Sobre inclusão, polaridade e o que o excluído recruta de nosso poder individual.
Olá!
Vou falar aqui sobre o que você já sabe, e talvez ainda não nomeou.
Você já viveu aquele momento em que algo em você age antes de você decidir. Em que um padrão se repete e você se pergunta: por que faço isso de novo?
Ou o inverso: a mente entende tudo, articula com precisão, e o corpo continua fazendo o que sempre fez.
Tipo, tô nem aí para o que você pensa? Saiba que isso não é falta de autoconhecimento.
É a distância real entre dois territórios que operam dentro de você e que só produzem vida plena quando aprendem a interagir um com o outro.
E quem precisa ensinar isso pra eles?
A resposta é “você mesmo” à partir de uma competência denominada metaconsciência, um assunto que você poderá encontrar em outros textos nossos.
O eu como uma construção tardia
O eu, esse que chamamos de nosso e é só nosso, não foi o ponto de partida.
É uma chegada, daquelas que, como diz o poeta, sempre pode vir junto com a hora da partida, para novas narrativas sobre os significados que damos à realidade que percebemos.
Antes de existir um eu que raciocina, havia um corpo que sente.
Dentro de uma cultura, uma língua que já nomeava e dava significados ao mundo antes de você ter palavras, ou condições de analisá-las, de discernimento.
O inconsciente carrega tudo isso e muito mais: aquilo que pertence a outras línguas e outras culturas.
É o território do “nós” que existia antes de qualquer eu emergir. E ele continua operando. Todo o tempo. Com ou sem a participação da nossa percepção individual.
Antes de existir um eu, existiu um nós. O inconsciente guarda esse nós inteiro, inclusive as partes que ainda nem surgiram, o novo, o emergente, porque a vida é sempre nova.
A consciência individual como condição de contorno
A consciência individual não está acima do inconsciente. Não o controla, não o governa, não o contém.
Inspirados na autopoiese celular, no que a célula faz com a membrana, dizemos que a consciência individual faz algo parecido com o que chega do inconsciente: não bloqueia arbitrariamente, mas seleciona o que pode ser integrado sem perder a coerência do que você reconhece como si mesmo.
Como o leito que dá forma ao rio sem ser a água.
Então o inconsciente não é o oposto da consciência. É parte de uma consciência mais ampla, aquela camada que inclui o que a percepção individual ainda não reconheceu como seu, mas existe e opera.
A consciência individual não decide qual padrão vai emergir após uma inclusão, por isso tememos.
Mas pode ampliar as condições para que novos padrões sejam possíveis. Pode gerenciar o solo da própria consciência.
Não comanda a floresta, mas, diferente da flor no mundo vegetal, tem muito mais autonomia para buscar o sol.
Essa distinção muda tudo na vida cotidiana. Não se trata de desenvolver mais controle. Trata-se de ampliar a qualidade flexível das condições de contorno para que o que estava excluído possa ser incluído, e então transformado.
O que o excluído recruta em nós
Há uma lei que os sistemas vivos ensinam com consistência: O excluído não desaparece. Ele recruta força, nos mantém em estado de alerta nervoso, exaure nossas energias.
Quanto mais energia a consciência individual gasta mantendo a exclusão, mais o excluído pressiona.
A resistência aumenta a força do que resiste. O cabo de guerra interno consome mais atenção. Deixa menos presença disponível para o momento presente.
Quem está ocupado gerenciando perigos, lutando internamente com dragões invisíveis, não consegue o encontro real.
Consegue técnica, contenção, performance de presença, mas não o encontro que transforma. Porque o encontro exige que você esteja inteiro dentro do contexto, em um estado de coerência entre a mente, o coração e o corpo.
A energia disponível para o campo é inversamente proporcional ao custo de manutenção das exclusões internas.
Só a inclusão permite a gestão amorosa e cooperativa
Leia mais: Ciência da Complexidade e Inteligência Sistêmica – Artigo 1https://institutorosadaterra.com.br/trilha-inteligencia-sistemica-post/: Ciência da Complexidade e Inteligência Sistêmica – Artigo 1 .: Ciência da Complexidade e Inteligência Sistêmica – Artigo 1A inclusão através desse amor ontológico do qual sempre falamos ancorados no trabalho de Bert Hellinger e Humberto Maturana, fala de uma capacidade de discernimento e escolhas, muito diferente dos julgamentos morais nos quais nossas mentes foram treinadas.
Esses julgamentos geram exclusões, lotam esse inconsciente com “perturbações”, “incômodos” com os quais não desejamos lidar criando o que chamamos de nossa “sombra pessoal”.
Estar no inconsciente não elimina a força desses “elementos”. Apenas retira dele a possibilidade de ser parceiro consciente desse ser que você é. Possa se expressar através de você.
Eles continuam operando, se expressando como incômodo, como medo, como raiva, ou repetições que você dificilmente escolheria conscientemente.
A gestão amorosa e cooperativa só é possível quando há reconhecimento. E você não reconhece o que excluiu. Maturana dizia que o amor ontológico é a condição biológica que torna a convivência possível, não como virtude, mas como reconhecimento do outro como legítimo em sua existência.
Aqui, o outro é o próprio inconsciente.
Estar na polaridade sem excluir o meio
Existe uma pergunta que parece razoável mas contém uma armadilha: como estar dentro de uma polaridade sem precisar sustentar a tensão?
A armadilha está no pressuposto de que há um modo de estar na polaridade de forma consciente sem o custo do discernimento contínuo. Que a tensão é o problema, e não um imperativo do meio em que habitamos.
O inconsciente não é apenas o repositório da sabedoria ancestral ou de potencialidades latentes; ele é também o lugar de pulsões de morte, de traumas brutos desorganizados, de forças caóticas e de imperativos biológicos cegos.
Querer estar na polaridade sem sustentar a tensão é como estar na água e querer voar. Não é liberdade, é mais uma exclusão: a exclusão do próprio meio em que estamos.
A tensão é a condição estrutural de qualquer crescimento real. A árvore só cresce alto porque sustenta o peso do vento. E, sim, existem ventos contrários e fortíssimos. A guerra interna é reflexo das guerras externas.
A inclusão não resolve a tensão. Permite habitá-la sem ser consumido por ela.
O que isso tem a ver com você
Leia mais: Ciência da Complexidade e Inteligência Sistêmica – Artigo 1https://institutorosadaterra.com.br/mentoria-inteligencia-sistemica/: Ciência da Complexidade e Inteligência Sistêmica – Artigo 1Em algum momento da sua vida, talvez agora, você sentiu a distância entre saber e operar. Entre entender e conseguir fazer diferente.
Essa distância não é falha. É o espaço onde a consciência individual ainda não alcançou o que o inconsciente carrega e repetidamente procura mostrar. Onde uma parte de nós ainda não foi incluída pelo eu, e nos perturba de fora.
Desenvolver Inteligência Sistêmica não é acumular mais conceitos sobre isso.
É ampliar as condições de contorno da consciência individual, até que o que estava excluído possa, finalmente, ser incluído como parceiro de jornada. Não de uma vez. Em camadas. Com tempo.
E então o círculo se fecha onde o texto começou: o padrão que se repete mesmo quando a mente entende não é uma falha sua. É um convite do inconsciente.
Eu sou o lugar onde o Nós acontece.
Um abraço,
Rosana Jotta
Professora de Inteligência Sistêmica, Instituto Rosa da Terra