Reter não é aprender: entender como memória, compreensão, condições corporais e currículo em espiral favorecendo uma aprendizagem com autonomia criativa.
Olá!
Todo professor conhece a cena. O conteúdo foi dado, a prova foi feita, a nota veio boa. Três meses depois, quase nada resta.
A explicação mais comum é falta de esforço, de atenção ou de disciplina. Quero propor outra: em muitos casos o aluno não esqueceu. Ele nunca chegou a aprender, porque confundimos dois fenômenos diferentes.
Reter não é aprender. Reter é guardar a informação pelo tempo necessário para responder, o que chamos de memória de trabalho. Aprender é outra coisa: é reorganizar relações, ampliar possibilidades de interpretação e conseguir usar o que se sabe em situações novas.
Quem decorou a fórmula e quem compreendeu como ela funciona podem tirar a mesma nota, mas só um deles se transformou à partir dessa aprendizagem.
E de que tipo de transformação estamos falando? Daquela em que a construção do conhecimento vai além da memória, gerando uma boa dose de autonomia criativa, responsabilidade pela gestão gradual da própria existência de forma compartilhada, e coerente com nossa interdependência.
O que Barrett nos ajuda a ver
A neurocientista Lisa Feldman Barrett descreve o cérebro como um órgão que prevê e inclui. Ele usa o que já viveu para antecipar o que vem e agir antes. Nessa teoria da emoção construída, os conceitos não são arquivos prontos e fechados: são construídos a partir da experiência e usados, a cada momento, para dar sentido ao que chega a cada momento.
Sabe quando dizemos que pensar cansa, ou que não temos força pra isso? Essas não são de modo algum desculpas ou preguiça, são a descrição de uma falta real de recursos físicos e emocionais a serem investidos na aprendizagem.
Atualizar nosso modelo mental tem custo alto. Segundo Barrett e Hutchinson, aprender algo novo tem custo energético real. Quando o corpo opera em déficit, por falta de sono, má alimentação ou estresse constante, o cérebro poupa, e atualizar o modelo interno é um dos primeiros gastos que ele corta.
Se aprender exige atualizar modelos internos, ensinar deixa realmente de ser um excesso de transmissão das informações. Passa a ser muito mais criar condições para que essa reorganização aconteça.
Se aprender exige atualizar modelos internos, ensinar deixa de ser apenas transmitir informações. Passa a ser criar condições para que essa reorganização aconteça.
O que isso muda na escola
Um currículo que só acrescenta conteúdo oferece muita informação e pouca chance de o modelo se reorganizar. O aluno cansado, pressionado pela próxima prova, pela necessidade de notas com cada tema substituído pelo seguinte, está exatamente no contexto em que o cérebro prefere repetir o que já conhece.
Jerome Bruner propôs, nos anos 1960, o currículo em espiral: voltar ao mesmo tema com complexidade crescente, apoiado no que já foi aprendido. Estava na direção certa. Faltava ver que quem aprende é um corpo, com história e relações, e que a espiral só funciona quando ele tem recursos para percorrê-la.
Sim, quem aprende é um corpo. A mente é parte desse corpo e depende dele.
Do lado emocional toda fala desqualificante seja da capacidade do aluno de aprender, o que é super comum, de suas condições familiares ou perspectivas de sucesso na vida geram um stress contínuo ao qual reagem, em geral, com displicência e até agressividade.
Isso vale para nós, os adultos também, os profissionais da educação. Apenas saber qual é o nosso padrão não muda o padrão. Transformar em normal o que nos enfraquece metabolicamente é a doença da “normose” termo de Pierre Weil, muito trabalhado por Roberto Crema.
Permanecer no triangulo dramático de Stephen Karpman, girando entre querer ser um salvador ou uma vítima apontando um algoz, nos deixa na mesma situação. Informação disponível não nos falta e a possibilidade de nos apropriarmos dela de forma responsável é essencial.
Autonomia criativa e responsabilidade compartilhada
Não estamos falando de mudar de opinião nem de acumular repertório. Falamos de uma construção de conhecimento que vai além da memória e devolve a quem aprende a capacidade de criar a partir do que aprendeu.
Quem transforma o que aprendeu em estrutura própria passa a responder ao mundo de outro modo e a criar soluções que ninguém lhe ensinou. É isso que chamamos de autonomia criativa.
Aqui defendemos que isso precisa começar pela liderança da sala de aula, o chão firma da escola, digam o que disserem. O professor é esse cara.
E isso se ensina com presença e compromisso consigo mesmo e o outro.
Autonomia, aqui, não é isolamento. Na leitura de Maturana e Varela, um ser vivo especifica suas respostas a partir da própria organização, mas só existe em troca contínua com o meio e com os outros. Ser autônomo é ser você mesmo em relação. Por isso a autonomia vem com responsabilidade pela gestão da própria existência, de forma compartilhada, porque a existência de cada um está entrelaçada com a dos demais.
Ninguém se organiza ou desorganiza sozinho.
Professores e alunos ensinam e aprendem simultaneamente. A cibernética e a Biologia do Conhecer descrevem esse movimento como circularidade: um afeta o outro o tempo todo. No nosso modelo biossistêmico e bidimensional, ela pode formar uma espiral crescente ou decrescente, conforme as condições.
E é gradual. Cada retorno ao que foi aprendido, em condições seguras, amplia um pouco a margem de escolha. Não acontece de uma vez, e é o mesmo movimento que descrevemos na Metacognição Dinâmica.
Essa é a transformação que nos interessa. É uma proposta nossa, não uma conclusão de Barrett.
Que perguntas fazer
Se aprender é reorganizar a própria organização. Antes de perguntar quanto conteúdo cabe no ano, vale perguntar:
Este conteúdo volta, ou foi dado como concluído?
Ele se liga ao que o aluno já sabe?
O aluno tem condições (sono, segurança, tempo, se sente seguro na sala de aula) para que o modelo dele se reorganize?
O que decidir se algo vai se tornar parte relativamente estável aquilo que o aluno sabe não é apenas o volume do que foi ensinado. Importa o retorno ao conteúdo, sua relação com conhecimentos anteriores, a possibilidade de usá-lo em situações novas e nas condições corporais e relacionais em que essa aprendizagem acontece.
Um abraço,
Rosana Jotta
Lembrete: Nossas referências estão em nosso glossário.
Antes de perguntar quanto conteúdo cabe no ano, vale perguntar:
- Este conteúdo volta, ou foi dado como concluído?
- Ele se liga ao que o aluno já sabe?
- O aluno tem condições (sono, segurança, tempo, se sente seguro na sala de aula) para que o modelo dele se reorganize?
O que decide se algo vai fazer parte de quem aprende não é o volume do que se ensinou. É o retorno, aquilo que cria novos caminhos em nosso cérebro, novas memórias, e as condições em que ele acontece.
Um abraço,
Rosana Jotta
Rosana Jotta é facilitadora em Condições de Contorno, Inteligência Sistêmica e Educação Biossistêmica com mais de 20 anos de experiência. Arquiteta de Contornos, Pedagoga (UFU), Consteladora Sistêmica com formação pelo IMAHOM e participação em seminário com Bert Hellinger e Pólo de Cuidado em Terapia Comunitária Integrativa pela ABRATECOM. Fundadora do Instituto Rosa da Terra, facilita processos de transformação para quem busca sair de padrões repetitivos e viver com mais consciência: clareza, leveza e sucesso. Conheça seus Treinamentos, Mentorias e Atendimentos em grupo ou individuais (presenciais ou online).