Resiliência não é virtude de caráter, é capacidade de regulação preditiva que depende de reserva metabólica e de condições reais de segurança para se desenvolver.
Olá!
Hoje existe uma palavra que corremos o risco de carregarmos como se fosse medalha ou sentença: resiliência. Quem “é resiliente” ganha elogio, quase como se tivesse um caráter superior.
Quem não resiste, quem quebra diante do que a vida apresenta, costuma carregar, mesmo sem ninguém dizer isso em voz alta, uma suspeita de fraqueza.
Quero propor aqui outra forma de entender essa palavra, uma que tira o peso moral de cima dela e devolve a pergunta para onde ela sempre deveria ter estado.
O problema de tratar resiliência como virtude
Quando resiliência é lida como atributo de caráter, ela vira um teste de força de vontade. A pessoa que atravessa a dificuldade e continua de pé é celebrada como exemplo.
A pessoa que não atravessa, que adoece, que precisa parar, é lida, ainda que silenciosamente, como alguém que faltou com algo: coragem, fé, disciplina, sei lá o que mais.
Essa leitura tem um problema sério: ela ignora condições reais que tornam possível, ou impossível, atravessar uma dificuldade contando com os recursos dessa resiliência.
O que a neurociência já nos mostra sobre isso
A neurocientista Lisa Feldman Barrett descreve o cérebro como um sistema que prioriza previsão, e que usa hábitos e memórias repetidas porque isso é mais barato, energeticamente, do que reprocessar cada situação do zero.
Quando algo não bate com o previsto, o cérebro precisa gastar energia real para atualizar seu modelo interno diante do que é novo. Isso significa que atravessar dificuldade, se adaptar, aprender e seguir em frente diante de algo que rompe a expectativa, tem custo metabólico concreto.
A resiliência não é apenas força de vontade abstrata operando no vazio. É resultado de um processo biológico bem real: memórias acumuladas ou não, sono suficiente, alimentação adequada, ausência de estresse crônico consumindo o mesmo orçamento de energia que seria usado para reorganizar o modelo interno diante do novo.
Isso não é fraqueza de caráter. É a física do próprio corpo. Nosso metabolismo é o combustível e capacidade preditiva de nosso cérebro o motor, que precisa desenvolver o hábito de sustentar a dissonância sem entrar em alerta vermelho.
Resiliência como capacidade desenvolvida, não traço fixo
Resiliência é a capacidade, desenvolvida ao longo do tempo, de atravessar o desconforto de um modelo interno sendo atualizado, sem tratar cada sinal de dissonância como ameaça a ser eliminada a qualquer custo, quando isso acontece, nosso cérebro retorna automaticamente ao padrão já conhecido, mesmo que esse padrão já não sirva mais à situação presente.
Isso muda a forma de gerenciarmos nossas aprendizagens. Se é desenvolvida, ninguém nasce com ela pronta, no sentido de finalizada, e ninguém a perde de uma vez por todas ao não conseguir sustentá-la em determinado momento da vida.
É, como tantas outras coisas que já discutimos aqui, uma capacidade que pode ser mais ou menos acessada, dependendo das condições presentes.
Existe até uma lógica de desenvolvimento. Quando a experiência de atravessar algo difícil é sustentada, repetidamente, com sensações de segurança e não de perigo, o próprio custo metabólico de fazer essa travessia tende a diminuir ao longo do tempo.
O que antes exigia esforço enorme pode, com prática sustentada em condições seguras, se tornar mais acessível.
Mas isso não acontece por comando de vontade. Esse processo depende de repetição, memória e condições de contorno suficientemente seguras.
O que isso muda na forma de olhar para quem não resistiu
Se resiliência depende de orçamento metabólico real e de condições de contorno adequadas, a pergunta correta diante de alguém que não conseguiu atravessar uma dificuldade nunca é “por que essa pessoa não foi forte o suficiente”.
A pergunta correta é: quais eram as condições disponíveis para essa pessoa, naquele momento específico? Havia sono suficiente? Havia apoio real? Havia espaço de segurança para que a atualização acontecesse sem que cada sinal novo fosse vivido como ameaça?
Isso não é isentar ninguém de responsabilidade sobre a própria vida.
É reconhecer que a capacidade de atravessar dificuldade não é recurso ilimitado disponível igualmente para todos, o tempo todo, independente de circunstância.
Nesta visão biossistêmica, incluímos nossa biologia e seu funcionamento como a camada que sustenta a possibilidade de autonomia em nossas relações ao longo da vida, mas é nessa autonomia e autogestão consciente que a transformação que desejamos em nós, de fato, acontece.
E nas organizações, o mesmo vale
Leia mais: Resiliência: Apenas Virtude Moral?https://institutorosadaterra.com.br/trilha-inteligencia-sistemica-post/: Resiliência: Apenas Virtude Moral?Essa mesma lógica se aplica a sistemas maiores que o indivíduo. Uma organização que pune quem questiona, que trata toda diferença interna como ataque, não é simplesmente “menos resiliente” no sentido moral da palavra.
Ela nunca desenvolveu, estruturalmente, as condições necessárias para incluir a dissonância sem reagir a ela como ameaça.
Toda inovação começa como uma dissonância.
O problema não é falta de força coletiva, é ausência de condições de contorno que permitiriam essa capacidade se desenvolver.
O que fica
Resiliência não é medalha nem sentença.
Tratá-la como virtude moral é confortável, porque simplifica a explicação. Mas é também, com frequência, injusto, pois retira de nossas mãos as possibilidades que já temos de desenvolvê-la.
Talvez a verdadeira pergunta nunca tenha sido:
“Quem é resiliente?”
Mas:
“Quais condições tornam possível que essa resiliência se desenvolva?”
E você? Comente comigo se tem sido reconhecida como a alguém resiliente ou não. Gostaria de saber o que você pensa sobre tudo isso.
Um abraço,
Rosana Jotta
Rosana Jotta é facilitadora em Condições de Contorno, Inteligência Sistêmica e Educação Biossistêmica com mais de 20 anos de experiência. Arquiteta de Contornos, Pedagoga (UFU), Consteladora Sistêmica com formação pelo IMAHOM e participação em seminário com Bert Hellinger e Pólo de Cuidado em Terapia Comunitária Integrativa pela ABRATECOM. Fundadora do Instituto Rosa da Terra, facilita processos de transformação para quem busca sair de padrões repetitivos e viver com mais consciência: clareza, leveza e sucesso. Conheça seus Treinamentos, Mentorias e Atendimentos em grupo ou individuais (presenciais ou online).