Olá!
Ontem me peguei me exibindo para algumas pessoas, nada de mentiras, mas expondo alguns desejos meus sem a menor necessidade. O mais interessante foi perceber em mim, quase ao mesmo tempo, um sentimento de culpa e vergonha.
Resultado, hoje acordei pensando sobre isso. Por que me senti culpada como se estivesse atraindo algo de ruim na minha direção? A pergunta aparece acompanhada de perplexidade: Por que me sinto culpada sem saber o motivo?
Hoje sei que nada, absolutamente nada, é à toa! Tudo faz parte de algo, tem um sentido, e isso fica evidente a partir do que sentimos. Não fiz nada demais, apenas declinei um convite afirmando que meu desejo e planos eram outros.
O resultado foi um sentimento de culpa, um dos mais pesados e limitantes de nossa cultura emocional é a culpa. Aqui chamo de cultura emocional o modo como fui treinada a perceber a vida, e a temer ameaças invisíveis projetadas lá fora.
E você? Já sentiu algo parecido com isso?
O problema, quando o pensamento linear tenta explicar uma vida que não é linear
Dormi e não me lembro de ter sonhado, mas acordei com a lembrança de que sonhar demais é bobagem. De que falar de sonhos atrai inveja, e isso nos impede de realizar, pois inveja mata. Que fui muito criticada por gostar de me exibir e ser o centro das atenções.
Pelo menos em um ponto tenho certeza de que essas falas eram equivocadas, sempre gostei de ficar só, e constantemente ouvia de outros que meu desejo era de viver sozinha. Sabe, não combina, uma fala equilibra a outra e no fim, como adulta, sei que sou uma pessoa discreta, passo muito tempo comigo mesma e alguém assim, quando fala, em geral, chama a atenção.
Enquanto pensava nisso, lembrei de uma pergunta que uma cliente fez recentemente e da resposta que dei a ela.
“Compreender não basta?” Ela me perguntou e minha resposta foi: Não, pois relações, emoções e histórias familiares, e crenças culturais pertencem a um território muito mais complexo. Elas se formam ao longo do tempo, através de experiências acumuladas, vínculos afetivos, memórias conscientes e inconscientes, expectativas e acontecimentos que muitas vezes ultrapassam a nossa própria biografia.
Quando aplicamos um pensamento excessivamente linear a esse território, surge um problema curioso: a mente começa a procurar uma causa isolada para sentimentos que nasceram dentro de uma rede de relações muito mais ampla.
A mente simplifica, compreendi e ok, mas o corpo vive dentro da complexidade e outras camadas do que somos atuam sob princípios além da compreensão intelectual.
A lente, o que muda quando começamos a perceber a vida como sistema vivo
A ciência da complexidade e o pensamento sistêmico oferecem uma mudança importante de perspectiva.
Eles nos lembram que sistemas vivos não funcionam como máquinas simples. Em um sistema vivo, cada elemento influencia os outros, direta ou indiretamente. Pequenos acontecimentos podem gerar efeitos que atravessam o tempo e as relações. De um lado, a sua soberania adulta, o desejo legítimo de declinar um convite e projetar seus planos; do outro, a sua criança treinada pela “cultura emocional” que você herdou.
Me perguntei como ela, por que me senti culpada se não fiz nada “de errado”. A resposta, sob a lente da nossa Inteligência Sistêmica, é que não transgredi uma lei moral, mas transgredi uma Lei de Pertencimento do meu antigo sistema de origem onde gerações em sua rede relações:
Naquela rede de relações
Não podiam falar de si, pois isso significava expor-se ao perigo. Ter planos individuais, pois o grupo precisava de cada elemento adulto para sustento de todos. Onde sonhar era um luxo que atraia a inveja e maldades que chegavam a “matar”. Ainda hoje é assim para muitas e muitas famílias de diferentes formas.
Quando agi como adulta, meu sistema nervoso “leu” esse script e disparou um alerta de sobrevivência: “Pare! Você está saindo da norma do grupo! Se você for diferente, estará nos abandonando a nossa própria sorte”. A culpa, nesse caso, não é um sinal de erro, mas um sinal de lealdade.
Mesmo, hoje, em contextos diferentes, com minha família em maior segurança física e financeira, a culpa é o preço que pago para ser eu mesma e viver de um modo muito mais leve e independente.
Mas será que faz sentindo carregar esse peso emocional, que no fundo bloqueia minha alegria e prosperidade?
O Medo da “Ameaça Invisível” e o reconhecimento que liberta
A compreensão pertence ao Neocórtex. Ela é importante, mas a culpa, e o medo de perder o pertencimento, de abandonar os que amo, estão no instinto, no corpo, e na alma, em minha memória.
A mente pode compreender e dizer: “Eu tenho o direito de dizer não, de realizar isso ou aquilo.”
Mas o corpo precisa que seus registros emocionais sejam reconhecidos, esse reconhecimento é algo muito especial, trata-se de uma inclusão amorosa, sem julgamentos, sem comparações, sem medo. Apenas a percepção clara de que pra muitos foi assim, que também graças a eles hoje estou aqui realizando sonhos.
Reconhecer que existe uma reciprocidade nisso, e do mesmo modo que suas memórias de dor permanecem comigo, suas esperanças de um mundo melhor também.
Essa mudança não é um método técnico. É um modo de perceber que o passado passou ou pode passar, que o agora é outro agora. Uma espécie de percepção ativa que nos coloca em contato com esse futuro que já chegou com suas novas possibilidades e limites.
Bert Hellinger, com sua sabedoria profundamente amorosa e objetiva, tem uma frase pra isso; “Somos a esperança de nossos ancestrais.” “Esperança de quê?” ele mesmo pergunta e responde: “De que a vida fique mais leve e o amor possa dar certo.”
Quando começamos a observar a vida com essa lente, o cotidiano ganha outra profundidade.
Uma sensação de culpa que parecia sem sentido pode ser compreendida dentro de uma história maior que a abraça um futuro, onde tudo já tem oportunidade de se concluir.
A vida humana é complexa. Nossas emoções também são. Se a culpa é o preço da diferenciação, o reconhecimento é a moeda que quita essa dívida emocional.
E talvez uma das formas mais profundas de amadurecimento, seja aprender a olhar para nossos sentimentos não apenas como falhas pessoais, mas também como mensagens que emergem do passado.
Porque, no final das contas, compreender a nós mesmos é também compreender as redes de relações que ajudaram a formar quem somos.
.E quando esse reconhecimento aparece, a culpa começa a perder força, e no lugar dela surge algo muito mais fértil: gratidão.
Um abraço,
Rosana Jotta
Professora de Inteligência Sistêmica
Instituto Rosa da Terra