Você jurou que seria diferente. E de repente se ouve usando as mesmas palavras, o mesmo tom, o mesmo gesto. Por que isso acontece, e o que é possível fazer com isso a partir dessa Inteligência Sistêmica.
Olá!
Tem um momento que quase toda mulher conhece. Você está cansada, crianças não param, filhos se vão, novas demandas chegam e a paciência acabou, e de repente você ouve sua própria voz. O tom. A frase. O gesto brusco que sua mãe fazia e que você jurou, com toda a convicção que tinha aos vinte anos, que nunca faria.
A primeira reação é culpa. A segunda, confusão. Como isso é possível se você passou anos tentando ser diferente?
Não foi falta de esforço, nem de avisos, alguém na hora da raiva talvez tenha te dito: Você está igual sua mãe ou igual à mamãe.
A resposta mais comum que o senso comum oferece é psicológica: você repete porque foi o que aprendeu, porque é seu modelo de referência, porque no estresse o cérebro recorre ao que conhece. Isso é verdade, mas é só parte da história.
Muitas mulheres que fizeram terapia anos, leram todos os livros, conscientemente construíram uma forma diferente de se relacionar, e ainda assim, num momento de alta pressão, ouvem a voz da mãe saindo pela própria boca.
Seu corpo aprendeu antes que você pudesse escolher
Humberto Maturana descrevia os sistemas vivos como estruturas que carregam sua própria história. Não como memória consciente mas como organização interna. O que vivemos de forma intensa e repetida não fica apenas na mente. Fica na postura, no ritmo respiratório, no padrão de ativação do sistema nervoso.
Fica em como o corpo responde antes que a mente decida. Essa memória no corpo é passada de geração para geração, e de muitas maneiras reforçada pela convivência.
A criança que cresceu num ambiente de alta exigência reforça em si mesma, neurologicamente, que a tensão é o estado normal. O sistema nervoso se calibra para isso. Quando adulta, em situações de pressão, esse sistema físico não consulta os valores que ela construiu conscientemente, ele ativa o padrão que conhece.
Então não se trata apenas de escolha, mas de um hábito mental pois nosso cérebro é parte desse corpo. É o corpo fazendo o que aprendeu a fazer para sobreviver.
O que veio antes de sua mãe
Há ainda outra camada que a psicologia individual frequentemente esquece de mencionar. Sua mãe também reforçou essas aprendizagens na convivência com a mãe dela.
Cada geração maternou dentro das condições que tinha, com os recursos emocionais disponíveis, com as narrativas culturais do seu tempo, com o que o próprio corpo carregava de gerações anteriores.
Portanto o padrão que você reconhece em si mesma muito provavelmente não começou com sua mãe. Ela foi apenas o elo mais visível de uma cadeia mais longa.
Nas Constelações Sistêmicas, isso tem um nome: lealdade invisível. A tendência de repetir não porque se quer, mas porque o sistema familiar opera como um campo de informações, crenças de diferentes níveis, e dentro desse campo, repetir é uma forma de pertencer, de honrar, de não abandonar ou ser abandonado por quem veio antes.
Nossa mente sempre vai escolher o mais conhecido, ela reconhece isso como fonte de segurança e economia de energia.
A Constelação Familiar e o momento em que a repetição pode ser interrompida
Apagar o que veio antes é a missão impossível. Esquecer, tirar do campo consciente de percepção de si mesmo, é perfeitamente possível, o problema é que o que se esquece não some, continua atuando de baixo, estruturando comportamentos e falas sem que ninguém precise admitir, ou reconhecer de onde vem.
A neurociência traz uma notícia importante aqui: o cérebro é plástico. Padrões inscritos podem ser modificados, reorganizados.
Essa reorganização não acontece pela força de vontade. Acontece quando o padrão é visto, é reconhecido e não julgado, não combatido, mas genuinamente reconhecido como o que é: uma resposta aprendida, herdada, que fez sentido em outro contexto e que agora pode ser atualizada.
O primeiro movimento não é mudar. É observar.
Quando você se pega no gesto da sua mãe e, em vez de se contrair de culpa, consegue perguntar, de onde vem isso, o que esse padrão está protegendo, o que ele aprendeu a fazer? Algo começa a se reorganizar.
Não de uma vez. Não sem recaída. Mas de forma real. Neste ponto uma constelação é fundamental pois pode te levar a raiz desse comportamento em seu sistema familiar. Trazer isso para sua consciência te possibilitará uma dissociação da carga emocional original que vem sendo reforçada geração após geração.
Por isso dizemos que a constelação é um serviço sistêmico prestado tanto às gerações passadas quanto às que vierem depois da sua.
A infância perfeita é um mito muito caro
Isso não existe e nunca existiu. Todas as gerações enfrentaram seus dramas individuais ou coletivos.
O que é possível, e isso a pesquisa sobre transmissão intergeracional confirma, é reduzir a intensidade do que se transmite quando o padrão é reconhecido e nomeado.
A mãe que consegue dizer “errei, me perdi, isso não era para você” está fazendo algo biologicamente significativo: está interrompendo o campo de invisibilidade em que o padrão operava mesmo que de forma totalmente inconsciente.
Como mãe ninguém precisa ser perfeita. Pode é se tornar suficientemente consciente. Você não vai ser diferente da sua mãe em tudo. Nem precisa. Mas pode ser diferente nas coisas que importam, e isso começa não por esforço, mas por reconhecimento.
O padrão que você vê em si mesma não é seu destino. É seu ponto de partida. Só por ser visto dessa forma ele já diminui a pressão sobre você.
Onde o respeito pelos limites do outro atua, a gratidão pela vida sempre encontra um espaço maior.
Um abraço,
Rosana Jotta
Rosana Jotta é facilitadora em Condições de Contorno, Inteligência Sistêmica e Educação Biossistêmica com mais de 20 anos de experiência. Arquiteta de Contornos, Pedagoga (UFU), Consteladora Sistêmica com formação pelo IMAHOM e participação em seminário com Bert Hellinger e Pólo de Cuidado em Terapia Comunitária Integrativa pela ABRATECOM. Fundadora do Instituto Rosa da Terra, facilita processos de transformação para quem busca sair de padrões repetitivos e viver com mais consciência: clareza, leveza e sucesso. Conheça seus Treinamentos, Mentorias e Atendimentos em grupo ou individuais (presenciais ou online).