De Onde vem a Insegurança Emocional?

Olá!

Você já ouviu falar sobre; “Meu lugar de força…”?

Já sentiu aquela sensação de não ter chão… de que, a qualquer momento, tudo pode desmoronar. Nem sempre há um motivo claro. Não aconteceu nada de grave. E, ainda assim, o corpo reage se sentindo dessa forma.

Já acompanhei muitas pessoas que vivem assim, e também já reconheci isso em mim. A insegurança emocional raramente nasce de um único evento. Ela se forma aos poucos, em camadas, algumas visíveis, outras tão antigas que já não lembramos de onde vieram.

E, muitas vezes, o que sentimos hoje não começou hoje. Começou antes. Na história que nos trouxe até aqui

O ser humano não chega ao mundo como uma página em branco.

A camada biológica

Nascemos como continuidade de uma história que começou antes de nós. Carregamos no corpo não apenas nossa experiência, mas formas de resposta ao mundo que vieram com nossos pais, avós e outros ancestrais em suas histórias.

Estudos em epigenética mostram que experiências intensas de gerações anteriores podem influenciar como reagimos ao perigo e ao cuidado.

Em outras palavras nossos pais, ao se unirem, são como comportas que se abrem.
Por elas, chegam até nós histórias de dois sistemas familiares. Herdamos modos de sentir.

Esse patrimônio inclui predisposições fisiológicas, formas de regulação do sistema nervoso e modos de resposta ao estresse. Isso não significa que herdamos memórias psicológicas literais, já prontas nas células, mas que podemos herdar modos de reação do corpo ao perigo e ao cuidado.

A biologia carrega marcas, memórias de adaptação que foram úteis para a sobrevivência em outros momentos da história familiar ao longo do tempo.

A camada relacional

A segurança emocional, porém, não nasce apenas da biologia. Ela se forma também em nossas próprias relações, especialmente nas de nossa primeira infância.

Nos primeiros anos de vida, a criança aprende a sentir o mundo através da presença dos adultos que cuidam dela. A pedagogia Waldorf, desenvolvida por Rudolf Steiner, por exemplo, chama atenção para algo muito importante: no primeiro setênio da vida, a pergunta silenciosa que se forma dentro de nós é simples e profunda: o mundo é um lugar seguro?

A resposta não vem de explicações racionais, ela nasce das experiências concretas vividas em uma época em dependíamos dos adultos envolvidos com nosso cuidado. Quando esse adulto está presente em momentos difíceis, acolhe, organiza e protege, o sistema nervoso da criança aprende algo fundamental: o mundo pode ser confiável.

Essa confiança inicial não é um pensamento. Ela é uma sensação corporal profunda, a base sobre a qual mais tarde poderão se desenvolver a autonomia, a coragem e a capacidade de explorar o novo a partir de um lugar de força e confiança na própria capacidade de viver, de encontrar os recursos e apoio necessários.

As memórias de abandono

Nos primeiros anos de vida, não possuímos recursos cognitivos para compreender racionalmente o que está acontecendo ao nosso redor. O que registramos são sensações corporais e estados emocionais.

Se uma situação intensa ocorre, como uma hospitalização, por exemplo, e a criança se encontra em um ambiente desconhecido sem a presença perceptível de seu cuidador, o sistema nervoso pode interpretar a experiência como abandono.

Não porque tenha havido abandono real. Mas porque o organismo infantil ainda não consegue distinguir ausência temporária de perda definitiva, sua relação com o tempo é diferente da de um adulto.

Em suas observações fenomenológicas, Bert Hellinger chamou algumas dessas experiências de movimentos de amor interrompidos. Ele observou que, quando o impulso natural da criança de buscar proximidade com o cuidador é interrompido repetidamente, algo pode permanecer suspenso no campo emocional, se recolher internamente para evitar a dor.

Na maioria das vezes, isso não acontece por falta de amor. Os adultos estão simplesmente enfrentando as circunstâncias da vida, gerações após gerações. Mas o corpo da criança pode guardar aquela experiência como uma memória de alerta, de abandono, de crueldade ou seja lá o que for que o tenha ferido profundamente.

Esse “movimento de amor interrompido” vindo do contexto que vier gera uma ruptura entre nós e nossa ancestralidade.

Essa interrupção, sistemicamente, é como se tirássemos nossa tomada da rede elétrica. A consequência imediata é a insegurança: sem o apoio dessa corrente que vem de longe, passamos a viver apenas com nosso esforço individual, o que nos esgota.

A pessoa caminha pelo mundo sentindo que não tem lastro, que a qualquer momento pode cair porque não há nada segurando suas costas.

Reconectar a tomada ou, como dizia Hellinger, “tomar os pais”, não é “perdoar” erros, mas sim voltar a ter acesso à voltagem total da vida que nos permite, finalmente, ocupar nosso lugar de força no palco do momento presente, no aqui e agora.

Então qual seria esse lugar de força?

Talvez ele não seja algo que precisamos construir. Ele aparece quando conseguimos olhar para o que aconteceu… reconhecer como foi…
e deixar isso no lugar onde pertence com muito respeito pelos desafios de nossos ancestrais. Desafios que ´só eles sabem realmente como foram.

Reconhecer como adultos que podemos ir além desse suportar que nos torna reativos em situações que se parecem com aquelas memórias do passado, que tem o mesmo padrão.

Esse reconhecimento, nos possibilita religar a tomada. Na fala de Bert Hellinger seria “tomar de volta nossos pais em nossos corações”, nos reconectar com essa corrente de vida que nos permitiu estar aqui.

Esse é o nosso lugar na linha da vida, na linha de frente de nossos ancestrais. Um lugar onde o que veio antes de nós deixou de ser uma prisão, causa de dor e se tornou fonte de força e segurança interior.

Sabe aquele ditado popular: “Quem sai aos seus não degenera.”? O “não degenerar” significa honrar a potência da vida, e não precisar, necessariamente repetir o destino difícil.

Pois é, pé de manga não dá jaca, então parar de lutar contra tudo que já nos constituiu libera uma força extraordinária para seguir em frente. Fazer acontecer em nossa hora no palco da vida, nosso lugar de força.

Um abraço,

Rosana Jotta

“Se você sente que sua tomada está desligada, o primeiro passo é olhar para onde o fluxo parou. É isso que exercitamos na nossa Formação em Inteligência Sistêmica que inclui dois anos completos de mentoria sistêmica continua.”

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