Eu sou o lugar onde o Nós acontece

Sobre autonomia, pertencimento e a liberdade que nasce das raízes. Isso é Inteligência Sistêmica.

Olá!

Vou contar sobre um ruído que virou tema. Há anos percebo em mim um ruído persistente.

Nos meus textos, na minha fala, sempre me perdi entre o eu e o nós. Por muito tempo tratei isso como imprecisão, uma inconsistência de linguagem que precisava ser corrigida.

De repente, acordei um dia com uma pergunta diferente: e se esse ruído não fosse erro, mas uma percepção difusa de algo essencial?

E se a oscilação entre eu e nós não indicasse confusão, mas a tentativa de nomear algo que a língua ainda não aprendeu a dizer sem escolher lados?

Esse ensaio nasceu dali. Não de uma teoria. De um incômodo que se recusou a ser silenciado.

O Erro que Herdamos de Descartes

Penso, logo existo.

Essa frase fundou uma civilização inteira sobre a ideia de que o eu é o ponto de partida. Que a consciência antecede a relação.

Que o sujeito existe antes, e independentemente, do mundo que o cerca.

Na tradução o livro de Antônio Damásio chamou isso de erro, sem de forma alguma desmerecer a contribuição de Descartes

Sem qualquer crueldade filosófica, apenas o fato da neurociência ter nos mostrado o que os sistemas vivos já sabiam há muito tempo: não existe mente sem corpo, não existe sujeito sem meio, não existe eu sem a trama de relações que o constituiu.

O problema não foi Descartes ter afirmado o eu. O problema foi imaginarmos que esse eu precede o nós.

E esse equívoco, aparentemente abstrato, teve consequências muito concretas.

Aprendemos a admirar quem rompe gerando exclusões. Quem se diferencia mesmo com o temor de perder o pertencimento. Quem segue o próprio caminho buscando uma independência radical.

Confundimos autonomia com separação. Maturidade com não precisar de ninguém. E isso tem um custo civilizatório extremamente alto.

Enquanto não encontramos a coerência entre o eu e o nós, colocamos em risco a própria emergência da criatividade a favor da vida.

Vivemos em um estado permanente e radical de luta pela sobrevivência.

O que os sistemas vivos ensinam

Leia mais: Eu sou o lugar onde o Nós acontecehttps://institutorosadaterra.com.br/por-que-escrevo-inteligencia-sistemica/: Eu sou o lugar onde o Nós acontece

Nenhum ser humano aprende a falar sozinho. Nenhum ser humano constrói identidade sozinho. Nenhum ser humano desenvolve consciência de si fora das relações que o constituíram.

Antes de existir um eu, existiu um nós. Uma família enquanto o encontro de dois sistemas biológicos. Uma comunidade. Uma cultura. Uma história.

Quanto mais observamos os sistemas vivos, menos encontramos a oposição radical entre individualidade e pertencimento, entre autonomia e cooperação, entre singularidade e interdependência.

O mundo vegetal talvez seja um dos melhores professores disso.

Uma árvore é única. Possui forma própria, ritmo próprio, posição própria, história própria. Nenhuma é igual à outra. E, no entanto, nenhuma existe sozinha.

Sob o solo existe uma trama invisível de raízes, fungos, minerais, água e trocas químicas que conectam indivíduos distintos num sistema muito maior.

O que chamamos de floresta não é uma coleção de árvores isoladas. É uma comunidade. Uma rede. Um nós.

E curiosamente é justamente essa rede que permite que cada árvore expresse sua singularidade.

As raízes não anulam a unicidade. Tornam-na possível.

Uma árvore sem raízes não se torna mais livre. Torna-se vulnerável. Ela perde exatamente aquilo que sustentava sua capacidade de crescer.

O paradoxo é esse: a autonomia emerge da qualidade das conexões, não da sua ausência.

O conflito silencioso

Quando o pertencimento é reconhecido, surge a liberdade de ser quem se é.

É por isso que tantas pessoas vivem um conflito silencioso: querem ser elas mesmas sem perder o amor daqueles a quem pertencem. Querem seguir seu caminho sem trair suas origens. Querem crescer sem abandonar quem veio antes.

Na perspectiva biossistêmica, esse não é um problema a ser resolvido. É um paradoxo a ser habitado.

Leia mais: Eu sou o lugar onde o Nós acontecehttps://institutorosadaterra.com.br/o-que-e-a-biossistemica/: Eu sou o lugar onde o Nós acontece

Não existe vida humana sem pertencimento. Não existe vida humana plena sem diferenciação. Somos ambos, sempre fomos.

Talvez a maturidade seja justamente isso: não escolher entre autonomia e pertencimento, mas descobrir como honrar os dois ao mesmo tempo.

A frase que chegou

Enquanto pensava nesse ruído antigo entre o eu e o nós, uma frase apareceu:

“Eu sou o lugar onde o Nós acontece. Esse nós ao qual pertenço como floração.”

Ela mudou o ângulo de tudo. Não é eu dentro do nós. Não é eu apesar do nós. É o eu como locus, o ponto onde a trama maior ganha forma perceptível, singular, irrepetível.

Quem floresce não se autofabrica. Pertence. A flor é a expressão mais visível de uma raiz que trabalhou em silêncio por muito tempo.

E então compreendi o nome que escolhi para o Instituto há tantos anos. Rosa da Terra. Não uma rosa acima do solo, ornamental, separada. Uma rosa da terra, enraizada, constituída por ela, expressão dela.

O Instituto não convida as pessoas a se tornarem melhores ou mais capazes.

Convida a florescer.

E florescer pressupõe exatamente o que esse ensaio inteiro tenta dizer: que há raiz, que há rede, que há pertencimento anterior, e que a singularidade não precede o nós, mas emerge dele.

Atualmente percebo que Rosa da Terra não foi um nome escolhido.

Foi percebido.

Talvez seja isso que tenho tentado ensinar durante todos esses anos sem conseguir nomear completamente. Que a vida floresce quando deixa de escolher entre raiz e flor. Entre pertencimento e singularidade. Entre eu e nós.

Leia mais: Eu sou o lugar onde o Nós acontecehttps://institutorosadaterra.com.br/servicos-em-inteligencia-sistemica/: Eu sou o lugar onde o Nós acontece

Um abraço,

Rosana Jotta

Deixe um comentário