O Conceito Biossistêmico e Possível a Cada Passo

Olá!

O real é apenas e exatamente onde seu corpo está?

De muitas formas sim. Não onde sua teoria diz que você está. Não onde sua história diz que você deveria estar. Não onde sua intenção aponta.

Simplesmente onde seu corpo está agora, neste campo, na relação com os elementos presentes nele, inclusive outros corpos com seus próprios registros, neste momento no tempo.

Essa afirmação parece simples. Suas consequências são profundas, e reorganizam o que entendemos sobre percepção, sobre intervenção, e sobre por que duas pessoas na mesma sala podem estar vivendo realidades completamente diferentes.

A origem do conceito

Condições de contorno vêm da física clássica. Uma equação descreve como um sistema muda. As condições de contorno definem os limites dentro dos quais essa mudança acontece.

Sem elas, a equação tem infinitas soluções. Com elas, o sistema encontra a solução possível naquele contexto específico.

A Inteligência Sistêmica tomou emprestado esse conceito da física porque ele descreve com precisão algo que a prática sistêmica observa continuamente: o mesmo elemento, uma pessoa, uma palavra, um gesto, produz efeitos radicalmente diferentes dependendo do contexto em que aparece, ou para quem aparece.

O modelo positivista aceita que sistemas complexos, como o clima ou a biologia, operam sob leis estruturais.

Isso faz total sentido se entendemos que a consciência “modula” os parâmetros para que a vida se autorregule com mais eficiênica.

Bateson: o contexto que determina o significado

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Gregory Bateson foi um dos primeiros pensadores a compreender que contexto não é o pano de fundo da comunicação. É o que determina o significado de tudo que acontece dentro dele.

Mudar o contexto muda o significado de tudo que ele contém, sem que nenhum elemento interno precise mudar.

A mesma frase dita num velório e numa festa tem significados diferentes. O mesmo silêncio num consultório terapêutico e numa discussão conjugal comunica coisas opostas. O mesmo gesto de aproximação num campo de constelação e numa rua desconhecida produz respostas completamente distintas no sistema nervoso de quem o recebe.

No que diz respeito por exemplo, a relacionamentos íntimos, duas pessoas que se encontram e se amam chegam à relação com condições de contorno formadas por histórias, culturas familiares e significados completamente distintos.

O que numa família significa cuidado, na outra pode significar controle. O que numa família significa respeito, na outra pode significar distância.

Essas condições operam simultaneamente, inconscientemente, antes de qualquer palavra ser dita. O diálogo inicial pode ser dificultado não por má vontade de nenhuma das partes, mas porque cada um está falando de dentro de um contexto que o outro não vê, e que ele próprio raramente consegue ver.

Isso vale para todos os contextos, pessoais ou profissionais indistintamente.

Quando essa Inteligência Sistêmica diz que o “eu” gerencia essas condições, está descrevendo o que a biologia moderna chama de auto-regulação ou homeostase.

Foerster: o observador dentro do campo

Heinz von Foerster foi mais radical ainda. Na cibernética de segunda ordem, ele demonstrou que o observador nunca está fora do que observa. Ele está sempre dentro, e suas condições de contorno determinam o que ele consegue ver.

Maturana nomeou o mecanismo pelo qual isso acontece: acoplamento estrutural.

Cada sistema vivo carrega em sua própria estrutura a história de todas as interações que o formaram. Não como memória consciente, como organização.

As condições de contorno de um observador não são escolhas que ele faz no momento. São a sedimentação de tudo que ele viveu, aprendeu e internalizou ao longo do tempo.

Por isso não basta querer ver diferente. É preciso que a estrutura mude, e estrutura muda por experiência real, não por intenção.

Aqui transformar o próprio olhar na direção dessa complexidade é essencial, e por isso dizemos que a Inteligência Sistêmica é um outro olhar.

Toda observação é feita de dentro de um contexto. Toda intervenção também.

O observador que não percebe isso acha que está lendo o real. Mas está lendo o real filtrado pelo seu contexto invisível, e esse contexto é provavelmente teórico antes de ser uma percepção do contexto.

