciação compreendi algo que sempre me intrigou nas mulheres de origem negra de nosso país.

A amorosidade real das mulheres negras brasileiras ao sustentarem a afetividade invisível de tantas famílias por gerações, como domésticas, amas de leite, babás e cuidadoras, ensinando com afeto aos filhos daqueles que ignoravam os seus.

Essa capacidade amorosa, empática, é real.
Mas confundir sua realidade com naturalidade é uma violência.
Ela foi construída historicamente sob pressão extrema, privação e sobrevivência

E o problema nunca foi ela. A construção do mito da mãe preta é apenas uma forma romantizada de apagar o lado terrível dessa história.

Estatísticas nos mostram que é essa mesma mulher, a que mais adoece após o parto, a que carrega os maiores índices de depressão puerperal, a que mais morre durante a gestação e o nascimento.

Seu corpo sabe, de formas que a mente nem sempre consegue nomear , que a seus filhos foi e ainda pode ser negada sua presença, além de negados os recursos necessários para a maternagem que ela tão bem exerce nos filhos de outros.

Isso não é passado. É continuidade estrutural.

E tem respingos em todas as mulheres, porque o serviço mais fundamental após a reprodução da vida humana, a maternagem, é também o único que nossa cultura trata como se não fosse trabalho. Como se fosse natureza. Como se simplesmente fosse.

E o que não tem nome não tem proteção, nem valor de mercado.

Trabalho com mulheres que se sentem “menores” tendo a oportunidade de cuidar dos filhos, enquanto idealizam as que vem como capazes de bancar suas babás, sem perderem o ritmo de suas vidas profissionais.

O que a neurociência mostra sobre tudo isso

Chelsea Conaboy chegou à mesma conclusão por um caminho diferente: o cérebro.

O que a pesquisa neurocientífica revela é que o cérebro de quem cuida de um bebê, quem faz a maternagem, se transforma de forma mensurável.

Novas conexões se formam. Regiões ligadas à empatia, à vigilância e à tomada de decisão rápida ficam mais ativas. O sistema de recompensa responde ao cheiro, ao choro, ao contato com a criança.

O cérebro aprende a “ser mãe” da mesma forma que aprende qualquer coisa que demanda atenção intensa e repetição constante.

A diferença no caso da mãe biológica, é que esse aprendizado acontece em velocidade comprimida, num momento de vulnerabilidade extrema, sem manual, sem treino prévio e, frequentemente, sem rede de apoio.

Não é instinto. É competência construída sob condições extraordinárias.

Não é só Badinter dizendo filosoficamente que o amor materno é construído. É a neurociência medindo que uma em cada dez mulheres tem dificuldade de criar vínculo com o bebê, e que isso é prevalente o suficiente para ser objeto de pesquisa sistemática.

O vínculo não é automático. Não é instantâneo. Não é garantido pelo fato biológico do parto.

Ele se desenvolve. Precisa de condições. Precisa de tempo. Precisa de presença, que é exatamente o que é negado de formas diferentes a corpos diferentes.

O que o corpo carrega que a ciência ainda não mede

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Badinter mostrou que o instinto é mito histórico. Conaboy mostrou que é aprendizado neural. As duas têm razão, e as duas deixam algo de fora.

Porque esse cérebro que aprende a ser mãe no sentido de cuidar, não parte do zero. Ele parte de um corpo que já carrega a história de todas as mulheres que vieram antes. Esse registro não está na memória consciente, está na forma como o corpo reage antes que a mente interprete.

É acoplamento estrutural, o que Maturana chamava de história que o sistema carrega em sua própria estrutura. Não é destino. Mas é ponto de partida.

Por que isso muda tudo

Se o instinto materno é mito histórico, a mãe que não sente amor imediato pelo recém-nascido no sentido de saber como cuidar, não está com defeito, está dentro da normalidade humana.

Se o corpo carrega registros ancestrais, a mãe que repete padrões que jurou não repetir não está fraca, está operando a partir de uma história que ainda não foi vista o suficiente para ser transformada.

A culpa que tantas mães carregam não é sinal de que são más mães. É sinal de que acreditaram numa narrativa que nunca foi inteiramente verdadeira, e que o corpo está tentando, à sua maneira, encontrar outro caminho.

O que pensa ou sente sobre esse assunto? Já havia pensado sobre memórias tão poderosas atuando em nossos corpos?

Talvez a pergunta nunca tenha sido se o instinto materno existe ou não.

Talvez a pergunta mais honesta seja outra: O que chamamos de instinto… e o que estamos vendo como trabalho invisível?

Porque quando chamamos de natureza aquilo que exige esforço, aprendizagem, renúncia e reorganização profunda, corremos o risco de romantizar exatamente aquilo que deveria ser visto, protegido e sustentado.

Maternagem não é defeito quando falha. Também não é magia quando acontece. É vida aprendendo a cuidar de vida apesar de… Cansaço, apesar da culpa, apesar da história que cada corpo carrega.

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Um abraço,

Rosana Jotta

Este um artigo da série Mulheres e a Maternidade. Quer aprofundar essa leitura? Baixe gratuitamente o ebook “Por Que Repetimos Padrões na Vida?” e faça parte da nossa comunidade no Substack.

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