Não. E talvez minha própria trajetória ajude a explicar por quê.
Olá!
Quando comecei a falar mais publicamente sobre Inteligência Sistêmica, uma pergunta começou a aparecer de diferentes maneiras: isso é para consteladores? A pergunta faz sentido. Trabalho com Constelação Familiar e Organizacional há mais de vinte anos. Seria bastante natural, portanto, imaginar que primeiro veio a Constelação e, depois, eu tenha ampliado seus conceitos para a educação, as organizações, a gestão e outros campos.
Só existe um pequeno problema nessa história.
Não foi assim que aconteceu.
Minha entrada no pensamento sistêmico veio antes, e veio pela complexidade e pelas organizações.
Antes de Hellinger, vieram Capra, Edgar Morin e Peter Senge
Antes de conhecer o trabalho de Bert Hellinger, eu já havia encontrado referências que mudariam profundamente minha maneira de compreender o mundo: Capra, Edgar Morin e Peter Senge.
Com Edgar Morin, encontrei o pensamento complexo e uma crítica à fragmentação do conhecimento. A realidade não precisava ser simplificada até caber dentro das fronteiras que criamos para estudá-la. Era possível distinguir sem separar, reconhecer partes sem perder o todo e, principalmente, compreender que aquilo que isolamos para conhecer continua pertencendo a uma rede de relações muito maior.
Peter Senge levou essa compreensão para um território que também fazia parte da minha própria experiência: o mundo do trabalho, do empreendedorismo. Com A Quinta Disciplina, encontrei uma maneira de pensar empresas não como máquinas formadas por peças independentes, mas como sistemas de relações interdependentes. Pessoas afetam umas às outras. Decisões produzem consequências que retornam ao próprio sistema. Soluções aparentemente eficientes podem gerar novos problemas tempos depois. Aquilo que acontece em uma área pode ter relação com decisões tomadas muito longe dali. Era necessário aprender a enxergar conexões.
Quando posteriormente conheci Bert Hellinger, portanto, eu não estava chegando pela primeira vez ao pensamento sistêmico.
Eu já vinha dele.
O que encontrei em Hellinger foi outra dimensão desse território. Seu trabalho me mostrou ao longo de mais mais 20 anos os fenômenos relacionais que aprofundavam questões que Morin e Senge, por caminhos diferentes, já haviam aberto para mim: pertencimento, precedência, equilíbrio, vínculos, exclusões e os efeitos produzidos quando determinados elementos de um sistema deixam de ser devidamente reconhecidos.
Mais tarde, Bateson, Foerster, Maturana e Varela ampliariam novamente esse caminho com a Cibernética, a Cibernética de Segunda Ordem, a Biologia do Conhecer, a autopoiese e a compreensão dos seres vivos a partir de sua própria organização e das relações que tornam possível sua existência dentro da complexidade continua e paradoxal da vida como ela é.
Não construí essa sequência posteriormente para que minha trajetória parecesse coerente.
Foi a sequência real. Foram as peças se encaixando.
E hoje percebo que essa ordem de chegada explica muito do que desenvolvi depois. Quando encontrei a Constelação Sistêmica, eu já observava a vida e as organizações através de uma lente sistêmica e complexa. Hellinger não criou essa lente em mim. Ele acrescentou a ela uma dimensão que eu buscava, pois o feedback, no sentido sistêmico que eu conhecia até então, não alcançava a profundidade necessária para o conhecimento que cura e alinha nossa presença de forma coerente.
Talvez seja justamente por isso que, tantos anos depois, consigo transitar entre educação, organizações, relações familiares, desenvolvimento humano e processos de aprendizagem sem sentir que estou mudando de assunto. Para mim, nunca foram mundos separados.
São manifestações de sistemas em transformação contínua, alguns vivos no sentido biológico estrito, outros dinâmicos sem serem vivos, como organizações, minerais e tudo o que existe no tempo, mas todos parte de uma única realidade em transformação.
A Constelação não é sinônimo de Inteligência Sistêmica
Essa distinção precisa ser feita com cuidado. A Constelação é uma prática sistêmica extremamente importante na minha trajetória e uma das fontes fundamentais do trabalho que desenvolvo. Mas Inteligência Sistêmica, como a compreendo, não é outro nome para Constelação, nem exige que alguém se torne constelador para desenvolvê-la.
Um profissional pode aprender a reconhecer relações de pertencimento sem montar uma Constelação. Pode observar problemas de precedência dentro de uma equipe sem colocar representantes numa sala. Pode perceber desequilíbrios de troca em uma organização sem conduzir qualquer intervenção fenomenológica. Pode compreender circularidades, padrões de retroalimentação, interdependências e condições de contorno sem jamais exercer a profissão de constelador. Aliás, deveria.
Porque sistemas não aparecem apenas quando fazemos Constelação.
Nós já estamos dentro deles.
Então o que estamos chamando de Inteligência Sistêmica
Para mim, Inteligência Sistêmica começa pela capacidade de perceber que nenhum fenômeno humano existe sozinho. Uma decisão acontece dentro de relações. Uma criança aprende dentro de relações. Uma liderança exerce sua função dentro de relações. Uma empresa produz dentro de relações. Uma família se reorganiza dentro de relações. Até aquilo que chamamos de comportamento individual emerge dentro de uma história biológica, relacional, cultural e social.
