22 de dezembro de 2025
Por Rosana Jotta
Você já sentiu que não pertencia?
“A raiz que sustenta todas as relações”
Olá!
Talvez tenha sido numa reunião de família, onde as conversas fluíam ao seu redor, mas algo em você permanecia desconectado.
Ou naquele novo ambiente de trabalho em que, apesar dos sorrisos de boas-vindas, uma voz interior sussurrava:
“Você não faz parte disso.” Ou: “Você não é um de nós.”
Essa experiência, tão comum e, ao mesmo tempo, tão íntima, nos toca em um lugar profundo: nossa necessidade de estabelecer vínculos, participar e ser reconhecidos nas relações das quais fazemos parte.
Uma cliente certa vez me descreveu essa sensação como “estar numa festa onde todos receberam um manual secreto de como se comportar, menos eu”.
Outra pessoa comparou a experiência a se sentir como uma peça de quebra-cabeça com os encaixes errados.
Essas metáforas dizem muito sobre a experiência humana. Nascemos biologicamente dependentes de outros seres humanos e construímos nossa vida em relações, grupos, famílias, comunidades e culturas.
Você gostaria de pertencer a outra família? Na quinta reflexão do livro 36 Reflexões Sistêmicas para Transformar sua Vida, proponho:
“Honre sua origem, mesmo que ela ainda doa. Nem mortos deixamos de fazer parte da história de nossa família.”
Essa distinção é importante. Pertencer é diferente de conviver, concordar, permanecer próximo ou manter uma relação. Alguém pode deixar de participar do cotidiano de uma família e continuar pertencendo à sua história.
O que acontece quando expandimos essa compreensão? Quando passamos a olhar nossos relacionamentos íntimos ou o ambiente profissional por essa lente, encontramos uma questão que atravessa diferentes experiências humanas: quem participou da constituição desta história?
A Primeira Ordem do Amor observada por Bert Hellinger, o Pertencimento, pode ser compreendida a partir de uma constatação simples: aquilo que existiu e participou de uma história não deixa de ter existido porque posteriormente foi rejeitado, esquecido ou excluído de sua narrativa.
Amplie seu olhar e tudo se transforma
Na Inteligência Sistêmica, compreendemos o pertencimento antes de tudo como uma condição de participação. Existir e participar antecedem o reconhecimento que posteriormente fazemos dessa participação.
Isso é diferente de afirmar que todas as pessoas precisam conviver, permanecer juntas ou aceitar qualquer comportamento.
Pertencer aqui é diferente de conviver no dia a dia.
Um pai ausente continua participando da história que tornou possível a existência de um filho. Um ex-companheiro pode não participar mais da vida cotidiana e continuar pertencendo à história daquele relacionamento. Uma pessoa que trabalhou durante anos numa organização pode sair dela sem que sua participação anterior deixe de ter acontecido.
Essa compreensão não precisa ser transformada em uma lei biológica para ser observada nas relações humanas.
Diferentes campos do conhecimento podem ampliar as perguntas que fazemos sobre vínculo, participação e organização. A biologia dos sistemas vivos, o pensamento complexo e os estudos das relações humanas, entretanto, possuem objetos, métodos e critérios de validação diferentes. Colocá-los em diálogo não significa afirmar que estejam descrevendo o mesmo fenômeno.
Humberto Maturana e Francisco Varela formularam a autopoiese para descrever a organização dos seres vivos. Esse conceito não demonstra a Primeira Ordem do Amor de Bert Hellinger. Pode, entretanto, contribuir para uma reflexão mais ampla sobre seres vivos, organização, relação e as condições nas quais a vida se mantém.
Edgar Morin, por sua vez, oferece instrumentos para pensar relações entre partes, todo, contexto e complexidade. Sua obra também não fundamenta o Pertencimento hellingeriano, mas pode ampliar nossa capacidade de observar fenômenos relacionais sem reduzi-los a uma única causa ou perspectiva.
Quando Bert Hellinger nomeou o Pertencimento como a Primeira Ordem do Amor, organizou observações realizadas em seu trabalho com famílias. Na leitura que desenvolvemos na Inteligência Sistêmica, podemos ampliar uma dessas perguntas: o que acontece quando alguém ou algum acontecimento que participou efetivamente de uma história deixa de ser reconhecido como parte dela?
Aplicação prática na esfera individual
Quando pessoas ou acontecimentos de nossa história familiar deixam de ser mencionados, como o tio que causou vergonha ou a avó cujo nome virou tabu por ter feito uma escolha considerada inaceitável, não apagamos aquilo que aconteceu. Podemos, porém, produzir lacunas nas narrativas através das quais as gerações seguintes conhecem sua própria história.
