Desenvolvimento humano e aprendizagens transformadoras

Por Rosana Jotta | Instituto Rosa da Terra

Compreender o desenvolvimento humano exige, antes de tudo, revisar o modo como olhamos para a aprendizagem. Diferentes tradições do pensamento ocidental favoreceram uma compreensão do conhecimento marcada pela separação entre sujeito e objeto, mente e corpo, observador e mundo observado. No campo educacional, essa herança frequentemente se expressou em modelos nos quais aprender significa, sobretudo, adquirir e acumular informações.

No entanto, quando observamos a dinâmica viva das relações, dos vínculos e das trajetórias pessoais, percebemos que aprender não é apenas acumular. É também transformar-se. A aprendizagem transformadora não ocorre somente no nível cognitivo e racional. Ela alcança a estrutura a partir da qual percebemos, significamos e habitamos nossa existência.

Inteligência Sistêmica: uma pedagogia para a transformação

A Inteligência Sistêmica busca referências multidisciplinares em diferentes campos do conhecimento e da experiência humana. Coloca em diálogo as Ordens do Amor, a biologia do conhecer e da autopoiese, o pensamento complexo, contribuições da Teoria Polivagal e a Comunicação Não Violenta, respeitando as diferenças entre suas origens, métodos, epistemologias e critérios de validação.

Não se trata de afirmar que um desses campos comprova o outro. Cada referência oferece possibilidades específicas de observação e compreensão. É no diálogo entre elas, e também nos limites que as distinguem, que construímos nossa proposta.

A Inteligência Sistêmica não pertence ao campo da saúde clínica ou médica. Não diagnostica nem trata patologias. Situa-se no campo da pedagogia livre e do desenvolvimento pessoal e relacional.

Desenvolver Inteligência Sistêmica significa ampliar nossa capacidade de observar o mundo e as relações reconhecendo, como propunha Humberto Maturana ao falar de uma “objetividade entre parênteses”, que o observador participa daquilo que distingue e conhece. Nossas percepções não são fotografias neutras de uma realidade independente de nós. São construídas na relação entre nossa estrutura, nossa história, nossa linguagem e o mundo que vivemos.

Aprender, nessa perspectiva, pode tornar-se um movimento de liberdade. Quando compreendemos melhor a lógica que participou da construção de nossas respostas até o momento presente, outras possibilidades podem tornar-se disponíveis. Não precisamos negar a sabedoria que nos trouxe até aqui para reconhecer que algumas respostas já podem ser atualizadas.

A vida como processo cognitivo: a contribuição da autopoiese

Entre as referências que sustentam esse olhar estão as contribuições dos biólogos chilenos Humberto Maturana e Francisco Varela. Ao formularem o conceito de autopoiese, propuseram compreender os seres vivos como sistemas que produzem e mantêm continuamente sua própria organização.

Nessa perspectiva, viver e conhecer tornam-se processos inseparáveis. O ser vivo não recebe passivamente instruções de um meio externo que determina suas mudanças. Ele responde às perturbações a partir de sua própria estrutura e de sua história de acoplamentos.

O ambiente participa das condições em que as mudanças acontecem, mas não determina, de maneira linear, aquilo que um organismo se tornará.

Posteriormente, especialmente no trabalho de Francisco Varela em diálogo com outros pesquisadores, a compreensão da cognição incorporada e da enação ampliou esse horizonte. Conhecer deixa de ser pensado apenas como representação mental de um mundo previamente dado e passa a envolver corpo, ação, experiência e relação com o ambiente.

Na leitura pedagógica que propomos, essa compreensão tem consequências importantes para o desenvolvimento humano.

A aprendizagem transformadora acontece quando as perturbações da vida encontram condições para produzir novas respostas sem que seja necessário negar a história que tornou possíveis as respostas anteriores.

Isso altera profundamente o lugar de quem trabalha com educação, desenvolvimento humano ou facilitação sistêmica. Afasta a pretensão de que um profissional possa “consertar” ou determinar a vida de outra pessoa.