Isso não significa dissolver o indivíduo no sistema. Significa abandonar a fantasia de que podemos compreendê-lo retirando-o das relações que participam de sua constituição. É por isso que costumo dizer:
Ninguém se organiza sozinho.
Isso serve para quem, então?
Talvez a pergunta mais interessante não seja quem pode usar Inteligência Sistêmica, mas em quais profissões podemos realmente trabalhar sem alguma capacidade de compreensão sistêmica da complexidade da vida.
Um gestor que altera uma meta sem perceber como ela modifica comportamentos em cadeia está intervindo num sistema. Um professor que tenta modificar o comportamento de uma criança sem observar a turma, a família, a história e cultura da escola, os vínculos e o ambiente de aprendizagem está intervindo em múltiplos sistemas. Um profissional de Recursos Humanos que promove alguém sem considerar precedência, legitimidade, funções e história da equipe está intervindo num sistema de forma estruturante ou desestruturante? Um mediador que trata um conflito como problema exclusivo entre duas pessoas está intervindo no mínimo em dois sistemas. Um terapeuta que escuta uma pessoa sem transformar sua família em culpada pelo que ela vive também precisa sustentar uma visão suficientemente ampla para perceber relações sem retirar responsabilidades individuais.
Todos estão intervindo em sistemas. A diferença é que alguns sabem disso, vão mais longe e alcançam melhores resultados.
Inteligência Sistêmica não é aprender a enxergar escondidos e incluir contextos
Aqui existe outra distinção que considero fundamental. Pensar sistemicamente não significa adquirir uma espécie de visão especial capaz de revelar aquilo que os outros não conseguem ver. Isso seria perigoso. Também não significa ocupar uma posição superior, olhar para um sistema de fora e explicar às pessoas como elas deveriam se organizar. A própria cibernética de segunda ordem colocou em questão essa fantasia.
O observador participa daquilo que observa. Isso vale para o terapeuta, vale para o constelador, vale para o professor, vale para o gestor, vale para o consultor.
Vale para mim.
O campo sistêmico não faz distinção. Nossa presença interfere. Nossas perguntas interferem. Aquilo que selecionamos para observar interfere. Tudo é informação.
Inteligência Sistêmica, portanto, me obriga a incluir uma variável que frequentemente esquecemos:
Eu também estou aqui. Você me afeta e eu te afeto.
Talvez por isso eu tenha levado tanto tempo para nomear o que fazia
Durante muitos anos, transitei entre campos que costumam aparecer separados: educação, empresas, constelação, terapia comunitária, biologia, comunicação, desenvolvimento humano. Durante algum tempo, essa diversidade chegou a parecer um problema. Hoje vejo quase o contrário.
Eu procurava, em linguagens diferentes, uma pergunta muito parecida:
Como sistemas vivos conseguem se organizar sem que precisemos violentar sua natureza para fazê-los funcionar?
Foi dessa pergunta, e não da tentativa de criar mais uma técnica, que a Inteligência Sistêmica que desenvolvemos no Instituto Rosa da Terra foi ganhando forma.
Da leitura sistêmica às condições de contorno
Com o tempo, outra coisa começou a ficar evidente. Perceber o sistema não basta. Podemos compreender maravilhosamente uma dinâmica e continuar reproduzindo-a todos os dias. É aqui que entram as condições de contorno.
Em vez de perguntar apenas o que há de errado com determinada pessoa, equipe ou relação, podemos investigar em quais condições isso está acontecendo, que comportamentos esse ambiente favorece, o que ele impede, quem pode decidir, quem responde pelas consequências, se há recursos compatíveis com aquilo que está sendo exigido, se as funções estão claras, se os limites existem, se os vínculos sustentam a mudança desejada, e se aquilo que declaramos querer combina com as condições que construímos.
Essa mudança de pergunta é pequena apenas na aparência. Ela desloca parte de nossa atenção da tentativa de consertar pessoas para a responsabilidade de observar os contextos que ajudamos a criar.
Não se mudam pessoas. Arquitetam-se condições de contorno dentro das quais outras possibilidades podem emergir e pessoas se transformarem.
Então, não: Inteligência Sistêmica não é apenas para consteladores
A Constelação desenvolveu recursos extraordinários para tornar perceptíveis relações que uma leitura puramente linear não consegue alcançar. Mas seria um erro confundir uma ferramenta com todo o território.
Inteligência Sistêmica interessa a quem educa, lidera, cuida, medeia, empreende, consulta, decide, organiza equipes ou simplesmente deseja compreender melhor a própria participação nos sistemas aos quais pertence.
Talvez a pergunta não seja “preciso ser constelador para trabalhar sistemicamente?”. Talvez seja exatamente a inversa:
Se trabalho todos os dias dentro de sistemas humanos, quanto me custa não perceber que estou dentro deles?
Um abraço,
Rosana Jotta
Rosana Jotta é facilitadora em Condições de Contorno, Inteligência Sistêmica e Educação Biossistêmica com mais de 20 anos de experiência. Arquiteta de Contornos, Pedagoga (UFU), Consteladora Sistêmica com formação pelo IMAHOM e participação em seminário com Bert Hellinger e Pólo de Cuidado em Terapia Comunitária Integrativa pela ABRATECOM. Fundadora do Instituto Rosa da Terra, facilita processos de transformação para quem busca sair de padrões repetitivos e viver com mais consciência: clareza, leveza e sucesso. Conheça seus Treinamentos, Mentorias e Atendimentos em grupo ou individuais (presenciais ou online).