Por que a Constelação em grupo constrói confiança de um jeito que a conversa isolada não alcança
Introdução
A prática de Constelação Sistêmica em grupo, com representantes humanos, é frequentemente descrita a partir do seu conteúdo, daquilo que se revela, e raramente a partir do que acontece no corpo de cada participante e entre eles. Em geral, a descrição é esta: o constelador faz algumas perguntas, o representante repete as frases propostas enquanto percebe e expressa as reações do próprio corpo, assim algo se mostra.
Essa descrição, embora verdadeira, é incompleta. Este ensaio propõe que parte da eficácia da Constelação em grupo vem de um mecanismo que a descrição centrada no conteúdo deixa de fora: a ativação simultânea de múltiplas dimensões da experiência, verbal, espacial, motora e interoceptiva.
Essa ativação simultânea, combinada a um processo de calibração recíproca entre os participantes do grupo, constelação após constelação, constrói confiança e abertura por via biológica, e não apenas por conteúdo processado através da linguagem.
De um jeito que a conversa apenas verbal não alcança sozinha.
O que acontece em cada participante: o cérebro que prevê e o corpo que informa
Para compreender o que se passa numa Constelação em grupo, é preciso começar pelo que acontece em cada pessoa, antes de olhar para o que acontece entre elas. E aqui a neurociência de Lisa Feldman Barrett oferece uma lente preciosa.
Segundo Barrett, o cérebro não espera o mundo acontecer para depois reagir. Ele prevê continuamente o que vai acontecer, dentro e fora do corpo, a partir de tudo o que já viveu. Quando a previsão não confere com o que de fato chega pelos sentidos, surge um erro de previsão. O cérebro pode ignorá-lo e manter o modelo que já conhece, ou pode processá-lo e atualizar esse modelo. Aprender, nessa perspectiva, é atualizar previsões.
Barrett mostra ainda que essa atualização tem um custo. A principal tarefa do cérebro é administrar o que ela chama de orçamento corporal, a energia de que o corpo dispõe para viver. Processar o novo consome recurso. Por isso, diante de informações que chegam apenas como palavras, o cérebro frequentemente encontra um caminho mais econômico: encaixa o que ouve em categorias que já possui. A pessoa compreende, concorda, às vezes até se emociona, e ainda assim nada muda. A informação foi processada, mas as previsões continuaram as mesmas.
É nesse ponto que a Constelação em grupos se diferencia. Quem participa dela não recebe apenas palavras. Recebe uma experiência que envolve, ao mesmo tempo, várias dimensões.
A dimensão espacial: a história deixa de ser narrada e passa a ocupar um lugar. Quem está perto, quem está longe, quem olha para quem, quem está de costas. Relações que antes existiam apenas como relato ganham forma visível no espaço da sala.
A dimensão motora: os representantes se movem, aproximam-se, afastam-se, mudam de posição. O movimento não é descrito, é realizado ao vivo e em cores. E aqui temos nosso neurônios espelhos à favor da profundidade dessa experiência.
A dimensão interoceptiva: o representante percebe sensações no próprio corpo, um peso, um frio, uma vontade de se afastar ou de se aproximar, e as expressa. Barrett chama de interocepção essa leitura contínua que o cérebro faz dos sinais internos do corpo.
É dela que emerge o afeto nuclear, o estado mais básico da experiência, ainda sem nome e sem história.
A dimensão verbal: só então entram as palavras, as perguntas do constelador e as frases propostas, que ganham outro peso porque são ditas por um corpo que já está implicado na cena, que irá reagir a elas ou não de forma simultânea e natural.
Para o cliente que observa, essa experiência tem uma força particular. Ele vê a própria história fora de si, organizada no espaço, encarnada em outros corpos. E, enquanto olha, o seu próprio corpo responde. O que antes era uma narrativa conhecida, contada tantas vezes que já não surpreendia, passa a gerar erros de previsão por várias vias ao mesmo tempo: pelo que vê, pelo que sente, pelo que ouve. É mais difícil encaixar uma experiência assim numa categoria antiga.
Há ainda outro aspecto importante. Para Barrett, as emoções não são descobertas prontas no mundo: são construídas. O afeto bruto do corpo só ganha forma de emoção quando é categorizado por conceitos aprendidos ao longo da vida. Na Constelação, essa construção fica, de certa forma, visível. O representante nomeia uma sensação antes de saber o que ela significa. O cliente reconhece algo antes de conseguir explicar. A frequência emocional aparece antes da narrativa, e não o contrário.
