A Epidemia de Ansiedade e a Economia do mais

Dinheiro não é só sobre dinheiro. É sobre recurso, sobre energia para viver, e hoje publiquei no Youtube com uma ótima leitura sobre a origem de padrões que limitam nossa autonomia,como expliquei em Autonomia Real e na Epidemia de Ansiedade e Economia do Mais

Olá!

Estes dias uma amiga foi ao médico e saiu com uma receita a mais, para ansiedade, que, segundo o médico, evitaria a necessidade de outra consulta caso ela começasse a perder o sono.

Pensei: isso é porque foi no SUS, diminuiria a demanda para ele. Costumo ficar triste comigo mesma com esse meu jeito de imaginar primeiro o pior cenário. Minha amiga ficou até agradecida. Para ela, o médico estava apenas se antecipando a uma possibilidade e tentando ajudar.

A cena ficou comigo por outro motivo. A ansiedade está cada vez mais presente em nossas conversas, consultórios, escolas, famílias e ambientes de trabalho. Não podemos explicar esse fenômeno por uma única causa, muito menos pelo que chamo de “economia do mais”.

A cultura também participa das condições em que vivemos, e determinados ambientes podem favorecer estados persistentes de vigilância, comparação e antecipação.

A ameaça não precisa ser física nem imediatamente objetiva para mobilizar o organismo humano nessa direção. Percebemos uma ampla gama de perigos: ameaça à aceitação, ao status, à competência, à renda, ao patrimônio, ao pertencimento, ao reconhecimento ou à imagem.

O fato de uma ameaça ser social ou subjetivamente percebida não significa que seus efeitos sejam imaginários.

A Riqueza também pode ser sentida como perigosa

A riqueza também pode produzir vulnerabilidades. Não porque elimine ou se equipare às vulnerabilidades produzidas pela pobreza, que podem ser muito mais graves e estruturais, mas porque cria outro regime de exposição.

Ela pode atrair interesse, projetar fantasias, alterar relações de confiança e tornar uma pessoa ou família mais exposta a determinados riscos materiais e simbólicos.

Nossa fantasia é que dinheiro compra invulnerabilidade. Na realidade, ele permite adquirir proteções importantes, mas não compra automaticamente discernimento, vínculos confiáveis, legitimidade ética, privacidade ou segurança afetiva.

Portanto, não seria correto dizer: “ricos e pobres são vulneráveis do mesmo modo”. Não são.

Mas, se estamos falando da riqueza como uma forma de poder e de ampliação de recursos, podemos também observar os riscos específicos produzidos por essa posição. Ela reduz muitas ameaças e pode ampliar ou transformar outras.

Há algo ainda mais sutil. Tanto a pobreza quanto a riqueza podem receber significados morais que não decorrem necessariamente da quantidade de recursos que uma pessoa possui. Estudos sobre percepção de status socioeconômico sugerem, por exemplo, que sinais de status podem influenciar julgamentos que fazemos sobre outras pessoas, inclusive sobre características que não conhecemos diretamente.

Mas quantidade de dinheiro não prova caráter. Uma pessoa, independentemente de ser rica ou pobre, pode ser generosa ou cruel, lúcida ou cega aos efeitos de suas escolhas, confiável ou exploradora.

Isso mostra que vulnerabilidade nem sempre é uma questão de quanto se tem, mas de como aquilo que se tem, ou não tem, é percebido e interpretado. É esse mesmo mecanismo de interpretação que está por trás da ansiedade que venho observando.

Ameaça subjetiva não é irreal

“Subjetiva” não quer dizer inventada ou sem efeitos. Quer dizer que uma situação é percebida e significada por alguém a partir de sua história, de sua posição social, de suas relações, dos recursos disponíveis e das possibilidades de resposta que reconhece naquele momento.

Ser comparada, ignorada, exposta, criticada, demitida, perder alcance, não corresponder ao esperado ou perceber que se está “ficando para trás” não são ataques físicos. Mas essas experiências podem envolver ameaça ao pertencimento, ao reconhecimento, à segurança econômica ou à continuidade de vínculos importantes.

Pesquisas sobre avaliação social têm investigado como situações nas quais alguém se percebe sujeito ao julgamento negativo de outras pessoas podem estar associadas a respostas fisiológicas de estresse e à experiência de ansiedade.

Estudos realizados em situações experimentais e na vida cotidiana também oferecem elementos para observar relações entre ameaça avaliativa social, ansiedade, vergonha, constrangimento e alterações fisiológicas.

Esses achados não significam que toda ansiedade tenha origem social. Permitem compreender que acontecimentos sociais podem participar concretamente da experiência corporal de ameaça.

A economia do “mais”

O que chamo de economia do mais pode ser entendido como um arranjo cultural no qual quase tudo tende a ser colocado numa escala de comparação e expansão contínua:

Mais renda, patrimônio e consumo.

Mais produtividade e disponibilidade.

Mais títulos, desempenho e credenciais.

Mais visibilidade, seguidores e engajamento.

Mais juventude, beleza, experiência ou eficiência.

Mais otimização de si.

O problema existencial dessa lógica é que ela quase não oferece um critério de suficiência. Se o parâmetro é sempre “mais”, estar bem pode parecer provisório. Descansar pode ser vivido como atraso, e a conquista de hoje pode apenas elevar o patamar exigido amanhã.

Isso pode criar uma experiência de alerta sem um único objeto identificável. A antecipação também participa desse processo. Estudos experimentais sobre avaliação social indicam que a expectativa de ser avaliado pode produzir ansiedade, tensão e preocupação antes mesmo que a situação aconteça. Não precisamos estar diante do acontecimento para começar a responder à possibilidade dele.

Em uma cultura que transforma existência em desempenho comparável, podemos permanecer mobilizados como se precisássemos provar continuamente competência, lugar e valor.

A crise de ansiedade, nessa perspectiva, não precisa ser compreendida apenas como um defeito do indivíduo nem como uma reação a um acontecimento isolado.

Acontece dentro de um conjunto muito maior de condições biológicas, psicológicas, relacionais, sociais e históricas que precisam ser consideradas.

Uma formulação nessa inteligência sistêmica

A questão é não transformá-la automaticamente em medida de valor, pertencimento ou verdade.

Aqui voltamos à pergunta que atravessa este artigo desde a receita entregue à minha amiga: quanto daquilo que chamamos de problema individual está sendo produzido, ampliado ou mantido pelas condições em que estamos tentando viver?

Não existe uma resposta única. E talvez seja justamente por isso que valha a pena continuar perguntando.

Um abraço,

Rosana Jotta

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