Depressão Pós-Parto: Quando o Amor Não Impede o Colapso

A única coisa que eu conseguia pensar era: “Jesus, só comigo que deu erro?” Me disseram que as mães tinham um instinto, que sabiam o que fazer. Mas eu realmente não sabia e estava muito assustada.

Olá!

Eu quase entrava em pânico diante do choro dele, estava sozinha, me sentindo triste, doente, e sem entender o que ele sentia.

Os pensamentos nem de longe eram os melhores: “e se ele não gostar de mim?”, “e se eu morrer sem conseguir criá-lo”

Isso não aconteceu de uma vez, mas gradativamente foi chegando neste ponto, nós dois chorávamos juntos.

A solução chegou com a visita surpresa de uma amiga querida que nos socorreu por tempo suficiente para que eu me recuperasse.

Era uma mistura de idealização materna com adoecimento infantil.

Estava tão exausta e sem energia que meu pedido foi de que ela levasse ele ao médico, voltou medicado para uma infecção no ouvido.

A romantização da gravidez, do parto e do puerpério vende a ideia de que esses acontecimentos envolvem muita felicidade para todas as partes, principalmente para a mãe.

Nunca vou esquecer a alegria de ouvir o choro forte de meu filho depois de momentos bem difíceis, ele nasceu de fórceps.

Mas o que veio depois não foi menos desafiador, e afeta muita mais mulheres do que se fala: pesquisas apontam que a depressão pós-parto acomete 25% das mães brasileiras.

Uma em cada quatro. Em silêncio.

O que acontece no corpo

A causa primária da depressão pós-parto é a enorme queda hormonal logo após o nascimento do bebê, além de fatores psicossociais que influenciam no desencadeamento do distúrbio.

Do ponto de vista da neurociência, o cérebro está se reorganizando em velocidade acelerada, aprendendo a ser mãe sob pressão máxima, sem sono, sem manual, frequentemente sem rede de apoio.

Mas a própria ciência é clara: a queda hormonal é o gatilho biológico, mas raramente é suficiente sozinha para produzir depressão pós-parto.

O que determina se esse gatilho dispara ou não um quadro clínico são predominantemente os fatores psicossociais. A depressão pós-parto é um fenômeno biossistêmico por excelência.

O corpo feminino pode entrar em um estado de sobrecarga, como o meu entrou, mas é o campo relacional que determinará se a mulher terá condições de atravessar essa perturbação ou colapsa nela.

Compartilhar os sentimentos, e ter uma comunidade de apoio é essencial, pois quanto à criança, só lhe resta chorar.

Medo ou Vergonha

É muito difícil para as mulheres lidarem com o problema e sinalizarem a necessidade de buscar ajuda, em grande parte porque a maternidade é tida socialmente como um momento mágico.

E realmente gostaríamos que fosse sempre assim.

E para piorar, por desconhecimento, muitas pessoas acabam confundindo a depressão pós-parto com uma rejeição da mãe ao bebê.

São coisas completamente distintas.

O que a leitura sistêmica acrescenta

Leia mais: Depressão Pós-Parto: Quando o Amor Não Impede o ColapsoO Que Não é Seu não Precisa Ser Carregado: Depressão Pós-Parto: Quando o Amor Não Impede o Colapso

Uma mãe em estado crônico de ameaça fisiológica, sem rede de suporte, com preocupações de sobrevivência material, não tem o sistema nervoso em condições de engajamento social.

O isolamento psicológico, torna-se neurofisiológico. Momentos de vulnerabilidade como esses podem reativar experiências emocionais da própria mãe ou histórias familiares que aumentam sua vulnerabilidade naquele momento.

Décadas depois, com meu filho adulto e netos, vejo em meu trabalho o quanto passar a vida para frente é uma das formas mais maravilhosas de servir à VIDA, sem vida a maioria das coisas coisas que consideramos importantes, pelas quais lutamos, se tornam insignificantes.

A maternidade biológica permanece desafiadora através dos tempos, a entrada na vida como nossa primeiro sucesso, e nossa mãe como protagonista desse momento no palco da vida.

A maternidade como cuidado vem depois e nem de longe é menos desafiadora, o ser humano é aquele que mais tempo leva sem condições de sobreviver sozinho.

Nomear o que aconteceu para si mesma, para o filho quando for a hora, para outras mulheres, são atos de reorganização interna. Não porque apaga o que foi vivido.

Mas porque a forma como damos novos significados aos desafios que atravessamos faz todo diferença. O que foi vivido pode se tornar força, não apenas peso.

E então, o que foi nomeado pode finalmente se transformar nas competências que desenvolveu em nós.

Se você está passando por isso agora

Leia mais: Depressão Pós-Parto: Quando o Amor Não Impede o Colapsohttps://institutorosadaterra.com.br/trilha-autocuidado-cansaco-autoridade/: Depressão Pós-Parto: Quando o Amor Não Impede o Colapso

Saiba que depressão pós-parto tem tratamento.

O acompanhamento contempla suporte ginecológico, psiquiátrico e psicológico, e toda a rede de cuidado ao redor da mãe, inclusive no suporte na amamentação.

O tratamento é oferecido de forma integral e gratuita pelo SUS.

Você não precisa dar conta sozinha.

E pedir ajuda não contradiz o amor que você sente, ou que ainda não consegue sentir.

Os dois podem coexistir.

Um abraço,

Rosana Jotta

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