Na Arquitetura Viva do Instituo Rosa da Terra não se muda pessoas. Ajusta-se contextos.
Olá!
Uma mudança de olhar
As Ordens do Amor são tradicionalmente apresentadas na abordagem de Bert Hellinger como princípios relacionados ao pertencimento, à hierarquia e ao equilíbrio entre dar e receber.
Dentro do paradigma biossistêmico e dessa inteligência sistêmica, propomos um olhar cuidadoso e complexo: não compreendê-las como leis morais rígidas, como regras sobrenaturais ou causas lineares do destino, mas como princípios estruturais para observação e ajuste de padrões recorrentes em nossas relações.
A teoria não é o fenômeno. É uma construção humana que procura nomear e organizar aquilo que percebemos na experiência viva. Toda construção desse tipo parte de uma forma de conhecer, de uma epistemologia, ainda que seus pressupostos nem sempre estejam explícitos.
Observadas por Bert Hellinger, não simplesmente inventadas
Dizer que Bert Hellinger observou as Ordens do Amor não significa afirmar que sua formulação esteja acima de toda crítica ou que tenha sido cientificamente comprovada em todos os contextos.
Significa reconhecer uma diferença importante:
- o pertencimento é um fenômeno ontológico, antes que lhe seja dado significados;
- a precedência é um fato no tempo cronológico em que a realidade se manifesta;
- as trocas influenciam a continuidade e a qualidade dos vínculos;
- Hellinger organizou essas observações em uma linguagem própria;
- a teoria é uma interpretação dos padrões observados.
Ele observou esse fenômeno a partir de uma epistemologia própria e os organizou em uma teoria. Isso não torna automaticamente suas conclusões universais, mas tampouco torna suas observações inexistentes porque sua epistemologia não corresponde integralmente aos critérios da ciência experimental. Ele criou uma forma conceitual de descrevê-lo dentro de sua abordagem e dos limites de seu olhar. De sua bagagem espiritual, cultural histórica e pessoal.
Reconhecer o pertencimento de alguém não significa justificar seus atos, negar danos causados ou exigir convivência. Significa reconhecer que aquela vida fez parte da história do sistema e que sua exclusão simbólica também pode produzir efeitos nas relações.
O Diálogo com Humberto Maturana
A aproximação com Humberto Maturana amplia essa compreensão. Em sua obra, o amor aparece como uma condição fundamental da convivência: o domínio relacional no qual o outro pode ser reconhecido como legítimo outro.
Essa perspectiva desloca o amor da ideia de sentimento idealizado para a qualidade concreta das relações. Amar, nesse sentido, não é concordar com tudo nem eliminar conflitos. É não negar a existência e a legitimidade do outro como participante da vida como experiência no tempo.
Na abordagem de Maturana, privilegia-se o olhar sobre a convivência. Aqui, estamos nos referindo também a algo anterior a ela, sem desconsiderar o valor da convivência que permanece: simbolicamente, por meio dos significados, e biologicamente, por meio dos fatores que participam de nossa constituição.
Esse diálogo oferece uma base importante para pensarmos as Ordens do Amor. Antes de qualquer regra, há uma condição essencial: a negação da existência de alguém não desfaz sua participação na vida enquanto vivida no tempo.
Histórias Curam ou Adoecem
As narrativas, os conceitos e os significados não são estruturas biológicas. São construções simbólicas que construímos ao nos relacionarmos com fatos, pessoas e contextos em nossas vidas.
Isso não significa que sejam irreais ou sem efeitos. Uma narrativa repetida na convivência pode orientar a atenção, despertar emoções, organizar memórias, influenciar decisões e modificar comportamentos. Ao longo do tempo, esses padrões atuam sobre nossos organismos biológicos concretos.
Podemos imaginar um ciclo:
- convivemos;
- criamos distinções e significados;
- organizamos esses significados em narrativas;
- agimos de acordo com elas;
- transformamos nossas relações e nosso ambiente
Assim, as abstrações não estão no corpo como objetos isolados. Elas atuam sobre nossas vidas de inúmeras maneiras inclusive por meio da linguagem, da emoção, da convivência e da repetição.
Transformamos a natureza e a nós mesmos
Os seres humanos não apenas se adaptam passivamente ao ambiente. Ao nomear, interpretar e organizar a experiência, transformam as condições nas quais vivem.
Uma família muda quando altera sua maneira de contar a própria história. Uma escola muda quando modifica a forma como reconhece seus estudantes. Uma organização muda quando revê as relações de poder e os critérios que orientam suas decisões.
Essas transformações não ocorrem de uma vez. Elas acontecem passo a passo, por meio de interações recorrentes de forma caótica e inconsciente ou nesta proposta de forma coerente e consciente.
Ao transformamos nossas próprias maneiras de perceber, sentir e agir, transformamos também o “mundo invisível” das nossas relações.
A proposta da Inteligência Sistêmica
Depois de mais de vinte anos de trabalho com as Constelações Sistêmicas, não defendo Bert Hellinger ou as Constelações. Eles não precisam de defesa. Passei a compreender a inteligência como uma expressão da própria vida, algo que podemos desenvolver em nós como os seres vivos que somos.
A proposta da Inteligência Sistêmica é reposicionar as Ordens do Amor como instrumentos de observação, reflexão e ajuste dessa inteligência em nossas relações, especialmente onde padrões que reproduzimos de forma reativa bloqueiam o fluxo de nossas realizações. Esses padrões podem, sim, ser ajustados por meio de uma gestão clara e objetiva das condições em que nossas relações acontecem. É o que chamamos de Arquitetura de Contornos.
A linguagem sistêmica deve ampliar o olhar, não substituir a responsabilidade. O sistema produz efeitos emergentes, mas não possui vontade própria. Nós, seres humanos, possuímos capacidade de intenção, escolha e ação. As relações influenciam os indivíduos, e os indivíduos podem reproduzir, interromper ou transformar padrões.
Ou seja,
Não se mudam pessoas. Arquitetam-se contornos que podem propiciar mudanças.
Fazemos isso de forma multidisciplinar dialogando com: Teoria dos Sistemas, Cibernética, Complexidade, Biologia, Psicologia, Sociologia, Antropologia e especialmente a Pedagogia. Investigamos convergências: interdependência, emergência e recursividade. Ajustamos objetivos, limites, recursos, vínculos, responsabilidades e consequências, considerando o fluxo temporal da vida: de onde viemos, onde estamos e para onde desejamos ir.
Um abraço,
Rosana Jotta.
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Rosana Jotta é facilitadora em Condições de Contorno, Inteligência Sistêmica e Educação Biossistêmica com mais de 20 anos de experiência. Arquiteta de Contornos, Pedagoga (UFU), Consteladora Sistêmica com formação pelo IMAHOM e participação em seminário com Bert Hellinger e Pólo de Cuidado em Terapia Comunitária Integrativa pela ABRATECOM. Fundadora do Instituto Rosa da Terra, facilita processos de transformação para quem busca sair de padrões repetitivos e viver com mais consciência: clareza, leveza e sucesso. Conheça seus Treinamentos, Mentorias e Atendimentos em grupo ou individuais (presenciais ou online).