Essas lacunas podem despertar curiosidade, estranhamento, medo, perguntas ou diferentes interpretações. Silêncios familiares também participam da maneira como uma família conta sua história.
Isso não significa que sintomas físicos, dificuldades emocionais, bloqueios financeiros ou comportamentos de uma geração possam ser atribuídos automaticamente à exclusão de alguém em uma geração anterior.
Quando percebemos uma repetição ou uma reação cuja intensidade não compreendemos, podemos investigar diferentes condições que participaram de sua formação: experiências individuais, relações familiares, aprendizagens, contexto social, condições materiais, acontecimentos históricos e significados construídos ao longo do tempo.
A história familiar pode ser uma dessas dimensões.
Reconhecer alguém anteriormente excluído não significa condená-lo, absolvê-lo, restabelecer convivência ou concordar com suas escolhas. Significa reconhecer um fato: essa pessoa existiu e participou daquela história.
A inclusão, nesse sentido, acontece primeiro na representação que fazemos da realidade. Aquilo que aconteceu pode ocupar seu lugar na história sem precisar continuar organizando da mesma maneira o presente.
Exercício de observação: Reflita sobre sua história familiar. Existe alguém que foi “esquecido” ou excluído das conversas? Existem acontecimentos sobre os quais pouco se fala? O que você efetivamente sabe sobre essas histórias e o que aprendeu a interpretar sobre elas? Como seria reconhecer a participação dessas pessoas na história familiar sem precisar justificar, condenar ou repetir suas escolhas?
Aplicação prática na esfera relacional (casal)
Nos relacionamentos íntimos, o princípio do Pertencimento também oferece uma distinção importante. Cada parceiro chega à relação com uma história anterior, uma família de origem, vínculos, experiências, aprendizagens e formas próprias de compreender o mundo.
Ao longo dos anos, acompanhei inúmeros casais imersos em conflitos recorrentes. As queixas vinham de diferentes formas: “Ele nunca me colocou em primeiro lugar em relação à mãe dele.” “Ela vive dizendo que a família dela vem antes de tudo.”
Por trás dessas frases podem existir muitas condições diferentes. Vínculos familiares anteriores, responsabilidades, expectativas culturais, dificuldades de estabelecer limites, medo de perder relações importantes e diferentes compreensões sobre parceria podem participar desses conflitos.
Não precisamos concluir antecipadamente que alguém esteja preso a uma “lealdade inconsciente” ou tentando resolver o destino de outra pessoa. Podemos observar o que efetivamente acontece naquela relação e perguntar quais vínculos, responsabilidades, expectativas e escolhas estão participando do conflito.
Uma parceria pode encontrar maior liberdade quando nenhum dos dois precisa apagar sua história para construir algo novo. As famílias de origem permanecem pertencendo à história de cada parceiro, enquanto o casal pode construir seus próprios acordos, limites e formas de convivência.
Reconhecer não obriga a manter. Incluir uma história não significa submeter o presente a ela.
A prática desse princípio nas organizações
No ambiente de trabalho, o pertencimento pode ser observado na relação entre participação, reconhecimento e memória institucional. Certa vez, acompanhei uma escola que enfrentava sérios conflitos entre as equipes de serviços gerais.
Após diversas tentativas de resolução, encontramos através de uma Constelação Organizacional uma parte importante daquela história institucional que praticamente havia deixado de ser mencionada. Uma servidora havia saído em circunstâncias profundamente dolorosas. Enquanto cuidava da escola sozinha no turno da manhã, foi vítima de um assalto violento, sofreu agressões físicas severas e quase perdeu a vida.
Sua ausência posterior não havia sido acompanhada de um reconhecimento coletivo proporcional à gravidade do acontecimento e à participação que ela tivera naquela comunidade. Sua história praticamente desaparecera das conversas da instituição.
Ao trazer essa história novamente para a conversa e reconhecer explicitamente sua participação e dedicação à escola, as pessoas puderam elaborar coletivamente um acontecimento que permanecera pouco nomeado.
Naquele contexto específico, observamos posteriormente uma mudança importante na atmosfera das equipes, com maior colaboração e redução dos conflitos. Isso não permite afirmar que a exclusão daquela história tenha sido a causa única dos problemas nem que seu reconhecimento tenha produzido sozinho a mudança. Permite registrar que essa intervenção participou de um processo mais amplo de reorganização das relações naquele ambiente.
O caso oferece uma pergunta relevante para organizações: quem participou da construção daquilo que existe hoje e deixou de aparecer na história que a instituição conta sobre si mesma?
Por que os relacionamentos se complicam?
Muitas vezes, os relacionamentos se tornam desafiadores porque acontecimentos anteriores continuam participando das condições presentes, mesmo quando seus significados mudaram.
