Empreendedorismo Digital: Por que estamos sempre atuando?

“Este texto integra o livro Variações sobre o mesmo tema, onde é apresentado como parte de uma jornada contínua.”

Olá!

Há alguns anos parei de me surpreender quando reconheço o mesmo padrão em lugares muito diferentes. Uma família em conflito. Uma organização que não consegue sair do lugar. Um feed de marketing que promete transformação todo mês.

O teatro é o mesmo. Só mudam os figurinos.

Stephen Karpman descreveu esse padrão nos anos 60 e chamou de Triângulo Dramático. Mas o que ele mapeou não é uma dinâmica clínica entre pessoas difíceis. É a gramática emocional da cultura ocidental, e o empreendedorismo digital aprendeu a falar essa língua com fluência assustadora.

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A Promessa da Cauda Longa

Quando Chris Anderson popularizou o conceito de Cauda Longa no início dos anos 2000, pintou um cenário promissor: a internet permitiria que produtos nichados, antes inviáveis no varejo físico, encontrassem seu público.

O empreendedor não precisaria mais competir pelos grandes hits, bastaria atender bem a pequenos grupos apaixonados.

E de fato funcionou.A cauda longa democratizou o acesso ao mercado. Artesãos, criadores de conteúdo especializado, artistas que nunca seriam ouvidos por grandes conglomerados, todos encontraram espaço. Não sem esforço. Mas com possibilidade real.

Como todo paraíso, porém, este também tem suas serpentes.

Por que engolimos narrativas fáceis

O ser humano enfrenta uma dificuldade estrutural: processar a realidade em sua complexidade é exaustivo. Nosso cérebro busca atalhos; prefere uma narrativa emocionalmente satisfatória a um conjunto de fatos paradoxais e aparentemente contraditórios.

Chamamos isso de viés de confirmação: tendemos a aceitar histórias que validam nossas crenças pré-existentes, mesmo quando os fatos dizem o contrário.

É exatamente aí que o empreendedorismo de nicho encontra seu lado sombrio. Em grupos muito específicos, as pessoas compartilham visões de mundo semelhantes. Formam-se câmaras de eco onde uma narrativa, por mais distorcida que seja, ecoa sem confronto com a realidade externa.

Quando juntamos identidade virtual idealizada, validação constante do grupo e dificuldade de lidar com a complexidade, nasce o teatro psicológico com objetivos comerciais.

Quando o marketing se apoia no triângulo dramático

O psiquiatra Stephen Karpman identificou um padrão nos jogos psicológicos humanos. Três papéis se alternam numa dança que mantém todos presos:

A Vítima: “Sou impotente. O mundo é difícil demais para mim.”

O Perseguidor: “A culpa é do sistema, do mercado, deles ou de mim mesmo.”

O Salvador: “Deixa que eu resolvo. Eu tenho a solução.”

O empreendedor começa identificando a dor específica do seu nicho. No paradigma em que vivemos até aí, nada errado, todo bom negócio resolve dores reais.

O problema começa quando, em vez de apenas identificar a dor, ele a reforça e aprofunda. A mensagem valida a emoção negativa. O potencial cliente se sente compreendid, mas também é fixado na posição de impotência.

Ele é a Vítima. E toda Vítima precisa de um Salvador.

Para que a Vítima precise de um Salvador, é preciso existir um algoz. O Perseguidor pode ser o mercado, o governo, a concorrência, ou o próprio cliente. “Você não é ok” é uma mensagem poderosa e destrutiva. Ela retira a dignidade e a força do indivíduo ao mesmo tempo que nega fazer isso.

O palco está montado. O herói pode entrar.

O empreendedor não se apresenta como vendedor. Apresenta-se como libertador. A validação mútua entre mentor e comunidade cria uma blindagem contra a realidade, e o negócio corre o risco de se tornar uma seita de consumo emocional.

O drama não acaba, ele se realimenta

A genialidade perversa do Triângulo Dramático é que os papéis não são fixos. Eles rodam.

Quando a frustração chega, e uma hora vem, porque nenhum método resolve sem um processo cujo centro seja o próprio indivíduo resolve: “Quem é o culpado?” O Salvador, que prometeu a libertação, vira Vítima. A Vítima vira Perseguidor. E o ciclo recomeça com o próximo produto, o próximo mentor, o próximo ingresso.

A liberdade, a autonomia, a gestão da própria vida, ao contrário do drama, não pode ser comprada. Muito menos todo mês.

Ela exige algo diferente de cada um de nós, e esse algo não tem como ser terceirizado.

O que a Inteligência Sistêmica propõe

Relações humanas maduras não se sustentam no triângulo dramático. Sustentam-se na cooperação entre adultos capazes de reconhecer limites, responsabilidades e possibilidades reais.

Isso significa troca justa, e não salvação. Cliente tratado como adulto capaz, não como vítima em busca de um herói.

Quando a troca é real, o drama não tem onde se instalar.

Este artigo é dedicado aos que preferem construir autoridade genuína. Aos leitores que aprenderam a desconfiar de salvadores e desejam aprender algo mais…

Um abraço,

Rosana Jotta

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