O filtro mais invisível não é a emoção, essa pelo menos às vezes aparece. O filtro mais invisível é o modelo teórico que o observador aprendeu e internalizou.

O profissional que chegou ao campo com um sistema explicativo consolidado já sabe o que vai encontrar antes de olhar. O modelo já exclui a percepção antes que o campo tenha chance de ser ouvido.

E aqui é necessário ser preciso: isso não é um problema exclusivo do senso comum. As próprias pesquisas de laboratório operam escolhendo e fixando condições de contorno específicas, tornando visível exatamente o que suas condições permitem ver, e invisível o que ficou do lado de fora do experimento.

O laboratório não recria o mundo, recria condições controladas dentro das quais um fenômeno específico pode ser isolado e medido, e isso é metodologicamente legítimo.

A permeabilidade consciente

Von Foerster apontou o problema. A Inteligência Sistêmica desenvolveu uma resposta prática.

Se o observador está sempre dentro do campo, e se suas condições de contorno são invisíveis para ele, existem três posições possíveis diante disso.

O observador ingênuo não sabe que está dentro do campo. Acha que lê o real diretamente. Suas condições de contorno operam sem que ele perceba, e contaminam o que ele vê sem que ele saiba.

O observador que busca neutralidade tenta suprimir suas condições de contorno, não sentir, não reagir, não ser afetado. E com isso suprime exatamente o instrumento que permitiria perceber o campo, seu corpo.

O observador conscientemente permeável reconhece que está dentro do campo, e trabalhou o suficiente suas próprias condições de contorno para identificá-las quando aparecem. Ele sente o que o campo produz nele e sabe distinguir o que é do campo do que é seu. Não como certeza absoluta. Como prática contínua de discernimento.

E o instrumento dessa distinção é sempre o corpo. Porque o corpo não pode estar em dois lugares ao mesmo tempo. Não pode habitar uma teoria. Ele está sempre e apenas aqui, no contexto real, que é exatamente onde ele está.

Voltar ao corpo é voltar ao contexto real. É a âncora que impede o observador de se perder no próprio mapa.

Hellinger: atuar sem intenção como consequência epistemológica

É aqui que a instrução de Bert Hellinger ao constelador, atuar sem intenção, deixa de ser orientação espiritual e se torna consequência epistemológica direta.

Se toda observação tem condições de contorno, e se essas condições incluem as intenções do facilitador — o que ele quer que aconteça, o resultado que considera correto, o movimento que acha que o campo precisa fazer, então a intenção não é neutra.

Ela é uma condição de contorno que o facilitador impõe ao campo antes de deixá-lo falar.

Não se trata de virtude. É consequência de um trabalho real sobre si mesmo, exatamente o que uma formação sistêmica precisa desenvolver.

As Ordens do Amor como condições de contorno estruturais

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As Ordens do Amor que Hellinger identificou pertencimento, precedência e reciprocidade, não como regras sobre como as relações deveriam funcionar.

São condições de contorno universais do campo relacional humano, padrões emergentes de sistemas vivos, como a necessidade de pertencimento sendo uma estratégia evolutiva de sobrevivência.

O que chamamos de Inteligência Sistêmica é é lida como a capacidade de processar informações complexas do ambiente e da própria linhagem para otimizar a vida, o que faz total sentido dentro do que chamamos de Pós Positivismo ou Ciência da Complexidade.

Quando presentes, definem o espaço dentro do qual a emergência criativa se torna possível, onde a energia do sistema flui para criação, aprendizagem e expansão, em vez de ser consumida na manutenção da desordem, no conflito e nas competições.

Não determinam o que vai acontecer. Determinam o espaço dentro do qual algo pode acontecer.

Como toda condição de contorno, elas não são o fenômeno. São o que torna o fenômeno possível.

Sou Rosana Jotta, fundadora do Instituto Rosa da Terra, professora de Inteligência Sistêmica e facilitadora de Constelações Sistêmicas há mais de duas décadas. A Formação em Inteligência Sistêmica, percurso de 24 meses, desenvolve a capacidade de observação conscientemente permeável que o trabalho sistêmico exige. Entre em contato conosco e mergulhe neste processo transformador.

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