Também podemos criar fronteiras rígidas entre o “eu” e o “nós”, entre indivíduo e contexto, como se precisássemos escolher entre duas realidades independentes.
Uma perspectiva sistêmica permite observar outra coisa: indivíduos participam de relações e contextos, ao mesmo tempo em que suas ações também participam da transformação dessas relações e contextos.
Não precisamos dissolver o indivíduo no sistema nem imaginar que alguém exista independentemente de todas as relações que tornaram sua vida possível.
E se o Pertencimento fosse uma das chaves?
Algo importante pode ser observado quando distinguimos o Pertencimento nas diferentes esferas em que participamos: a esfera individual, que inclui nossa história pessoal e familiar; a esfera das relações interpessoais, que inclui vínculos afetivos, amizades e parcerias; e a esfera profissional e coletiva, que inclui organizações, escolas e comunidades.
Essas esferas se relacionam, mas não são idênticas. Uma explicação válida em uma delas não pode ser automaticamente transportada para as demais.
Reconhecer aqueles que nos precederam não exige idealizá-los. Significa admitir sua participação na história que tornou possível nossa existência e compreender que o significado atribuído a essa história pode mudar.
Da mesma maneira, reconhecer aspectos difíceis, vergonhosos ou dolorosos de nossa história não exige concordância. Podemos incluir um fato na compreensão da realidade sem transformá-lo em modelo para o presente.
O que fazer para o amor dar certo?
Voltemos àquela velha sensação de não pertencer na família, no relacionamento ou no trabalho.
Ela pode ter muitas origens e não precisa ser interpretada automaticamente como um “sinal sistêmico”. Mas pode nos convidar a perguntar com mais profundidade: O que está acontecendo aqui? Quem participa desta relação? Quem está sendo reconhecido? Quem não está? Quais condições produzem essa experiência de inclusão ou exclusão?
Talvez o Pertencimento nos ajude justamente porque separa duas coisas que frequentemente confundimos: participar de uma história e receber autorização para continuar participando de nossa vida presente não são a mesma coisa.
Não existem pessoas erradas apenas por não se encaixarem perfeitamente em determinado contexto. Existem relações, limites, condições, diferenças e possibilidades de participação que precisam ser observadas concretamente.
Algumas relações podem ser reorganizadas. Outras precisam terminar. Em ambas as situações, aquilo que existiu continua pertencendo à história enquanto fato vivido.
Para sua reflexão
Em quais relações você já se sentiu excluído ou deslocado? Quem participou da sua história e talvez tenha desaparecido da maneira como ela passou a ser contada? O que muda quando você distingue pertencimento de convivência, reconhecimento de concordância e história de destino. Que novas possibilidades aparecem quando algo pode pertencer ao passado sem precisar continuar organizando o futuro?
Importante:
Este artigo é o primeiro de uma série que explora as Três Ordens do Amor observadas por Bert Hellinger e sua releitura a partir da Inteligência Sistêmica. No próximo, exploraremos a Segunda Ordem, compreendida a partir da Ordem e da Precedência, distinguindo posição, função, responsabilidade e hierarquia.
Este texto faz parte de um fio maior de reflexões que sigo aprofundando no Substack.
Referências essenciais
Constelação Familiar / Sistêmica
Bert Hellinger
Ordens do Amor. Cultrix, 2007.
Referência direta para as formulações de Hellinger sobre Pertencimento e as Ordens do Amor.
Biologia / Sistemas Vivos
Humberto Maturana e Francisco Varela
A Árvore do Conhecimento. Palas Athena, 2001.
Referência para a Biologia do Conhecer e para a compreensão da organização dos seres vivos. É colocada em diálogo com esta reflexão sem ser apresentada como fundamento científico das Ordens do Amor.
Pensamento Sistêmico / Complexidade
Edgar Morin
Introdução ao Pensamento Complexo. Sulina, 2005.
Referência para pensar relações entre partes, todo e contexto e para sustentar uma observação que preserve a complexidade dos fenômenos sem reduzir diferentes campos do conhecimento a uma única explicação.
Um abraço,
Rosana Jotta


Rosana Jotta é facilitadora em Condições de Contorno, Inteligência Sistêmica e Educação Biossistêmica com mais de 20 anos de experiência. Arquiteta de Contornos, Pedagoga (UFU), Consteladora Sistêmica com formação pelo IMAHOM e participação em seminário com Bert Hellinger e Pólo de Cuidado em Terapia Comunitária Integrativa pela ABRATECOM. Fundadora do Instituto Rosa da Terra, facilita processos de transformação para quem busca sair de padrões repetitivos e viver com mais consciência: clareza, leveza e sucesso. Conheça seus Treinamentos, Mentorias e Atendimentos em grupo ou individuais (presenciais ou online).