Isso não significa que a neurociência explique tudo o que acontece numa Constelação. Barrett não estudou essa prática, e não é o caso de atribuir a ela conclusões que não são dela. O que a sua pesquisa permite compreender é por que uma experiência que envolve espaço, movimento, corpo e palavra tem mais chances de atualizar previsões do que uma informação que chega apenas pela linguagem. Como ela resume, as experiências de hoje se tornam as previsões de amanhã.
E a Constelação é, antes de tudo, uma experiência.
A confiança como espiral
Essa confiança não cresce em linha reta. Ela se constrói em espiral. Cada constelação parte dos mesmos três princípios estruturais da anterior, sem repeti-la. Cada pessoa não apenas ouve que está segura: vê, sente e comprova, repetidas vezes, na experiência dos outros e na própria.
Isso não torna a conversa individual menos valiosa. A aliança construída entre duas pessoas tem uma profundidade própria. O que o grupo oferece é outra coisa: a multiplicação das experiências de segurança e a possibilidade de aprender também pelo processo do outro de uma forma diferente daquela que a Terapia Comunitária Integrativa também oferece.
O papel de quem facilita
O papel de quem facilita
Nada disso acontece automaticamente. A confiança no grupo depende das condições de contorno que o facilitador sustenta: o ritmo, o respeito ao tempo de cada um, a recusa em interpretar a vida alheia, a distinção entre o que a constelação mostra e o que ele próprio pensa sobre isso.
Se o facilitador impõe leituras, prescreve comportamentos ou expõe alguém sem cuidado, a calibração acontece na direção oposta. O grupo aprende, com a mesma eficiência biológica, que ali não é seguro. E a espiral pende para a defesa, e não para a abertura.
Por isso, a ética do constelador não é um detalhe acrescentado à técnica. É parte do próprio mecanismo pelo qual a Constelação em grupo funciona.
Conclusão: uma vocação que a ciência hoje ajuda a compreender
Este ensaio propôs que parte da eficácia da Constelação em grupo vem de um mecanismo que a descrição centrada no conteúdo costuma deixar de fora. Em cada participante, a experiência mobiliza ao mesmo tempo o espaço, o movimento, o corpo e a palavra, e por isso tem mais chances de atualizar previsões do que uma informação que chega apenas pela linguagem.
Entre os participantes, a repetição das experiências de segurança, constelação após constelação, produz uma calibração recíproca que reduz a vigilância, libera recurso e constrói confiança e cooperação por via biológica.
Trata-se de uma hipótese, e é como hipótese que a apresento. A neurociência não estudou a Constelação, e não é o caso de atribuir a ela conclusões que não são suas. O que ela oferece é uma lente que ajuda a compreender por que algo que observamos na prática há tanto tempo faz sentido.
Há vinte e tantos anos, trabalhávamos apenas em grupos, em sintonia com a própria experiência fenomenológica de Bert Hellinger. Eu já trazia comigo a Gestalt, com a sua atenção ao aqui e agora, ao corpo e ao que emerge no encontro, e o grupo era, para mim, o lugar natural desse trabalho. Ainda é. Não por fidelidade a um método, mas porque foi ali que vi, repetidas vezes, pessoas que chegavam fechadas e desconfiadas irem se abrindo, constelação após constelação, à medida que o grupo se tornava um lugar seguro.
Durante muito tempo, eu sabia disso sem saber explicar. Hoje, a pesquisa de Lisa Feldman Barrett e o trabalho de Stephen Porges me ajudam a dar nome ao que sempre esteve diante dos meus olhos. Mas a ordem dos acontecimentos importa: primeiro veio a experiência, depois a explicação. É assim, afinal, que a vida ensina.
O trabalho em grupo continua sendo a minha vocação pessoal. Não porque a conversa a dois não tenha valor, mas porque há uma forma de confiança e cooperação que só se constrói quando muitos corpos aprendem juntos que é seguro estar ali.
Um abraço,
Rosana Jotta
Rosana Jotta é facilitadora em Condições de Contorno, Inteligência Sistêmica e Educação Biossistêmica com mais de 20 anos de experiência. Arquiteta de Contornos, Pedagoga (UFU), Consteladora Sistêmica com formação pelo IMAHOM e participação em seminário com Bert Hellinger e Pólo de Cuidado em Terapia Comunitária Integrativa pela ABRATECOM. Fundadora do Instituto Rosa da Terra, facilita processos de transformação para quem busca sair de padrões repetitivos e viver com mais consciência: clareza, leveza e sucesso. Conheça seus Treinamentos, Mentorias e Atendimentos em grupo ou individuais (presenciais ou online).