A espiritualidade do dia a dia ou delírios abstratos?

Olá!

Me encanta o quanto lavar a louça me acalma.

Atualmente cuidar, eu mesma, do espaço onde vivo, faz parte das minhas ferramentas de autocuidado.

Acredite se puder, mas há mais cura em uma pia limpa, no aroma do café recém coado, do que na lista de seis coisas que te farão feliz ou milionária.

Vivemos em um tempo marcado pela rapidez das informações, pela fluidez dos discursos e pela sedução de promessas instantâneas de felicidade. Multiplicam-se as listas com “5 passos para ser feliz”, “3 técnicas infalíveis para conquistar o que deseja”, “6 coisas que você precisa abandonar para ter sucesso”.

Mas há uma pergunta que essas listas nunca fazem.

A armadilha das abstrações vazias

Edgar Morin alerta para os riscos de uma racionalidade que fragmenta o real e esquece a vida. A inteligência excessivamente abstrata perde o contato com a realidade viva. Valores humanos profundos são substituídos por simulacros: discursos vazios, aparências de sucesso, uma espiritualidade fast-food que promete iluminação sem atravessar a dor.

Byung-Chul Han denuncia a sociedade do cansaço, onde o excesso de positividade e autoexploração nos torna prisioneiros de nós mesmos. O sujeito de desempenho performa felicidade, produtividade, espiritualidade, e se esgota tentando.

Até aqui, você provavelmente está concordando.

E é exatamente aí que mora o problema.

Quem está te programando agora?

Quando falamos de autoconhecimento e desenvolvimento pessoal, a primeira coisa que deveríamos reconhecer é que temos mentes programáveis.

Acreditamos que acreditamos nisso ou aquilo.

Mas esquecemos que somos levados a acreditar com muita facilidade.

Inclusive a acreditar que já superamos as listas de cinco passos. Inclusive a acreditar que lavar louça nos salva. Inclusive a acreditar que esse artigo é diferente dos outros.

O mercado da consciência aprendeu rápido. Trocou o coach sorridente pelo intelectual cansado. Trocou a promessa de abundância pela promessa de autenticidade. Trocou as listas pelo ensaio reflexivo.

Mas continuou vendendo a mesma coisa: a sensação de que você chegou lá.

Nossa maior fragilidade não é acreditar nas listas. É talvez acreditar que já não acreditamos mais nelas.

E nossa maior força, se é que existe uma que seja realmente a maior, seria saber quem está nos programando agora. Neste exato momento. E em qual direção.

A sabedoria dos pequenos gestos, ou sua armadilha

A pia limpa me acalma. Isso é verdade.

Mas preciso ser honesta: há dias em que lavar louça é presença plena. E há dias em que é fuga organizada. A diferença não está no gesto. Está em quem, dentro de mim, está fazendo o gesto, e por quê.

Na visão da Inteligência Sistêmica, cada ato consciente é uma alavanca de transformação. A palavra que importa é consciente. Não o ato em si. Não a estética do cotidiano. Não a fotografia da xícara de café com luz natural.

Em algum momento chegamos ao tempo de ousar o simples. Ousar olhar para dentro. Ousar ser verdadeiro consigo mesmo.

Mas ousar, de verdade, inclui isso: perguntar quem nos ensinou a chamar de coragem o que talvez seja apenas mais um roteiro bem embalado.

Essa pergunta não tem resposta pronta. E dessa vez não vou oferecer uma.

Um abraço,

Rosana Jotta

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