Na Inteligência Sistêmica, podemos pensar o trabalho educacional e relacional como uma perturbação respeitosa. Não produzimos diretamente a transformação do outro. Participamos da construção de condições nas quais outras respostas podem tornar-se possíveis.

Essa compreensão está na base do que chamamos de Arquitetura de Contornos. Em vez de tentar modificar pessoas, observamos e ajustamos, sempre que possível, as condições em que as relações e escolhas acontecem. Objetivos, limites, recursos, vínculos, responsabilidades e consequências constituem alguns desses contornos.

Não determinamos a mudança. Podemos arquitetar condições nas quais outras possibilidades se tornem viáveis.

O olhar complexo e a superação do reducionismo

O pensamento complexo de Edgar Morin oferece outra referência importante para observar o desenvolvimento humano sem reduzi-lo a partes isoladas ou explicações únicas.

O pensamento simplificador tende a separar aquilo que, na experiência viva, encontra-se relacionado. Diante de uma dificuldade, procura frequentemente uma causa única, uma explicação definitiva ou um elemento que possa ser isolado como responsável pelo problema.

A complexidade propõe outro exercício de pensamento.

Entre as contribuições de Morin estão o princípio dialógico, que permite considerar conjuntamente dimensões aparentemente contraditórias; o princípio recursivo, no qual produtos e efeitos participam dos processos que os produzem; e o princípio hologramático, segundo o qual não podemos compreender adequadamente a parte ignorando o todo do qual participa, nem compreender o todo apagando a singularidade das partes.

Essa perspectiva é especialmente fecunda para a Inteligência Sistêmica porque permite observar autonomia e dependência, estabilidade e mudança, indivíduo e relações, história e presente sem a necessidade de transformar essas dimensões em oposições excludentes.

Eixos fundamentais da aprendizagem sistêmica

Autonomia epistemológica: reconhecer que cada pessoa conhece e significa sua experiência a partir de uma estrutura, de uma história e de uma coerência próprias. Isso não significa que toda interpretação seja igualmente válida, mas que nenhum processo de aprendizagem acontece fora daquele que aprende.

Recursividade relacional: compreender que as dinâmicas humanas não se organizam apenas por cadeias lineares de causa e efeito. Nossas ações produzem respostas que retornam às relações e passam a participar das condições que geram as ações seguintes.

Acomodação dos paradoxos: sustentar a possibilidade de que dimensões aparentemente contraditórias coexistam sem a urgência de eliminar uma delas para validar a outra. Uma resposta pode ter sido protetiva e, no presente, tornar-se limitante. Um vínculo pode ser importante e exigir limites. Algo pode pertencer à nossa história sem precisar continuar organizando nosso futuro.

Aplicada ao desenvolvimento humano, a complexidade permite observar aquilo que chamamos de bloqueio ou dificuldade sem pressupor imediatamente uma falha que precise ser eliminada.

Uma resposta que hoje limita nossas possibilidades pode ter adquirido uma função adaptativa em outro momento da vida. Pode ter contribuído para preservar segurança, vínculo, pertencimento ou alguma forma possível de coerência diante das condições então existentes.

Isso não significa romantizar o sofrimento nem transformar toda dificuldade em uma solução oculta. Significa fazer uma pergunta anterior ao julgamento:

Em quais condições essa resposta se tornou possível ou necessária?

E, depois dela, outra:

Essas condições ainda existem da mesma maneira?

É nesse intervalo que a aprendizagem pode tornar-se transformadora. Não precisamos declarar errada a pessoa que fomos para permitir que outras respostas sejam construídas. Podemos reconhecer a inteligência presente em nossa história, distinguir aquilo que continua necessário daquilo que perdeu sua função e reorganizar os contornos a partir dos quais participamos da vida hoje.

Diga-me, ao fazer uma pequena retrospectiva quantos pequenos ou grandes momentos de compreensão profunda já transformaram sua vida?

Um abraço,

Rosana Jotta

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